- Retomando para concluir.
Dizíamos que é inegável que os animais não racionais têm uma sagacidade que muitas vezes nos surpreende. Possuem, muitas vezes, um alto grau de discernimento prático, e com isso se torna difícil distinguir em que grau são capazes de vontade e de responsabilidade.
com o texto do artigo anterior, vimos que os animais não humanos têm, de fato, uma interioridade que permite algum grau de escolha individual, que, analogicamente, poderia ser chamada de “voluntariedade”; sem esquecer o fato de que eles não são, a rigor, dotados de vontade, mas apenas de apetite sensível. Ou seja, eles agem por um fim, mas não são capazes de captar a própria razão de “fim” quando agem. O estímulo que desencadeia seu movimento, portanto, é unidimensional, ou seja, capaz apenas de movê-los sob uma dimensão, a do bem imediato e capaz de satisfazer uma necessidade ou interesse imediato. Deste modo, não são propriamente responsáveis por sua conduta, nem praticam atos propriamente meritórios. Animais podem ser adestrados, mas não podem, a rigor, desenvolver virtudes.
Munidos destes princípios, vamos revisitar os argumentos iniciais, que tentavam comprovar a hipótese de que os animais não humanos não são capazes de nenhum movimento deliberado, voluntário, nem mesmo em sentido amplo, analógico, mas são meras máquinas mecânicas de reação, estudando as respostas de Tomás a eles.
- Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor, como nos lembramos, propôs que a noção de vontade seria estritamente unívoca: diz respeito apenas e tão-somente àquele apetite, àquela inclinação que decorre da inteligência racional do ser humano. Ora, a palavra “voluntário” deriva da palavra “vontade”, que não está presente em nenhum ser material não-humano. Logo, nenhum ser não-humano, neste universo material, pode realizar algo “voluntariamente”, porque não possui “vontade”, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não pode haver dúvida de que a vontade é uma faculdade própria dos seres inteligentes, porque designa uma faculdade espiritual que corresponde ao apetite da razão. Enquanto o instinto inclina o apetite dos seres irracionais àquele estímulo percebido apenas com os sentidos, a vontade nos inclina àquele bem inteligido pela nossa razão, com, sem ou contra os estímulos sensoriais.
No entanto, num sentido amplo, podemos dizer que esse apetite sensorial apresenta proporção com a vontade, no sentido de que é um estímulo que provoca um movimento interno, vivo, na direção do objeto percebido como bem ao menos sensorialmente. Assim, podemos dizer que esse movimento tem algo de analógico com a voluntariedade humana.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento nos lembrava que os seres humanos não são rigidamente predeterminados, nem guiados por instintos. Nós, humanos, somos verdadeiros autores de nossas ações.
Mas os seres não-humanos, desprovidos de razão, não são autores de seus atos neste mesmo sentido. São João Damasceno chega a dizer que eles “não agem, mas são como que agidos”, ou seja, seus atos lhes são impostos por forças que não estão em seu poder. Logo, não podemos dizer que haja algo de voluntário em seus movimentos, conclui este argumento.
A resposta de Tomás.
Tampouco aqui Tomás tem dúvida quanto ao fato de que somente o ser humano, dentre os seres materiais, é capaz de inteligir seus atos e deliberar sobre eles. A inteligência humana é capaz de ponderar entre os diversos aspectos de bem existentes em cada objeto que o estimula, escolhendo aquele que é mais prudente, mais conveniente no momento. Somente o ser humano pode rejeitar um prato de alimento, mesmo com fome, em nome de um preceito religioso. Neste sentido preciso, não se pode dizer que os animais não-humanos ajam voluntariamente, porque o bem que lhes chega aos sentidos sempre os move instintivamente.
O terceiro argumento objetor.
As nossas ações geram responsabilidade ou mérito. Delas somos capazes de receber elogios ou críticas, no sentido de sermos louvados ou repreendidos pela qualidade de nossa escolha, quando agimos. Mas o mesmo não se dá com os movimentos dos animais não-humanos. Ninguém pensaria em levar um animal a juízo para puni-lo, ou mesmo louvá-lo como herói por algum ato extraordinário de abnegação, diz o argumento. Logo, nada há de voluntário nos atos dos animais não-humanos, diz o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, apenas atos voluntários em sentido estrito podem gerar responsabilidade ou louvor. Este tipo de ato não existe nos animais não-humanos. Eles podem ser premiados ou punidos para que se comportem como queremos, e neste sentido são adestrados. É o caso dos animais de circo, ou dos cães militares. Por outro lado, o ser humano não pode nem deve ser adestrado, mas levado ao crescimento espiritual pelo desenvolvimento das virtudes.
- Concluindo.
Mais uma vez, distinguimos aqui entre o voluntário em sentido unívoco, que é próprio do ser humano, e o sentido analógico, que pode ser aplicado aos outros animais. Animais não-racionais não desenvolvem virtudes, nem podem aprovar leis ou cometer crimes. Mas são seres vivos, sujeitos a estímulos, e podem ser adestrados e eventualmente até exercer alguma sagacidade, como no caso dos grandes animais caçadores.
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