- Retomando.
Vimos, no texto anterior, que Tomás entende a violência como algo que se opõe simultaneamente à voluntariedade e à natureza. Como entender isso?
Tomás nos apresenta um mundo consistente, no qual todas as coisas (nós também) temos um movimento, uma dinâmica, que parte de nós mesmos. Tanto as coisas inanimadas quanto as animadas. Para ele, “natureza” significa princípio interior de movimento. Quando uma semente germina, quando uma árvore dá frutos conforme sua espécie, quando um animal copula e se reproduz, quando ele se alimenta, tudo isso é parte da própria natureza dele, e em todos estes casos estas coisas estão movidas por princípios intrínsecos: movem-se para atingir seus próprios fins.
No caso dos seres humanos, temos a dinâmica puramente natural, comum aos seres animados e inanimados. Temos o peso que nos faz sentir a gravidade, temos o nascimento, o crescimento, a reprodução, a alimentação, mas temos em nossa natureza um outro princípio intrínseco, que nos é próprio: a inteligência e seu apetite, a vontade.
Ele define a violência, então, como um princípio de movimento que vai contra as inclinações da natureza: para o leão, caçar não é violento, porque faz parte de sua natureza. Mas ser caçado e abatido, para a presa, é violento, porque seus fins naturais são outros. Ser abatido o impede de alcançar seus próprios fins em razão de uma força externa, a força do leão. Por isso, a violência é definida como aquela dinâmica que move contra a natureza. Ela causa, por resultado, uma dinâmica que tem seu princípio numa fonte externa às coisas, e as impede de atingir seus próprios fins por seus próprios princípios intrínsecos. Portanto, a violência causa uma dinâmica não-natural naquilo sobre o que incide.
Ora, nosso princípio intrínseco de movimento, naquilo que temos de propriamente humano, envolve sempre a vontade, e aquilo que decorre de nossa própria vontade pode ser, com toda justiça, chamado de natural em nós. Em nós, o natural é o voluntário.
Deste modo, diz Tomás, aquilo que nos move violentamente causa em nós uma dinâmica involuntária. Isto é, a violência exclui a voluntariedade.
A partir destes princípios, vamos revisitar o debate que originou este artigo, examinando os argumentos objetores iniciais e as respostas a eles que Tomás, a partir destes princípios, nos oferece.
- Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra que voluntário é aquele dinamismo originado na vontade que nos leva a nos mover voluntariamente. Assim, voluntário e involuntário são espécies do mesmo gênero, o gênero das dinâmicas iniciadas na vontade. Ora, diz o argumento, a vontade é algo intrínseco ao ser humano, está em seu coração, não pode ser violentada. Logo, voluntário e involuntário são, ambos, dinâmicas que resultam da vontade humana, conclui o argumento, erroneamente.
A resposta de Tomás.
Já vimos, na resposta sintetizadora do último texto, resumida acima, que o involuntário é o oposto ao voluntário. Mas a noção de voluntário, diz Tomás, tem uma profundidade maior do que parece à primeira vista. De fato, a vontade delibera e executa o que deliberou. Ora, em suas deliberações, a vontade não pode ser violentada: aquilo que não quero, que não me pertence, que não adoto, que repudio, é algo extremamente pessoal, e aquilo que escolho para mim, que quero, que adoto, está inviolavelmente em meu coração. Aqui, não pode haver involuntariedade, no plano da deliberação mesma. Tomás chama esta dimensão de “ato elicitado”. Mas há uma outra dimensão da vontade, a da execução: posso, por exemplo, deliberar que preciso de uma cirurgia, mas adio sua execução para aguardar a chegada de um médico em quem confio estreitamente. Assim, o ato executado pela vontade pode, sim, sofrer violência, quando, por exemplo, contra minha vontade, após receber a anestesia, outro médico vem e realiza a cirurgia quando já não posso evitá-lo. A minha deliberação (ato elicitado) não foi violentada, mas a sua execução, sim. Logo, a vontade pode sofrer violência nos atos imperados, mas não na eleição mesma, diz Tomás. Neste caso, a violência causa um movimento involuntário.
