Retomando.

Os animais apresentam comportamentos que, muitas vezes, nos surpreendem. Eles são capazes de espontaneidade, são capazes de escolhas e interações que, às vezes, torna muito difícil entender qual a diferença do tipo de sagacidade que apresentam para a racionalidade humana. Certamente eles não são simples máquinas, programadas para agir sempre do mesmo modo. Essa visão mecânica se dá a enxergar na hipótese inicial deste artigo, que propõe a ideia de que não há nenhum tipo de voluntariedade no comportamento dos animais não humanos.
Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese. O primeiro argumento diz que a noção de voluntariedade é unívoca, e somente se aplica aos seres que têm vontade em sentido próprio, o que se aplica aos seres humanos mas não aos outros animais. Eles têm inclinações sensoriais e instintivas, mas não vontade, e por isso não agem voluntariamente, diz o argumento. O segundo argumento lembra que os animais não são autores dos seus atos de modo livre e responsável, como os seres humanos, já que, a rigor, eles não agem, mas são como que agidos, ou seja, são reativos aos estímulos, e não propriamente ativos. Assim, não se pode dizer que são, a rigor, voluntários. Por fim, o terceiro argumento diz que os comportamentos animais não despertam louvores ou deméritos, mas apenas estímulos e punições; portanto, diz o argumento, não são propriamente condutas voluntárias.
Por fim, o argumento sed contra lembra que o próprio Aristóteles atribui uma certa voluntariedade a animais e crianças pequenas, no que é seguido, aliás, por São João Damasceno e por Gregório Niceno.
Visitaremos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás.

A resposta sintetizadora de Tomás.

Tomás começa nos lembrando que a noção de voluntariedade implica a capacidade de realizar comportamentos cuja origem seja interna, ou seja, que seja de iniciativa do agente, e que envolva algum tipo de conhecimento do fim.
O que queremos dizer quando falamos de conhecimento do fim?
Segundo Tomás, Há duas maneiras que se pode dizer que algum agente conhece o fim de sua conduta:
Ele pode conhecê-lo de um modo completo, perfeito, quando ele conhece o fim de modo reflexivo, isto é, ele sabe qual é o fim e sabe o que é o fim. Ou seja, ele tem capacidade de conhecer o fim, sabendo que o fim é um fim. Assim, quando um construtor humano faz uma casa, ele sabe que está construindo uma casa e sabe que a construção da casa é o fim de sua atuação.
Existe, porém, uma maneira imperfeita, não reflexiva, de conhecer o fim do que se faz. Nestes casos, aquele agente sabe que sua atuação tem um fim, mas não tem a capacidade de refletir quanto à natureza da noção de fim, nem quanto ao significado daquilo que está fazendo. Por exemplo, um castor que constrói uma barragem, ou um pássaro que constrói um ninho, é capaz de começar e terminar sua tarefa, mas não é capaz de refletir sobre a própria natureza daquilo que constrói, de modo a adaptar seus planos, mudar de planos ou até desistir espontaneamente do que faz. Um predador que inicia uma atividade de caça sabe que seu fim é capturar a presa, mas não é capaz de refletir sobre o significado de sua conduta de caça, ou mesmo se aquela presa excede suas necessidades ou de algum modo seu abate não é conveniente naquele momento.
Ora, prossegue Tomás, a rigor somente podemos chamar de voluntário, em sentido próprio, o agir daquele ente que conhece o fim de sua conduta de modo reflexivo, perfeito, ou seja, sabe que o fim tem valor de fim e é capaz de adotar uma visão refletida sobre os atos que se dirigem àquele fim.
Mas a noção de voluntário pode ser usada em sentido analógico para descrever aqueles comportamentos dos animais não-humanos que demonstram algum conhecimento do fim de sua conduta. Neste caso, a noção está sendo usada de um modo imperfeito, impróprio, mas não errôneo.

Encerrando por enquanto.

É preciso ter muito cuidado com essa ideia de que as noções somente podem ser usadas no sentido unívoco, porque existem muitos usos analógicos das noções, principalmente no campo das ciências e da filosofia que tratam do ser humano – e de Deus. Expressões análogas são aquelas que reconhecem uma proporção entre duas realidades, tornando-as semelhantes sem que sejam do mesmo tipo. É preciso, no entanto, distinguir entre as situações análogas e as simples metáforas. Quando eu digo, por exemplo, que um animal perseguiu voluntariamente aquela presa, estou falando de modo analógico com a voluntariedade em sentido próprio, que é a humana. Mas quando eu digo que uma ocorrência natural provocou efeitos sobre alguma outra realidade – por exemplo, quando eu digo que o mar é um assassino cruel – eu estou usando apenas uma figura de linguagem, uma personificação que é apenas metafórica.
No próximo texto examinaremos os argumentos iniciais e as respostas de Tomás, a partir dos princípios que acabamos de estudar.