- Retomando.
Vimos, então, o interessante debate sobre o efeito da violência na voluntariedade dos atos humanos. É preciso que lembremos sempre que um ato propriamente humano é justamente caracterizado por ser voluntário; deste modo, como interpretar os atos que decorrem da violência sofrida por alguém? Serão eles ainda atos propriamente humanos ou simplesmente atos do ser humano de natureza não voluntária, e portanto não verdadeiramente atos humanos?
Precisamos lembrar que a noção que Tomás usa para a violência envolve qualquer força que contraria a inclinação natural de um sujeito. Assim, a ação da gravidade em um corpo é natural, mas qualquer força que contraria a ação da gravidade em um corpo é violenta. No caso do ser humano, a pergunta é a seguinte: quando eu voluntariamente realizo uma ação que contraria a força da gravidade sobre meu corpo, faço uma ação voluntária. Mas quando alguma força vence a minha vontade e provoca em mim alguma conduta que eu não quis, será que essa conduta pode ser ainda considerada voluntária?
No texto anterior, vimos a hipótese inicial de que, mesmo sofrendo violência, a conduta da pessoa não deixa de ser, no final das contas, voluntária. O primeiro argumento em favor dessa hipótese propõe que voluntariedade e involuntariedade são categorias que se aplicam à vontade, então mesmo os atos involuntários seriam, afinal, nascidos da vontade, e portanto ainda atos propriamente humanos. O segundo argumento lembra que, quando somos obrigados a agir com violação à nossa vontade, isso nos entristece. Mas nem todo ato violento que sofremos nos entristece, como na hipótese de tropeçar em algum obstáculo inadvertido sem chegar a cair; portanto, mesmo os atos decorrentes de violência não são completamente involuntários. Finalmente, o terceiro argumento lembra que nossa vontade pode ordenar que façamos uma violência a nós mesmos, como aquele atleta que, embora saiba que irá se machucar, continua a correr para ganhar a prova. Logo, a violência nem sempre exclui a voluntariedade, diz este argumento.
O argumento contrário se apoia em João Damasceno e em Aristóteles para afirmar que aquele ato contrário à vontade que é causado pela violência não pode ser chamado de voluntário.
estudemos agora, munidos destes argumentos iniciais, a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta de Tomás.
é preciso seguir muito bem a resposta de Tomás, porque ela terá grande importância para nós, inclusive para que possamos compreender corretamente a natureza da nossa vontade.
De fato, nossa vontade não é algo destacado do mundo natural, como pensamos hoje em dia. A filosofia moderna criou um estranhamento entre o ser humano e a natureza, a partir de Descartes, Kant e outros pensadores modernos. de fato, para Descartes, nossa alma é algo do reino estritamente espiritual, enquanto as coisas corporais (inclusive o nosso corpo) são de outra dimensão completamente diferente, a dimensão das coisas que têm extensão. Assim, aquilo que é natural para o mundo dos corpos não é natural para o mundo espiritual e vice-versa. Também para Kant a liberdade humana é do reino espiritual, não do reino das coisas físicas.
Para Tomás as coisas não são assim. Nossa vontade é a vontade de um ser material. O ser humano é naturalmente composto de alma espiritual e corpo material, mas não são coisas diferentes. São duas dimensões inseparáveis da mesma coisa que somos nós. Deste modo, tanto a gravidade que incide em nosso corpo e nos atrai para o chão é natural, quanto a vontade que nos leva a vencer a gravidade, erguendo-nos para caminhar.
Por isso, se a gravidade age em nós no mesmo sentido da nossa vontade (quando, por exemplo, aproveitamos a força da gravidade para descer escorregando por uma rampa) esta é uma conduta naturalmente voluntária. Mas também é natural quando deliberamos subir uma escada e, valendo-nos dos nossos músculos, vencemos os degraus e a gravidade para atingir um andar mais alto da casa.
Assim, naqueles seres desprovidos de vontade, as forças que se opõem às inclinações naturais são sempre violentas. Uma pedra, por exemplo, sofre violência quando é atirada para cima, contra a gravidade, por nosso braço. Esse movimento de subir é contra a natureza da pedra, que se inclina a cair para o solo pelo empuxo da gravidade agindo sobre sua massa.
Em nós, que somos dotados de vontade, a violência não é simplesmente aquilo que contraria a tendência natural da nossa massa corporal, mas, na verdade, é aquilo que contraria nossa inclinação natural de seguir nossa própria vontade! Deste modo, quando a força da gravidade atrai nosso corpo, mas nossa vontade quer seguir esta inclinação (por exemplo, quando um nadador usa a gravidade para se atirar no lago a partir de um ponto muito alto), não há, aí, violência. Mas quando minha vontade delibera caminhar, mas meus pés tropeçam num obstáculo não previsto e eu caio no chão, este acontecimento contraria minha vontade, e é violento. Portanto, por definição, no caso do ser humano a violência pode ser definida justamente como aquilo que se opõe ao voluntário, causando o seu contrário, que é justamente o involuntário. Deste modo, podemos dizer, com segurança, que a violência que sofremos, como seres simultaneamente corporais e espirituais, resulta na involuntariedade dos movimentos que se seguem a ela.
- Encerrando por enquanto.
A resposta de Tomás, o modo como ele aborda este assunto, pode parecer um pouco estranha para nós, hoje. Somos todos filhos da modernidade, e é difícil para nós entender essas sutilezas medievais. De fato, se alguém, por exemplo, sofre um assalto, e se vê ameaçado por uma arma de fogo a entregar o seu relógio descreverá a experiência como violenta. Dirá que entregou o relógio porque sofreu violência. Mas para Tomás não é assim. De fato, a ameaça da arma de fogo é uma coação, não é estritamente uma violência no sentido próprio do termo. Se o ladrão, no entanto, usando da sua força, te imobiliza e arranca seu relógio, aí sim há uma violência contra você. Portanto, nem tudo aquilo que descrevemos hoje como “violência” se enquadra na noção tomista de violência.
Veremos mais sobre isto no próximo texto, no qual examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos iniciais.
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