O segundo argumento objetor.
Aquilo que nos acontece involuntariamente, segundo Aristóteles e segundo João Damasceno, nos causa tristeza. Mas há situações em que sofremos violência e não ficamos tristes. Imaginemos, por exemplo, um tratamento odontológico, que sofremos porque precisamos. Logo, a violência não causa, necessariamente, uma dinâmica involuntária em nós.
A resposta de Tomás.
Se, como vimos, natural é aquilo que é conforme a natureza, então podemos dizer que voluntário é aquilo que é conforme a vontade.
Ora, diz Tomás, podemos definir natural não somente como aquilo que ocorre a partir do próprio sujeito, como princípio ativo, mas também aquilo que, ocorrendo à coisa, encontra nela uma receptividade que lhe completa, fazendo-a atingir seus fins. Deste modo, por exemplo, o calor do sol aquece a pequena semente, e isto é algo que lhe é causado de fora. Mas este calor desencadeia nela os processos que levam à germinação, e deste modo, embora passivamente, a semente atingida pelo sol não sofre violência ao ser aquecida desde fora.
De modo análogo, a vontade pode ser princípio ativo de ação, como pode ser princípio passivo, isto é, receptor. Se quero saudar alguém e ergo minha mão num sinal de comunicação, este movimento é voluntário, porque tanto minha deliberação interna, a escolha de saudá-lo, quanto o ato imperado, o ato de erguer a mão e abaná-la, têm seu princípio em mim.Mas a vontade pode ser princípio passivo também. Se sei que há um tumor em mim e me submeto a uma cirurgia dolorosa e arriscada, os atos do médico, quando me corta e costura, são violentos quanto à integridade natural do meu corpo, mas não são violentos com relação à minha vontade. O ato naturalmente violento, aqui, não causa a involuntariedade de minha dinâmica de eleger sofrer a cirurgia, porque está em linha com a minha vontade e me leva a atingir os meus fins. Neste sentido específico, violência sofrida por meu corpo não transforma minha ação em involuntária.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento afirma que aquilo que procede da vontade não pode ser considerado involuntário. Mas há atos humanos que, procedendo da vontade, envolvem violência, como o atleta que vence a gravidade escalando uma parede íngreme, ou o acrobata que contorce seus membros contra ou além da sua flexibilidade natural. Logo, o fato de que a dinâmica envolve violência não transforma a ação em involuntária, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
É preciso fazer, aqui, uma distinção, diz Tomás: quando um movimento ou uma dinâmica humana, procedendo da vontade, parece violar as leis da natureza, não há, aí, verdadeira violência, porque a vontade faz parte da natureza, e portanto aquilo que parece violar as leis da natureza obedece às leis da vontade e da constituição humana, que também são naturais. é o caso também do acrobata que parece torcer seu corpo de um modo que não é natural: aquilo que viola o limite de uma membro do corpo, como um músculo que se alonga acrobaticamente para uma posição que não lhe é natural, na verdade não viola os limites da natureza humana, que concede certo domínio das partes do corpo em favor do ser humano como um todo. De modo que esse tipo de violência, que o movimento humano parece implicar, não é violência num sentido absoluto.
- Concluindo.
A resposta de Tomás nos faz meditar: a natureza envolve a vontade, e a vontade faz parte da natureza. Ainda que a definição de violência envolva aquilo que vai contra a natureza ou a vontade, é preciso entender que a liberdade se exerce em direção ao bem, e que, às vezes, a violência, em sentido relativo, é necessária para que a vontade alcance o bem em sentido absoluto. Não é por outra razão que precisamos, às vezes, violentar nossa natureza decaída, preguiçosa, acomodada, para nos habituar a exercícios físicos – e principalmente a exercícios espirituais – que nos tornarão mais saudáveis. E santos. Não é por outra razão que Jesus proclama que “o reino dos céus é dos violentos” (Mt 11, 12). A “violência” contra os impulsos do homem velho é, na verdade, a plena libertação do ato voluntário em direção ao Reino.
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