1. Retomando para concluir.

Somos caminhantes no rumo da santidade… ou pelo menos deveríamos ser. Este caminho, como vimos no último texto, ocorre sob nosso próprio olhar reflexivo, sob o olhar das instituições sociais de integração e controle e sob o olhar de Deus. É este olhar que o dirigente espiritual desenvolve, levando em conta o fato de que somos criaturas históricas, de carne, cujos atos só podem ser adequadamente compreendidos considerando suas circunstâncias. Uma vez que a fé de uma criatura de carne e osso deve ser uma fé vivida, e não apenas declarada da boca para fora, podemos afirmar com segurança que os teólogos não se limitam a observar o ato em suas espécies abstratas, quer dizer, as intenções do coração, mas olham para o ato em suas circunstâncias concretas. Como diz o ditado popular, de boas intenções o inferno está cheio. Deus nos quer santos aqui e agora. Somente considerando as circunstâncias dos nossos atos é que nossos confessores e diretores espirituais podem nos ajudar nesse caminho, quer para nos incentivar a agir bem, quer para nos afastar ou mesmo para nos perdoar pelas más ações que nos afastam de Deus.

De posse desses princípios, vamos examinar agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que procuravam comprovar a hipótese, agora superada, de que as circunstâncias dos atos humanos não deveriam interessar aos teólogos.

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás a eles.

O primeiro argumento objetor.

Os diretores espirituais interessam-se pelos nossos atos por suas dimensões de bons ou maus, mas não deveriam interessar a eles os aspectos que não tenham essa qualificação, como, por exemplo, os atos simplesmente úteis ou circunstanciais. Por exemplo, não interessa ao sacerdote, na confissão, onde eu abasteci o veículo que me conduz ao pecado. Ora, diz o argumento, as circunstâncias do ato humano podem lhe dar localização, concretude, podem ter relação com os meios, etc., mas não qualificam o próprio ato como bom ou mau. Somente a essência do ato, sua substância direta, dão essa qualificação de ato bom ou mau; por exemplo, o que faz um homicídio ser mau é ser um ato de matar alguém, independentemente de ser feito pela manhã ou pela tarde, neste ou naquele horário ou lugar. Portanto, os teólogos não precisam se preocupar com as circunstâncias, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

De certo modo, a relação sempre envolve a conexão entre duas ou mais realidades, que têm entre si um vínculo pelo qual as realidades conectadas ajudam-se no caminho daquele bem que surge para as duas a partir da própria relação. Neste sentido, podemos dizer que as realidades relacionadas são reciprocamente úteis na busca do bem comum e do bem de cada uma. Pensemos, por exemplo, em dois animais que vivem em simbiose, como certos peixes que ajudam os outros a se manterem livres de parasitas, enquanto se alimentam e são protegidos pelos maiores. Ambos são reciprocamente úteis no atingimento dos seus próprios fins.

Neste sentido, as circunstâncias são elementos que se relacionam com o ato, não somente como elementos internos a ele, mas também como aquele entorno no qual ele se concretiza. Assim, são úteis à qualificação dos atos, já que o encaminham a seus próprios fins, ajudando a torná-lós bons ou maus. Pensemos num homem que atira em outro: a depender das circunstâncias, podemos estar diante de um ato mau, um homicídio. Mas podemos também estar na presença de um soldado que protege heroicamente seu país contra uma invasão estrangeira. Deste modo, as circunstâncias ajudam a qualificar os atos, e devem ser consideradas pelos teólogos, diz Tomás.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra que as circunstâncias são os acidentes dos atos, como foi visto no artigo anterior a este. Mas, enquanto a substância de um ente tende a permanecer, seus acidentes podem variar infinitamente e são sempre contingentes. Deste modo, eles não podem ser objeto de algum conhecimento certo e firme como o conhecimento teológico, que se quer racional e metódico. As coisas ilimitadas e contingentes podem ser objeto das artes, como a literatura ou a poesia, mas não de conhecimento científico e metódico. Por exemplo, a biologia pode estudar os cães, mas não pode determinar de antemão todas as cores possíveis para a pelagem dos cães, cabendo apenas aos artistas representá-las em suas obras. Assim, os acidentes não podem ser objeto da teologia, conclui.

A resposta de Tomás.

É verdade, reconhece Tomás, que as circunstâncias são os acidentes do ato e que os acidentes, tomados em sua totalidade individual e contingente, podem variar de modo incontável e indeterminado. Se a teologia tivesse de inventariar cada detalhe irrelevante de cada ação singular humana, ela deixaria de ser um conhecimento metódico e racional e cairia em uma dispersão sem fim.

No entanto, São Tomás esclarece que a teologia não se ocupa de todas e quaisquer circunstâncias acidentais, mas apenas daquelas que afetam diretamente a qualidade do ato. Nem todo acidente é relevante, mas nem toda circunstância permanece meramente extrínseca; certas circunstâncias alteram a própria natureza moral da ação, transformando-a de boa em má, ou vice-versa, ou modificando a sua gravidade.

