Há uma música que sempre me intrigou. Chama-se “One of Us”, da Joan Osborne (pode ser encontrada no Youtube aqui), na qual ela diz assim:

E se Deus fosse um de nós?

Apenas um desajeitado como um de nós

Apenas um estranho no ônibus

Tentando ir pra casa

Apenas tentando ir pra casa

Como um andarilho sagrado

De volta para o Céu, sozinho

Apenas tentando ir pra casa

Ninguém ligando em seu telefone

Exceto, talvez, o Papa, em Roma

Para mim sempre foi de baixa credibilidade um deus colocado arrogantemente num céu distante, mergulhado em seu poder solitário e arrogante e administrando a Terra como se fosse uma partida de “The Sims”.

Mas é isto que o feriado de hoje nos quer lembrar: em algum momento, Deus abre mão de sua divindade (Fl 2, 6) e não se prevalece dela para nos dar algum “carteiraço”… Ele, que deu sentido ao Universo, faz-se carne, faz-se gente e vem se misturar a nós (Jo 1, 18).

Estando entre nós, como um pobre andarilho, “apenas um rapaz latino americano, sem parentes importantes e vindo do interior“, como diria Belchior, ele entra num templo cheio de gente religiosa daquele tempo, e, com todas as letras, diz: “quem não me comer não terá vida!” (João 6, 53).

Ele não quis deixar nenhuma ambiguidade com relação ao seu corpo, dado realmente a comer sob as aparências do pão e do vinho. “pois minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem come minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (João 6, 55-56). Esta é uma afirmação muito profundamente atestada nas Escrituras: “Tomai e comei, isto é o meu corpo (…), bebei dele todos, isto é o meu sangue” (Mateus 26, 26-28). Semelhantemente, na descrição de Marcos 14, 22-24, ou ainda em Lucas 22, 19-20. E para que não fosse dada a oportunidade de imaginar que ele estivesse falando de maneira figurada, São Paulo escreveu: “aquele que come e bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação“. (1 Coríntios 11, 29).

Isto parece escandaloso ainda hoje? Sim, ele próprio perguntou: isto vos escandaliza? (Jo 6, 61), e por isto muitos já não queriam andar com ele (João 6, 66). Mas ele não atenuou em nada o escândalo. Ao contrário, em vez de tentar amenizar sua fala com alguma explicação amenizadora, ele simplesmente desafiou duramente os que ousaram ficar. “Vocês também querem ir embora?” (João 6, 67).

É este escândalo que celebramos hoje. Deus se fez gente, convidou-nos a comê-lo e, sendo um com ele, entrar na vida. Deus é um de nós, tem um corpo, continua a dar-se a comer na Eucaristia e não amacia escândalos. Segui-lo é encontrar a cruz, mas após a cruz há a ressurreição!

Feliz Corpus Christi para nós!