- Retomando.
O ser humano estabelece muitas relações, que pressupõem sua própria capacidade de relacionar-se de modo inteligente e voluntário: um “centro de imputação” capaz de fazê-lo não um algo, mas um alguém. Ou, como diz a antiga tradição cristã, um “coração”. Esse coração pede e anseia pela perfeição, e essa perfeição se dá também relacionalmente. A Tradição distingue, no entanto, três profundidades, ou dimensões, ou ainda olhares, que se interessam pelo aperfeiçoamento das relações humanas:
- O olhar de “primeira pessoa”: o próprio indivíduo anseia pelo bem, e quer discernir, dentre tudo o que atrai sua vontade, aquilo que é capaz de desenvolver suas virtudes e torná-lo mais perfeito, quer dizer, mais parecido com aquilo que Deus pensou para ele.
- O olhar de “terceira pessoa”, que é o olhar do jurista, do político, do jornalista, enfim, de todo aquele que olha para a pessoa como que “de fora”, comparando a externalidade de seu agir com algum padrão esperado – a lei, o dever cívico, a expectativa religiosa ou familiar, de modo a recriminá-lo ou homenageá-lo, na medida que seu agir se aproxime ou se afaste do padrão esperado.
- O olhar de “segunda pessoa”, ou seja, o olhar com que o próprio Deus olha para ele, e pode vê-lo como alguém que responde adequadamente ao chamado de Deus e à graça concedida, de modo a encaminhar-se para a santidade.
O debate, aqui, é sobre a abrangência desse olhar de “segunda pessoa”. A hipótese avançada no texto anterior propunha que esse olhar, que é o olhar do pastor, e que tem um enfoque teologal (quer dizer, olha sob a perspectiva de Deus) não está interessado nas circunstâncias de nossos atos concretos. Três argumentos iniciais tentam comprovar essa hipótese: o primeiro argumento afirma que a Deus interessa o que está dentro do coração, e não as circunstâncias dos atos concretos, que são externos ao agente e portanto irrelevantes para julgar a interioridade do ser humano. O segundo argumento lembra que os acidentes são inúmeros, indeterminados a cada momento, contingentes, uma vez que a riqueza do momento em que a ação é realizada é inesgotável; assim, já que o olhar espiritual do teólogo é sempre metódico, racional e enfoca o eterno, ele não pode se preocupar com aquilo que é naturalmente indeterminado e contingente. O terceiro argumento lembra que, como vimos no exame do último artigo, as circunstâncias são matéria própria de quem olha em “terceira pessoa” (como o jurista, o político, o historiador, que querem conhecer o agir externo da pessoa para julgar se ele é digno de homenagens ou de reprovação), e portanto não podem interessar a quem quer encaminhar a pessoa para Deus. Por fim, o argumento contrário à hipótese inicial lembra que o caminho para a perfeição da santidade envolve discernir quais atos são resposta adequada à graça e quais são simplesmente pecaminosos e precisam de arrependimento e perdão sacramental; para isso, diz o argumento, um diretor espiritual precisa levar em conta o ato e suas circunstâncias.
Postos os elementos do debate, vamos estudar a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Sim, diz Tomás, as circunstâncias dos atos humanos interessam aos nossos pastores e diretores espirituais, que nos olham com olhar teológico, isto é, que nos olham sob o ângulo da visão do próprio Deus. Eles não estão interessados apenas nas nossas grandes intenções internas, ou nas orientações abstratas de nossos corações, ou por algum tipo de “opção fundamental” por Deus. Querem conhecer a concretude do que fazemos, para melhor nos orientar no caminho do céu: a teologia desenvolve, portanto, uma “ética teológica” que, mais do que nos ajudar a desenvolver virtudes humanas e agir bem, pessoal e socialmente, quer nos levar para Deus.
E há três razões pelas quais os teólogos devem se interessar pelas circunstâncias de nossos atos:
- A ética teológica, ou seja, a meditação teológica sistemática sobre o agir humano, tem por objeto o caminho do ser humano para a santidade, isto é, para a amizade e a intimidade com Deus que chamamos de “salvação”. Ora, a salvação não é um assunto abstrato na vida do ser humano, mas algo que envolve nosso agir concreto, com todas as suas circunstâncias, para nos ajudar a crescer em semelhança com Deus e em perfeição na resposta à graça. Para isso, é muito importante estar atento às circunstâncias de nossas ações.
- A ética teológica, isto é, o olhar do teólogo sobre o agir humano, deve ser capaz de orientar as ações para o bem e fazê-las se afastar do mal. Ora, apenas a consideração das circunstâncias permite alcançar esse objetivo: basta imaginar, por exemplo, um soldado que atira num inimigo para proteger seu país mas não leva em conta se o inimigo de fato é uma ameaça, ou se seu tiro pode atingir acidentalmente um circunstante – o que retira toda a qualidade moral de sua ação.
- O teólogo, no seu trabalho de ajudar o cristão a caminhar para o céu, quer fazer o caminhante ser digno de mérito e livre de demérito, isto é, agradável a Deus e livre de repreensões na sua resposta à graça santificante. Mas o mérito ou a repreensão diante de Deus dependem da voluntariedade dos atos, e a voluntariedade só pode ser plenamente exercida em conformidade com as circunstâncias em que agimos: se por medo, por concupiscência, por desapego, por ambição, no momento adequado ou a destempo e assim por diante.
Deste modo, por estas três razões, a ética teológica que nos ajuda a caminhar para a santidade, e que é o olhar próprio de nossos pastores, deve se importar com as circunstâncias de nossos atos.
3. Encerrando por enquanto.
A nossa relação com Deus é encarnada, histórica, e se manifesta em nosso coração e em nossas ações concretas. Por um lado, precisamos crer, como opção básica por Deus em resposta à graça (Quem crê com o coração obtém a justiça, e quem confessa com a boca, a salvação, diz Romanos 10,10). Mas isto não basta: é preciso responder de modo integral, com a própria vida, porque “nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7,21). Devemos ser capazes de agir de tal modo que possamos mostrar nossa fé pelos nossos atos (Tiago 2,18). Por isso, para que Deus se manifeste no menor dos nossos atos, é que as suas circunstâncias são teologicamente importantíssimas.
No próximo texto veremos, a partir destes princípios, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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