1. Retomando para finalizar. 

Vimos, no texto anterior, a resposta sintetizadora de Tomás a respeito da influência da ignorância na voluntariedade das ações humanas. Vimos, ali, mais uma daquelas distinções geniais de Tomás, com a qual ele desata o nó da relação entre ignorância e vontade. Em sua resposta sintetizadora, Tomás nos mostra que nem toda ignorância transforma um ato em algo feito sem querer, isto é, involuntário; tudo depende do momento e do papel da intenção:

  • Ignorância Antecedente (Ato Involuntário): É aquela limitação inevitável da nossa natureza. Você toma todos os cuidados do mundo, mas acontece algo totalmente fora do seu controle ou conhecimento (como um cachorro que cruza a pista do nada à frente do carro que você dirige com toda a cautela). Como não dava para prever, o ato resultante é puramente involuntário.
  • Ignorância Concomitante (Ato Não-Voluntário): Ocorre quando você age sem saber de um detalhe, mas a consequência combina, lá no fundo, com o seu desejo secreto — como atirar na moita achando que é um bicho e acertar o vizinho que você já queria ver pelas costas. Você não sabia o que estava fazendo na hora, mas como não vai chorar pelo leite derramado, não há, aqui, a contradição entre vontade e conhecimento que havia na hipótese anterior. Assim, o ato é não-voluntário (ou noluntário).
  • Ignorância Consequente (Ato Voluntário): É a famosa cegueira deliberada. A pessoa decide fechar os olhos de propósito — por exemplo, o médico que prefere não ler as pesquisas mais atualizadas para continuar receitando o que quer, por razões econômicas ou ideológicas. Como a ignorância foi uma escolha, a ação continua plenamente voluntária.

Em suma: o grau de responsabilidade muda conforme a vontade se relaciona com o conhecimento.

Em sua resposta sintetizadora, Tomás nos resolve as dúvidas quanto às objeções iniciais, sem enfrentá-las separadamente. Mas, para fins didáticos, vamos voltar a elas e examiná-las à luz dessas novas distinções. 

  1. Os argumentos objetores iniciais e as suas respectivas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento resgata um ensinamento de São João Damasceno, que pregava que aquilo que é feito involuntariamente não merece condenação, mas compreensão. Mas nem sempre aquilo que é feito por ignorância merece compreensão, merece ser relevado e esquecido. De fato, diz o argumento, as Escrituras nos dizem, em 1 Cor 14, 38: Se alguém, porém, o quer ignorar, será ignorado. Logo, a ignorância não causa a involuntariedade. 

A resposta de Tomás.

Este exemplo, tirado das Escrituras e registrado por São Paulo, diz respeito à chamada “ignorância afetada” ou ignorância consequente. Ele está se referindo àqueles que, podendo e devendo conhecer a verdade de Deus, preferem voluntariamente ignorá-la ou desconsiderá-la para agir sem levá-la em conta. Neste caso, como vimos na resposta sintetizadora, não há involuntariedade na conduta de quem deliberadamente escolhe ignorar o que deveria saber.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que, de certo modo, todo pecado pressupõe algum tipo de ignorância, pois as Escrituras ensinam que (Pr 14, 22) aqueles que agem mal, erram. ora, se a ignorância causasse a involuntariedade dos atos, diz o argumento, todo pecado seria, no fundo, involuntário. Mas Santo Agostinho nos ensinou justamente o contrário; todo pecado é voluntário, diz o grande Padre e Doutor da Igreja. Deste modo, o argumento conclui que a ignorância não causa a involuntariedade.

A resposta de Tomás. 

De certo modo, toda escolha humana carrega uma pequena dose de “ponto cego”. Santo Tomás chama isso de ignorância de escolha. Há sempre um grau de ignorância antecedente em tudo o que fazemos. Ou seja, quando decidimos fazer algo, sempre há detalhes da situação que a nossa mente não consegue prever ou controlar. 

Esse “ponto cego” nem sempre é uma falta de informação teórica (como achava Platão), mas nem sempre é uma eventualidade totalmente fora do nosso controle — como quando um cachorrinho se joga na frente do carro em movimento. Tampouco é sempre uma cegueira total da mente, pois a cegueira tiraria a nossa responsabilidade. Trata-se, muitas vezes, de um obscurecimento da nossa visão moral no exato momento da decisão: a paixão ou o egoísmo turvam a razão, fazendo a gente aplicar mal uma regra correta na hora de agir. Quando nasce desse desvio do próprio coração, o pecado continua sendo voluntário.

Por outro lado, é justamente porque a inteligência humana é limitada que existe esperança. Nós não somos como os anjos, que veem tudo de uma vez com clareza absoluta e tomam decisões definitivas e irreversíveis. O ser humano decide sempre a partir de um conhecimento que abarca apenas uma parte do todo. E é essa limitação da nossa mente que deixa a porta aberta para a conversão: quando a poeira da paixão baixa e o julgamento recupera a clareza, a inteligência reavalia o que fez, permitindo que o coração se arrependa e se abra ao perdão de Deus.

O terceiro argumento objetor.

