1. Introdução.

Estamos vivendo em um mundo fragmentado. Em nosso mundo, aquilo que é jurídico ou político é completamente destacado daquilo que é ético, e o ético, por sua vez, encontra-se relativamente desligado daquilo que é parte da fé, parte da religação do ser humano a Deus. De fato, a maioria de nós, hoje, tende a pensar que a fé, a nossa vida espiritual, não tem nenhuma ligação com a nossa ética (entendida como aquele comportamento que obedece aos costumes, ou que passa pelo teste kantiano da universalização — agir de tal maneira que a ação possa se tornar uma lei universal e jamais instrumentalize a outra pessoa como mero meio para os fins do agente)  nem com nossas posturas políticas, e muito menos com aquilo que é lícito ou ilícito conforme o direito. Se infringirmos uma lei de trânsito, pensamos que estamos apenas no campo do lícito ou do ilícito, e jamais imaginamos que podemos, assim, ofender a Deus também. 

Neste mundo fragmentado, a fé pertenceria ao reino do irracional, do sentimento, da empolgação com Deus, mas não ao reino do comportamento propriamente dito. No máximo, pensamos que certas máximas devem guiar a conduta pública da pessoa de fé, para evitar escândalos, e todo o resto pertence à intimidade que, acreditamos, existe entre o fiel e Deus. Por que, pensamos nós, alguém deveria estudar tão profundamente os atos humanos concretos, pensando na relação das pessoas com Deus, ou seja, será que esses atos devem ser matéria também para uma abordagem teológica? Isto não seria conceder aos líderes espirituais um poder muito grande sobre as consciências e os comportamentos, dando-lhes o controle minucioso sobre os outros? Eis o debate que agora se estabelece. 

  1. A hipótese controvertida inicial.

Diante dessa visão fragmentada do mundo moderno, o artigo nos propõe uma hipótese que soa surpreendentemente contemporânea, e nos forçará a repensar os nossos próprios pressupostos de fé: A teologia, ou seja, a reflexão sistemática daqueles que meditam e nos conduzem no caminho da fé, não deve se preocupar em estudar as circunstâncias concretas dos atos humanos. Os nossos mestres e guias espirituais na fé deveriam desenvolver uma ciência teológica voltada apenas para as coisas divinas, para os mistérios da fé, a oração e a contemplação de Deus, propõe a hipótese. Os teólogos não deveriam descer ao nível das minúcias da conduta cotidiana do fiel, controlando tempos, lugares, instrumentos e modos de agir, eis a proposição.

Há três argumentos iniciais que tentam comprovar essa hipótese.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor. 

Nossos sacerdotes e diretores espirituais, diz o argumento, deveriam considerar os atos humanos unicamente naquilo em que eles nos ordenam para Deus e para a beatitude eterna. Ora, o que liga a alma a Deus é a própria substância, a essência mais interior, mais profunda, mais essencial do nosso querer — a intenção do coração, a virtude, a graça santificante. As circunstâncias externas (o “onde”, o “quando”, o “com quem” ou o “como”, por exemplo) de uma ação concreta são meramente acidentais; elas estão apenas “ao redor” do ato (circum-stant), sem alterar a sua essência nem revelar as opções fundamentais do coração. Se o que importa para a salvação é a disposição interior da alma diante de Deus, que só Deus conhece e os teólogos podem apenas orientar de modo muito amplo e externo, as circunstâncias concretas e os detalhes conjunturais de cada ato humano seriam irrelevantes para a reflexão e orientação teológica, conclui o argumento. 

O segundo argumento objetor.

As circunstâncias de qualquer ato humano, diz este argumento, são virtualmente infinitas: uma mesma ação pode ocorrer em infinitos lugares, momentos, cenários e combinações de contexto. O concreto das ações humanas, portanto, é inesgotável e, assim, impossível de prever e catalogar sem cometer uma redução inaceitável e levar a um viés de controle e comando dos atos livres dos fiéis. Ora, a orientação teológica deve ser metódica, deve ser consistente, e principalmente deve orientar de modo claro e firme para a liberdade; e é um princípio clássico de que não se pode tratar daquilo que é infinito e imprevisível de modo metódico e consistente, porque a teologia deve lidar com o que é permanente, não com o que é contingente. Tentar catalogar ou analisar todas as circunstâncias possíveis seria um esforço fútil e interminável, e levaria a um aprisionamento da liberdade humana dos fiéis. Logo, a Teologia não pode — e não deve — tentar abarcá-las, diz este argumento.

O terceiro argumento objetor.

Esse controle minucioso dos atos humanos concretos, em suas minúcias, em suas circunstâncias contingentes e históricas, é objeto da ética, que se preocupa com a vida em sociedade, com a atenção à educação básica e ao desenvolvimento das virtudes pessoais e sociais. Também é objeto do direito e da retórica política, que se preocupa em controlar, enaltecer e punir socialmente as condutas, conforme sejam adequadas ou inadequadas socialmente, lícitas ou ilícitas, honrosas ou desonrosas politicamente. Ora, nenhuma dessas dimensões deve preocupar os mestres da teologia, que cuidam do bem-estar espiritual das pessoas e não da conveniência, licitude ou mesmo honorabilidade de seus atos. Assim, a teologia não deveria se preocupar com as circunstâncias dos atos humanos, nem tê-las como parte do seu objeto de interesse, conclui o argumento. 

  1. O argumento sed contra.

A conduta do ser humano chamado por Deus à salvação e à santidade deve estar à altura da graça a ele concedida por Deus que o chamou. Ora, as circunstâncias de seus atos são essenciais para que o próprio fiel possa realizar seu exame de consciência e crescer no caminho da santidade. Somente com a visão completa de seu agir, que é resposta de fé ao chamado de Deus, o fiel pode discernir como caminhar adequadamente no caminho do Senhor, e somente conhecendo esses aspectos da conduta humana é que seus mestres espirituais podem bem orientá-lo nesse caminho. Assim, é essencial que a teologia se interesse pelas circunstâncias dos atos humanos, conclui o argumento. 

5. Encerando por enquanto.

Como se vê, a questão proposta por Tomás de Aquino vai muito além de uma disputa acadêmica medieval: ela toca no coração do nosso modo de viver e crer, questionando se Deus se importa com a concretude da nossa história ou apenas com as nossas intenções abstratas. Por outro lado, há sempre a preocupação em evitar os abusos espirituais de maus líderes que querem saber para controlar, para se imiscuir na conduta dos fiéis, eliminando sua própria liberdade. No próximo post, veremos como a resposta sintetizadora de Tomás não apenas desata esses nós conceituais, mas devolve ao agir cotidiano toda a sua dignidade espiritual.