1. Introdução.

Aristóteles exerceu grande influência sobre Tomás, disso não há dúvida. Mas não se pode imaginar que Tomás seja um mero discípulo de Aristóteles, preocupado em preservar seu mestre de ataques e defender cegamente sua doutrina. Tomás é verdadeiro discípulo, isto sim, de Jesus Cristo; Tomás é filho leal da Igreja: não quer voltar a Aristóteles, mas trazer Aristóteles até si. Por isso, quem quiser conhecer o pensamento aristotélico deve consultar Aristóteles, e não Tomás.

Este artigo revela isto de maneira muito interessante: de fato, uma das fontes mais importantes a respeito das circunstâncias dos atos humanos é Aristóteles; mas Tomás conhece outras fontes, como Marco Túlio Cícero (que escreveu séculos depois de Aristóteles, num contexto muito mais jurídico do que filosófico) e diversos Padres da Igreja, como o próprio São João Damasceno (que bebeu nas fontes anteriores, reinterpretando-as já com uma visão cristã).

Tomás não é um destruidor, mas um verdadeiro sintetizador das tradições que recebe. Ele as mantém vivas sem congelá-las, relendo-as e atualizando-as cuidadosamente, sintetizando-as e harmonizando-as para torná-las adequadas à realidade do seu próprio tempo. Este é o interesse deste artigo: trata-se de uma bela síntese, que nos ensina o caminho do respeito à tradição sem saudosismos.

O artigo não nos apresenta, logo no início, essa enumeração, pressupondo que a conheçamos de algum modo; em todo caso, ela será apresentada mais adiante, na resposta sintetizadora de Tomás, que examinaremos no próximo texto, quando Tomás comparar a lista feita por Aristóteles com outra muito popular até hoje, feita pelo romano Cícero, que ainda é usada nos manuais de prática forense de nossos dias. Por enquanto, manteremos na mente apenas que, segundo a hipótese apresentada neste artigo, a lição de Aristóteles sobre as circunstâncias não é boa, cientes de que, ao final do estudo deste artigo, saberemos que lição é esta — e isto é parte da pedagogia de Tomás, tão oposta à nossa ansiedade de hoje, que quer a informação logo, completa, adiantada, enquanto ele sabe fazer os discípulos esperarem.

O debate, aqui, parte de uma crítica a Aristóteles, como veremos, para chegar a uma síntese magistral, como estudaremos nos próximos textos. Vamos ao debate.

2. A hipótese polêmica inicial.

A hipótese inicial propõe-nos, para estimular o debate, que a maneira pela qual Aristóteles enumera as circunstâncias dos atos humanos no Livro III da Ética a Nicômaco não é adequada – o que nos forçará a examinar, desde logo, quais são os motivos dos que se contrapõem a ela. Examinemos os três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese.

  1. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que, na obra “Ética a Nicômaco”, Aristóteles enumera vários aspectos ou dimensões da ação como suas “circunstâncias”. Sabemos que “circunstâncias” são aquelas dimensões concretas que estão ao redor, mas não fazem parte da própria ação. Mas há apenas duas coisas que inserem uma ação humana na concretude da história e não são parte dela: o tempo e o lugar em que ela foi praticada. Assim, Aristóteles está errado, diz este argumento, porque existem apenas duas circunstâncias: o tempo, quer dizer, o momento em que foi praticada, e o lugar, isto é, a localização geográfica onde o ato ocorreu.

O segundo argumento objetor.

As circunstâncias servem para determinar se certo ato humano foi adequado ou inadequado, isto é, se foi um ato bom ou mau. Ora, prossegue o argumento, há apenas um aspecto que determina a bondade ou maldade de um ato sem fazer parte de sua própria substância: o modo pelo qual ele foi praticado. Assim, conclui este argumento, a enumeração de Aristóteles está equivocada, porque há apenas uma circunstância relevante, isto é, o modo.

O terceiro argumento objetor.

As circunstâncias, como já sabemos, não podem fazer parte da própria substância do ato, mas estão como que ao redor dele, lembra este argumento. Mas as causas de um ato fazem indiscutivelmente parte daquilo que o próprio ato é, isto é, da sua substância. Como sabemos, o próprio Aristóteles nos ensina que as causas são: causa formal, causa material, causa eficiente e causa final. Ora, prossegue o argumento, então nada que seja uma dessas causas pode ser considerado como circunstância do ato. Ora, quando há um ato humano, a causa eficiente é quem o praticou; a causa material é com que, ou acerca de que é o ato, e a causa final é por que o ato foi praticado.Portanto, qualquer enumeração que coloque o quem, o porquê e o com quê (ou acerca de quê) como circunstâncias está errada, porque confunde causas com circunstâncias. Logo, a enumeração de Aristóteles está equivocada, conclui este argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra normalmente recorre a uma autoridade para mostrar que a hipótese inicial é inaceitável. Aqui, o argumento simplesmente afirma: ora, é o próprio Aristóteles quem, na sua obra sobre a Ética, enumera essas circunstâncias como aquelas que incidem sobre os atos; logo, a hipótese deve estar errada, embora este argumento não explique ainda por que – teremos que esperar a própria resposta de Tomás, no próximo texto, para descobrir.

5. Encerrando por enquanto.

O Papa Leão XIII, no século XIX, na Encíclica Aeterni Patris, convidou a Igreja a “ir a Tomás”. Foi um bom convite, diante das circunstâncias que a Igreja vivia então e considerando a grande síntese que Tomás realizou. O Papa possibilitou o resgate de um grande teólogo que corria o risco do esquecimento, numa época em que a teologia andava, talvez, precisando de um lastro robusto.

Mas um convite mais adequado, hoje, seria seguir o exemplo do que Tomás fez com Aristóteles. Não se pode ir simplesmente a Tomás; ele escreveu e pensou há mais de oito séculos, e não se pode desconsiderar o fato de que, de lá para cá, muita coisa aconteceu: muitos desafios foram colocados à Igreja e à humanidade — alguns justos e profundos, outros capazes de desorientar os corações. Nenhum deles, contudo, é irrelevante, nem estava posto no tempo de Tomás.

Por isso, nosso objetivo, neste trabalho de leitura e conversa sobre Tomás, é mais do que ir a ele: trata-se de convidá-lo a vir até nós, relê-lo de modo a ressaltar sua relevância ainda hoje e fazer seu modo de pensar entrar em diálogo com tudo o que o sucedeu. Ele fez isso com Aristóteles, e parece ser sinal de grande fidelidade a ele que o façamos também com seus próprios ensinamentos. Por isso, o objetivo aqui não é a simples veneração à Suma, um saudosismo de museu. É a redescoberta e a posse, por nós, dessa grande catedral, que nunca deixou de nos abrigar em todos esses séculos, mas que não convida ao retorno, senão ao avanço.

Quanto às circunstâncias, veremos a resposta de Tomás no próximo texto.