- Retomando para concluir.
A violência pode provocar os atos externos de uma criatura inteligente, dotada de vontade. Mas não pode compelir seu ato interno, a própria escolha e decisão daquele que sofre a violência. É certo que podemos ceder aos violentos, mas isto nunca modificará o fato de que ali, no núcleo mesmo da vontade humana, ele jamais poderá entrar. quer dizer, como vimos no texto anterior, a violência pode incidir no ato imperado, mas nunca no ato elícito.
De posse desses princípios, vamos retomar os argumentos objetores iniciais e estudar as respostas de Tomás a eles.
- Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
Ali onde há uma estrutura hierárquica, a vontade do inferior sofre violência do superior, porque deve-lhe obediência, deve conformar sua vontade à dele, independentemente de querer. Ora, Deus está muito acima de qualquer criatura, é infinitamente mais poderoso do que qualquer um. Logo, ele pode coagir o ser humano a obedecer, mesmo sem ou contra a vontade da criatura, e ela não poderia reagir. Logo, a vontade pode sofrer violência sem deixar de ser vontade, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Deus tem acesso ao coração de sua criatura, e pode movê-lo desde dentro. É o que testemunha a Bíblia, quando, em Provérbios 21, 1, que “o coração do rei é uma água fluente nas mãos do Senhor; ele o inclina para qualquer parte que quiser”. De fato, Deus pode inclinar nosso coração, atraindo-o por Sua luz magnífica ou ocultando-a. Isso porque nosso coração foi feito para Deus, e está destinado a repousar apenas em Deus. É como se nosso coração fosse um “detector” de Deus; tudo o que nos atrai, nos atrai porque, em alguma medida, possui algum tipo de analogia com o bem que, no fim das contas, pertence a Deus como fonte, como origem, como modelo. Assim, quando Deus se apresenta ao nosso coração – ou se oculta dele – não há violência, entendida como aquela força que move contra a natureza. Existe, ao contrário, um estímulo inteiramente natural – um coração que reconhece aquilo para o que foi feito, aquilo para que existe, e se inclina para isso. Portanto, a inclinação provocada por Deus em nosso coração é o contrário de violência: é libertação, porque nos leva a ser justamente aquilo que devemos ser, e nos atrai livremente, voluntariamente, para o bem que é aquilo para que fomos criados.
O segundo argumento objetor.
A vontade é uma dimensão humana marcada pela passividade. De fato, ela sempre é movida por algum estímulo que a alcança, e para o qual ela se inclina. Neste sentido é que o estímulo que é apresentado à vontade é chamado de “estímulo motor”, porque ele move a vontade, tira-a de sua passividade e a faz inclinar-se para o objeto do estímulo. Ora, esse estímulo, portanto, sempre representa algum tipo de violência, porque faz a vontade, que é passiva, sair de sua passividade, mover-se. Portanto, a violência exercida contra a vontade de alguém não a descaracteriza, sendo apenas um dos estímulos possíveis para movê-la. Portanto, a violência não destrói a vontade, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Essa dialética do ativo e do passivo existe em muitas realidades naturais. Mas, ao contrário do que se poderia pensar, nem sempre a relação do ativo com o passivo é uma relação violenta. Poderíamos pensar, aqui, na relação da gravidade da Terra com as coisas materiais que estão na sua superfície: as coisas materiais são passivas perante a gravidade da terra, porque a massa da Terra ultrapassa muito a massa dessas coisas. Mas a atração que a Terra exerce sobre as coisas que estão sobre ela, embora influa ativamente no comportamento das coisas, não é uma atração violenta, porque não contraria a natureza das coisas corporais o fato de serem atraídas pela força da gravidade de outro corpo. Assim, de modo análogo, podemos diferenciar entre aquelas coisas que movem a vontade como um estímulo e aquelas coisas, por outro lado, que exercem violência contra ela. As primeiras respeitam a natureza da vontade. As segundas a desrespeitam e anulam. Portanto, a violência sofrida anula, de fato, a vontade.
O terceiro argumento objetor.
Vimos que o movimento violento pode ser definido como aquele que vai contra a natureza. Ora, há muitos estímulos que se apresentam à nossa vontade e que a movem de modo contrário à natureza, como a gula ou aqueles vícios que destroem o ser humano – vício em drogas, em jogos, em tabaco, só para citar alguns. Esses estímulos são, portanto, violentos, porque contrários à natureza humana – é por isso que os chamamos de pecados. O pecado é, portanto, uma violência aplicada à vontade. Ora, ninguém poderia dizer que o pecado não é um movimento voluntário do ser humano. Logo, a violência nem sempre destrói a voluntariedade, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
É certo que o pecado, especialmente o pecado que envolve comportamentos permanentemente lesivos à nossa saúde, é uma violência contra a nossa natureza, se examinado à luz da ciência e da fé. Neste sentido, há, aqui, perante a verdade da natureza humana, uma violência cometida contra nós. Mas a vontade, quando é movida para esses comportamentos pecaminosos, não os enxerga como maus e violentos, mas como atraentes e bons sob algum aspecto: agradáveis aos sentidos, deleitáveis às paixões, sedutores aos sentimentos, etc. Assim, ela os elege sob a dimensão do bem, embora seja, neste caso, um bem limitado e até enganoso. Assim, não há, aqui, uma violência contra a vontade, mas um exercício da vontade que, por ser pouco razoável, acaba prejudicando o próprio agente e aqueles que ele ama. Não se trata, aqui, portanto, da violência que anula a vontade.
- Concluindo.
A violência exercida contra a pessoa anula a sua vontade na dimensão mais profunda, ali onde, na consciência, no coração (compreendido como o centro da identidade pessoal) ela anula a decisão pessoal, submetendo a pessoa a uma vontade estranha, externa, que passa a imperar sobre seu corpo sem ou mesmo contra a decisão do afetado. Aqui há um ataque direto à dignidade humana, uma desconsideração da vontade e um resultado que já não pode ser propriamente atribuído àquele que foi violentado.
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