Voltemos ao exemplo do cão e da biologia: a ciência biológica não precisa prever todas as manchas possíveis na pelagem de um animal para compreendê-lo, mas certamente deve considerar se a cor da pelagem funciona como uma camuflagem essencial para a sua sobrevivência em um determinado habitat. Da mesma forma, o teólogo e o diretor espiritual não precisam se ater a detalhes irrelevantes — como a fase da lua do dia da semana em que um furto foi cometido —, a menos que essa circunstância mude a espécie do ato, como seria o caso de um furto praticado num lugar sagrado (o que o torna um sacrilégio).

Portanto, as circunstâncias entram no campo da teologia não enquanto contingências puras e caóticas, mas enquanto se ordenam à razão espiritual, isto é, enquanto podem resultar em atos que afastam mais ou aproximam mais o ser humano de Deus. Deste modo, as circunstâncias que interessam ao diretor espiritual são aquelas que podem ser reduzidas a categorias e tipos bem definidos.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento busca afastar o teólogo da função de um mero orador. Na tradição clássica, o orador é aquele que discursa no âmbito das assembleias políticas e jurídicas — nos tribunais e nas casas legislativas, por exemplo —, utilizando o impacto das circunstâncias para mover as emoções do julgador ou do povo, buscando a punição do adversário, a absolvição de seu cliente ou a conquista de honra e distinção para ele. O argumento objetor sustenta, então, que considerar as circunstâncias de uma ação é tarefa própria da retórica e da oratória, como atividades civis e sociais, e não da teologia. Afinal, o sacerdote na confissão ou o diretor espiritual não são “influenciadores” de Deus, como se tivessem de construir um discurso persuasivo para convencer o Senhor sobre a qualidade do fiel, nem Deus é um juiz terreno que precisa ser informado ou sensibilizado por narrativas sobre o “aqui e agora”. Sendo a teologia um saber sobre a verdade divina e não uma arte de persuasão forense, as circunstâncias não deveriam interessar aos teólogos, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás responde mostrando que a consideração das circunstâncias serve a finalidades radicalmente distintas na arte do orador e na reflexão do teólogo. O orador político e forense recorre às circunstâncias exteriormente, para mover os afetos e induzir um juiz humano — que não lê os corações — a conceder penas, absolvições ou honras terrenas. O teólogo e o diretor espiritual, ao contrário, não olham para as circunstâncias para persuadir a Deus de nada, pois o Senhor conhece perfeitamente a verdade de cada alma e não necessita de defesas retóricas.

O teólogo, ou diretor espiritual, por sua vez, se importa com as circunstâncias porque a santidade não é uma abstração teórica nem a busca de honras ou sanções mundanas, mas a resposta concreta do homem à graça de Deus no tecido real da vida. É no “aqui e agora” das nossas circunstâncias cotidianas que a fé se torna viva e que o amor a Deus se encarna em atos reais. Uma boa intenção que ignora as circunstâncias do momento, do lugar ou da medida justa corre o risco de se tornar uma ilusão espiritual ou uma desordem. Portanto, longe de atuar como um advogado de defesa diante de Deus, o confessor e o diretor espiritual examinam as circunstâncias para ajudar o fiel a discernir como acolher e corresponder plenamente à graça divina na sua história concreta, afastando os obstáculos que o impedem de caminhar rumo à santidade.

  1. Concluindo.

Ao sintetizar o Artigo 2 da Questão 7, São Tomás nos entrega um antídoto indispensável contra dois desvios recorrentes na vida espiritual — os mesmos dois erros sutilíssimos que o Papa Francisco não cansa de denunciar em nossos dias: o gnosticismo e o pelagianismo.

Por um lado, se a teologia e a direção espiritual ignorassem as circunstâncias, sob o pretexto de olhar apenas para as “intenções puras” do coração, a fé se transformaria numa abstração desencarnada. Cairíamos num gnosticismo, ou seja, em uma espiritualidade sem carne, sem história e sem o “aqui e agora”, esquecendo que o ser humano é uma criatura situada historicamente, e que Deus nos quer santos na matéria concreta da nossa vida cotidiana.

Por outro lado, se o teólogo olhasse para as circunstâncias como o fazem o eticista, o orador ou o jurista — meramente para acusar, desculpar, medir desempenhos ou construir discursos persuasivos —, a fé seria reduzida a um “desempenho” de esforço pessoal, análogo ao que se faz perante assembleias ou tribunais humanos. Cairíamos num pelagianismo, no erro de crer que a salvação é um somatório de méritos retóricos ou um controle moralista de detalhes, e não uma resposta humilde à Graça que nos precede e cura.

A consideração das circunstâncias pelo teólogo não serve para julgar friamente com categorias jurídicas, nem para alimentar intenções angelicais e vaporosas. Serve para nos lembrar que a graça de Deus nos alcança exatamente onde estamos. A santidade não é nem uma teoria flutuante nem um moralismo voluntarista: é a resposta amorosa, concreta e encarnada da criatura ao Criador, vivida dia a dia na trama real das nossas circunstâncias.