Uma marca, no nosso coração, de que determinada conduta nossa foi involuntária, é a tristeza que costuma acompanhar essas ocorrências. Quem atropela, por acidente, um cãozinho que se jogou nas rodas do seu carro sabe exatamente do que se fala, aqui, quanto à tristeza no coração. Mas nem sempre existe essa tristeza nos atos feitos O involuntário é acompanhado de tristeza, como diz Damasceno. Ora, certos atos são feitos por ignorância e sem tristeza, como quando alguém mata o inimigo, que quer matar, pensando matar um cervo. Logo, uma vez que a tristeza sempre acompanha o involuntário, mas nem sempre acompanha aquilo que se realiza por ignorância, a ignorância não causa o involuntário. 

A resposta de Tomás. 

A nossa dificuldade em entender este ponto revela o quanto a cultura atual reduziu a ética a uma espécie de direito penal. Olhamos para a vida moral, hoje em dia, quase sempre com os olhos de um juiz externo (em terceira pessoa), preocupado em medir a responsabilidade alheia e aplicar critérios objetivos de justiça. Do ponto de vista de um tribunal, não há diferença alguma entre a responsabilidade do motorista que atropela o cãozinho e do caçador que mata o inimigo pensando ser um cervo: nos dois casos, houve um acidente imprevisto que isenta o agente de punição jurídica. Nós, modernos (ou pós-modernos) saímos dos dois casos com a consciência leve, mas não necessariamente com o coração mais puro.

A ética de Tomás não é um código penal para julgar os outros a partir do olhar impessoal de um juiz externo; é uma pedagogia em primeira pessoa, um caminho para transformar o próprio coração. Por isso, a virtude da justiça cede, em Tomás, o lugar central à virtude da caridade.

Para Tomás, o que define o valor propriamente moral da ação não é sobretudo o tempo em que a falha de conhecimento aconteceu, mas a posição lógica e espiritual da ignorância em relação à intenção do coração:

  • O Involuntário e a Ignorância Antecedente: No caso do cãozinho, a falta de informação se coloca logicamente “antes” (à frente, com prioridade invencível) com relação à eleição do agir. Se o motorista soubesse do risco, jamais teria avançado. Por atuar como um escudo que preserva a intenção do coração, o erro produz um ato estritamente involuntário — o que é provado pela dor e tristeza sinceras de quem descobre o que fez.
  • O Não-Voluntário e a Ignorância Concomitante: Já no caso do caçador que não sente tristeza — ou até se alegra — ao ver o inimigo morto, a ignorância não causou o desejo de morte; o ódio já habitava o seu peito e corria em paralelo (concomitante) ao acidente. Diante do juiz humano, ele pode até ser absolvido por falta de provas, mas diante de Deus o ato revela uma profunda falta de caridade. O ato, do ponto de vista da perfeição individual (acessível apenas ao próprio agente e a Deus, mas justamente por isso muito mais importante) não foi estritamente involuntário (pois a vontade não repudiou o mal), mas apenas não-voluntário.

A ignorância dos fatos, neste último caso, pode até nos defender em um tribunal de homens, mas não cura o coração que não sabe amar. Em última análise, a distinção tomista nos lembra que o fim da vida moral não é simplesmente “não cometer infrações”, mas cultivar uma alma capaz de buscar sinceramente o bem, chorar pelo mal e responder com caridade.

  1. Concluindo. Para além do tribunal das nossas justificativas.

Olhar para essas distinções de Tomás nos ajuda a enxergar a armadilha do nosso próprio tempo. Pressionados por séculos de herança filosófica, aprendemos a julgar a vida interior por atalhos. Hume nos acostumou a olhar para a ética com um olhar externo e teoricamente imparcial, uma opinião de plateia ou de utilidade social; Kant a reduziu a um tribunal frio de deveres abstratos; Rousseau confundiu a pureza do coração com a mera sensação de inocência; e o emotivismo contemporâneo — tão bem criticado por Alasdair MacIntyre — transformou a ética em preferências pessoais disfarçadas de discurso moral.

O resultado desse acúmulo foi a perda do essencial: transformamos a vida interior em um exercício de terceira pessoa, focado em medir culpas alheias ou em construir defesas jurídicas para nós mesmos diante da sociedade.

Mas a síntese de Tomás nos devolve à verdade do nosso coração. Ao discernir como a ignorância afeta a nossa vontade, ele não nos oferece um manual de absolvição jurídica, mas um guia para aquele que busca construir virtudes no caminho para Deus. 

A inteligência humana é discursiva, parcial e limitada no instante do hic et nunc. Não somos anjos de certezas intuitivas, exaustivas e irreversíveis; somos seres em caminho. E é precisamente essa finitude da nossa razão que nos salva do orgulho e deixa a porta sempre aberta para o crescimento e, mesmo no erro, para a humildade, a autocrítica sincera, a metanoia e o perdão.

A visão em primeira pessoa não se satisfaz em “não ser condenada pelo tribunal dos homens”. Ela se importa com o que somos no silêncio diante de Deus. É ali que a justiça fria dá lugar à centralidade da virtude da caridade: a descoberta de que reconhecer os nossos pontos cegos não é o fim da nossa dignidade, mas o exato lugar onde a graça nos alcança para renovar o nosso coração.