1. Introdução.

Nesta questão, estamos estudando a vontade humana, que é pressuposto para a liberdade. Somente entendendo como ela funciona podemos entender como ela pode se dirigir para seu próprio fim de modo adequado, realizando-se. Uma vez que está no poder da vontade escolher sua própria anulação, escolher a escravização em vez da liberdade, é essencial descobrir como ela pode se exercer sem se negar. Neste sentido, cabe perguntar qual a relação entre a voluntariedade e a violência que se exerce sobre alguém. Será que a violência sofrida nos tira a liberdade, de tal modo que aquele que sofre a violência não é capaz de exercer sua própria voluntariedade? Eis o debate que faremos aqui.

  1. A hipótese inicial.

Sabemos que, para iniciar um debate, o artigo sempre propõe uma hipótese inicial, que nos provoca para pensar porque é polêmica. A hipótese proposta, neste artigo, é a de que a voluntariedade não é prejudicada mesmo se exercida sob violência alheia. A violência exercida sobre uma pessoa não prejudicaria nem descaracterizaria sua liberdade de escolha, propõe o artigo, e em seguida nos apresenta três argumentos que tentam nos provar que as coisas são mesmo assim, e por quais razões. Vamos examiná-los.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Dentro de uma hierarquia, cabe ao superior ordenar e ao inferior simplesmente obedecer. O superior pode impor sua determinação ao inferior, inclusive de modo eventualmente violento, como no exército. Mas isso não contradiz o fato de que estruturas hierárquicas, como os exércitos, são estruturas humanas, e que os soldados são, afinal, seres com vontade. Ora, Deus é hierarquicamente superior ao ser humano, sua providência supera infinitamente a vontade humana e pode ser recebida, inclusive, de modo a superá-la, inclusive violentamente. Logo, a vontade humana pode sofrer violência sem se descaracterizar, conclui o argumento. 

O segundo argumento objetor.

Aquilo que é passivo é ativado pelo correspondente ativo, como as rodas do automóvel são ativadas pelo motor do carro. Mas a vontade, segundo Aristóteles, é uma dimensão passiva do ser humano, porque é ativada por estímulos internos e externos ao sujeito, como o alimento quando se está com fome ou a simpatia de uma outra pessoa, quando se busca uma companhia. Ora, os estímulos externos de natureza violenta podem ativar a pessoa, fazendo-a adotar comportamentos sem destruir sua própria voluntariedade, diz o argumento. Logo, a vontade pode ser coagida por um movimento violento externo sem perder sua natureza voluntária, conclui o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

O movimento violento, diz o argumento, é aquele que vai contra a natureza daquilo que o sofre. Se a natureza da pedra, por exemplo, é sofrer passivamente a força da gravidade e cair, a violência contra ela a faria mover contra a gravidade. No caso do ser humano, aproximar-se de Deus é algo próprio da natureza humana, enquanto o pecado é uma violação da natureza humana. Mas a vontade pode ser levada a pecar, diz o argumento, sem perder sua condição de voluntariedade. Logo, a vontade pode sofrer violência sem perder sua natureza voluntária, conclui o argumento. 

  1. O argumento sed contra.

O argumento que nos impede de simplesmente aceitar a hipótese inicial nos lembra que é o próprio Santo Agostinho que nos ensina que aquilo que é feito por vontade não é feito por necessidade. Por exemplo, se sofro um corte profundo em minha pele, isso necessariamente provocará em mim um sangramento; esse sangramento é necessário e não voluntário. Assim, quando alguém sofre uma violência externa que o leva a mover-se de determinada maneira, esse seu movimento é um resultado necessário de uma violência externa e não algo voluntário do sujeito. Portanto, a violência aplicada sobre um sujeito dotado de vontade e razão exclui a voluntariedade dos seus movimentos, conclui este argumento. 

  1. Encerrando por enquanto.

Esta é uma discussão muito interessante. Em que medida nosso livre arbítrio realmente é livre quando estamos sofrendo violência? Vamos estudar a resposta de Tomás no próximo texto.