- Retomando.
Vimos, no texto anterior, que São Tomás de Aquino entende a tal da concupiscência como aquele desejo ardente e forte, um entusiasmo da nossa sensibilidade quando interpelada por coisas materiais muito atraentes. Vimos, ali, a hipótese inicial de que a concupiscência, como paixão intensa que arrebata nossos sentidos e interpela nossa razão, faz com que o nosso agir deixe de ser voluntário. Vimos os três argumentos que tentavam comprovar esta hipótese; o primeiro artigo comparou a concupiscência com o medo, como sentimentos ou emoções muito fortes que igualmente nos levam a fazer o que não queremos. O segundo argumento lembra que o medo leva a fazer o que não queremos, o que também acontece com aquelas inclinações nascidas da concupiscência. Por fim, o terceiro argumento diz que a voluntariedade nasce da capacidade de conhecer intelectualmente uma situação, e a concupiscência é uma força capaz de cegar a razão, e por isso faz agir involuntariamente. Por fim, o argumento contrário à hipótese inicial diz que as coisas involuntárias são feitas de modo a nos contrariar, a nos deixar impotentes e descontentes, enquanto as coisas feitas por concupiscência não nos contrariam, mas, ao contrário, resultam do livre curso das nossas próprias inclinações e as satisfazem. Logo, diz este argumento, elas não podem ser involuntárias.
Postos os termos do debate, examinemos agora a resposta sintetizadora de Tomás.
2 A resposta sintetizadora de Tomás.
Os comportamentos que resultam das inclinações apaixonadas que a concupiscência causa em nós, por atrair-nos de modo forte e ardente para determinado prazer sensorial, não são involuntários, antes ao contrário. De fato, a vontade cede à inclinação sensorial e dá sua anuência àquilo que os sentidos pedem tão intensamente, atraídos por esse forte estímulo exterior, o que significa que as ações que resultam desse movimento têm seu princípio em nós, e neste sentido são plena e profundamente voluntárias. Embora nem sempre convenientes, porque nem sempre adequadamente ponderadas.
No ensino da Igreja Católica, a concupiscência não é um pecado em si, mas também não é neutra. O próprio Catecismo (no parágrafo 2515) lembra que a palavra pode indicar qualquer desejo muito forte, mas na teologia ela ganhou um nome bem claro: aquele “empurrãozinho” dos nossos sentidos que vai contra a razão. É a famosa briga entre a carne e o espírito que São Paulo tanto fala nas suas cartas. Ela vem da ferida do Pecado Original, bagunça nossas decisões e, sem ser uma culpa em si, nos empurra para o erro.
Eis aqui o diferencial da visão de São Tomás: essa força toda do desejo não é necessariamente uma adversária. A desordem acontece porque ela ainda não foi ordenada pela virtude. Quando se aprende a dominar e reorientar essa energia atrativa pela razão, ela vira um motor potente para fazer o bem. A busca pelo que é adequado passa a ser acompanhada de alegria, entusiasmo e até de um prazer físico real.
É nesse ponto que se demonstra quão profundamente aristotélico é o pensamento de Tomás, e quão distante ele está de um certo pessimismo antropológico, ou seja, de uma desconfiança preconceituosa contra a própria natureza humana – encarnada e biológica, além de intelectual e espiritual.
Para Aristóteles, ser virtuoso não é só saber intelectualmente o que é certo, mas educar o coração para gostar do que é bom e sentir rejeição espontânea pelo que é ruim. A verdadeira virtude não é passar a vida desconfiando de si mesmo e forçando-se a fazer o bem contra as próprias inclinações, mas aprender a fazer o bem com alegria. Quem ainda sofre e vence as próprias resistências para fazer a coisa certa está no caminho, mas ainda não chegou lá.
Já Kant pensava de um jeito bem diferente (e um tanto frio). Para ele, se alguém faz o bem porque sente prazer ou porque gosta, sua atitude ainda não tem valor moral pleno. Para Kant, só se é verdadeiramente moral quando se age puramente pelo dever, usando apenas o intelecto para seguir uma regra que seja capaz de valer para todo mundo. Sentir alegria com o comportamento moralmente correto, para ele, é só um detalhe acidental.
3. Encerrando por enquanto.
A vida real não funciona como uma equação matemática. Ao tentar proteger a moral dos sentimentos desordenados, Kant criou uma teoria muito elegante, com pretensões de “pureza”, mas acabou “desencarnando” o ser humano. Ele tirou da equação os nossos afetos, nossos relacionamentos e a sabedoria prática de saber o que fazer em cada situação concreta. Isto influiu muito na nossa contemporaneidade, gerando uma tendência a desconfiar da alegria e da possibilidade de uma vida ordenada com os próprios prazeres corporais.
Nós não vivemos em um laboratório de ideias; vivemos no chão da vida real, com seus momentos contingentes e irrepetíveis. O mundo foi feito por Deus para nós, para que o usemos de modo ordenado. Não devemos desconfiar por princípio das coisas que nos interpelam, mas devemos nos educar para usá-las bem, e sentir prazer com isso. Esta é a verdadeira liberdade dos filhos de Deus. Por isso, resgatar essa visão de São Tomás e Aristóteles — que abraça a nossa humanidade e nos ensina a amar o bem de todo o coração — é um remédio valioso para o mundo de hoje.
Assim, sabendo que as fortes inclinações concupiscentes não são más em si, embora sejam, em princípio, desordenadas, aprendemos que elas devem ser domadas e usadas em nosso favor, para tornar mais cheia de santa alegria e justo prazer a vida boa que devemos seguir. Neste sentido, a concupiscência não destrói a voluntariedade, mas pode ser um forte estímulo, quer para o bem, quer para o mal (Catecismo, § 1767). Devemos seguir, neste ponto, o conselho do Papa Francisco: não viver a vida cristã como uma eterna quaresma, mas abrir nela o espaço para a alegira pascal.
No próximo texto, examinaremos os argumentos objetores iniciais com a luz destes princípios e estudaremos as respostas de Tomás a eles.
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