1. Retomando. 

Vimos, no texto anterior, o debate sobre a questão da ignorância na formação da vontade. Não se pode querer aquilo que não se conhece, sabemos disso. Mas a hipótese inicial apresentada ali nos propunha, para provocar o debate, que mesmo aquilo que queremos e fazemos sob ignorância não se torna necessariamente involuntário. Três argumentos tentavam comprovar esta hipótese. O primeiro argumento alega que aquilo que se faz involuntariamente deve ser perdoado, mas as Escrituras dizem que nem tudo o que se faz por ignorância merece perdão, e cita 1 Coríntios 14, 38: “Todavia, se alguém ignora a Deus, seja também ignorado”. Logo, ignorância nem sempre gera involuntariedade, afirma. O segundo argumento diz que, no fundo, todo pecado pressupõe algum tipo de ignorância; mas se a ignorância sempre resultasse em involuntariedade, teríamos que concluir que o ato pecaminoso pode ser às vezes involuntário, que seria absurdo. O terceiro argumento lembra que, quando agimos sem querer, isso nos entristece. Mas nem sempre aquilo que é feito por ignorância nos entristece, como é o caso de alguém que, julgando estar atirando numa caça, baleia sem saber seu inimigo e o mata. Por fim, o argumento contrário à hipótese inicial lembra que tanto o Damasceno quanto o próprio Aristóteles afirmam que existem atos praticados por ignorância que são considerados involuntários. 

Postos os termos do debate, vamos estudar a resposta sintetizadora de Tomás. 

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Em sua resposta, Tomás nos lembra que a relação entre a inteligência e a vontade nunca foi simples. Tanto precisamos saber para poder querer adequadamente (conforme a famosa frase de Santo Agostinho: “não se pode amar aquilo que não se conhece”) quanto precisamos querer saber para poder saber. Isto é, tanto a vontade depende do intelecto para poder escolher e conduzir o agir, como o intelecto precisa da vontade para querer se debruçar sobre a verdade e conhecer adequadamente.

Quer dizer, uma vez que a inteligência humana é reflexiva, tanto podemos querer saber, quanto precisamos saber querer. Assim, tanto pode ocorrer um ato em que a vontade decide com base em dados que a inteligência não possui por sua própria natureza de limitada e finita; existem atos em que a decisão é tomada independentemente de saber todos os dados, apesar de se ter tomado as providências razoavelmente necessárias para aquela situação; e, por fim, existem aqueles atos em que a vontade deliberadamente escolhe fechar os olhos da razão para os dados que seriam necessários a uma boa decisão.

Deste modo, a relação entre a ação voluntária e a ignorância pode gerar atos voluntários, não-voluntários ou involuntários, segundo Tomás, conforme a ignorância se dê de modo antecedente, simultâneo ou consequente:

  • A limitação inerente da inteligência (Ignorância Antecedente): Como o ser humano é finito, a razão jamais domina a totalidade exaustiva do real. Quando a pessoa toma todas as providências razoáveis dentro de sua condição finita e, mesmo assim, ocorre algo totalmente fora do alcance do seu conhecimento, a decisão da vontade foi tomada sobre um “vazio cognitivo” imprevisível. Por isso, a vontade não se comprometeu com aquele resultado desastroso — o ato é ontologicamente involuntário.
    • Exemplo: Se alguém trafega numa via sinalizada, a uma velocidade segura e mantendo todas as cautelas adequadas, sendo devidamente habilitado para dirigir; mas, subitamente, um cãozinho foge de uma casa próxima e corre para o automóvel em movimento, de tal modo que não há maneira de parar antes de atingi-lo. Aqui, há a ignorância que causa um ato absolutamente involuntário, porque as circunstâncias que causaram o resultado não eram de modo algum, nem podiam ser, de conhecimento do agente.
  • A decisão na ausência do saber completo, sem oposição da vontade (Ignorância Concomitante): Aqui a decisão também ocorre sem a posse de todos os dados no momento do ato. Porém, como o querer interior da pessoa já estava alinhado com aquele resultado (mesmo sem saber que ele estava prestes a acontecer), a ignorância não contraria a intenção do sujeito. Não há contradição entre a realidade e o desejo, embora a inteligência não tenha pilotado o processo. O ato é não-voluntário (ou noluntário).
    • Exemplo: Enquadra-se aqui o exemplo daquele sujeito que odeia seu vizinho e o mataria, se pudesse; mas sai para caçar e atira naquilo que acredita de verdade ser um animal, mas que é, no entanto, seu vizinho inimigo que cruzava o campo naquele momento. De modo não-voluntário, ele mata o vizinho achando que estava atirando num animal. Mas isso não o violenta quanto às suas convicções internas, já que matar o vizinho é algo que já estava no seu querer. No entanto, no ato do tiro em si, ele o fez de modo não-voluntário, pois não sabia o que fazia no instante em que puxou o gatilho.
  • A cegueira deliberada da razão pela vontade (Ignorância Consequente): Neste terceiro caso, a vontade usa seu poder de “saber querer” ao contrário: ela comanda a inteligência a desviar o olhar. A pessoa decide não buscar os dados necessários ou negligencia a reflexão devida para não ter que ajustar o seu querer à verdade. A vontade escolhe atuar às cegas, assumindo previamente a escuridão em que se lança. O ato permanece voluntário na sua raiz.
    • Exemplo: Seria o caso de um profissional da saúde que, durante uma crise sanitária, está convicto de que um certo remédio é capaz de curar a doença e o prescreve indiscriminadamente, escolhendo, no entanto, deixar conscientemente de estudar as orientações oficiais ou as boas pesquisas acadêmicas, ignorando deliberadamente as evidências em contrário. Neste caso, sua conduta, mesmo envolta em ignorância, é plenamente voluntária, porque ele escolheu ser ignorante, mantendo essa cegueira dentro do campo de sua própria liberdade.
  1. Encerrando por enquanto.

Para Tomás, a liberdade, quer dizer, o agir digno de uma criatura inteligente, não é um tribunal de provas externas, mas o caminho em que a alma se constrói diante de Deus e de si mesmo. Enquanto o mundo contemporâneo reduz a ética ao que pode ser provado por fora, a visão tomista nos lembra que ser bom não é apenas “fazer coisas boas” de vez em quando para cumprir deveres sociais. Tratar da liberdade é cultivar uma disposição firme no coração — uma virtude verdadeira —, de modo que todo o nosso ser aprenda a querer e a viver habitualmente no Bem. E isso inclui, necessariamente, uma relação honesta e sincera com a nossa própria ignorância.

No próximo texto examinaremos os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás a eles.