1. De volta para concluir.

Nosso fazer é sempre condicional, limitado, contingente, histórico e espacialmente circunscrito. Mas, ainda assim, deliberado. É preciso resgatar a noção de que somos seres pensantes, inteligentes, capazes de conhecer racionalmente as coisas e de querer as coisas assim conhecidas. Aquilo que a inteligência pode discernir, a vontade pode querer, ainda que a sensibilidade resista. Podemos ter muito medo, digamos de uma grande cirurgia, mas sabemos, por nosso intelecto, que ela será indispensável à nossa saúde. Elegemos ser saudáveis e, voluntariamente, nos submetemos à cirurgia. Eis um ato humano voluntário. 

Vimos tudo isto nos textos anteriores. Podemos afirmar, portanto, que os atos humanos não são sempre espontâneos, nem são incondicionalmente eleitos, mas são voluntários, e portanto responsáveis. A hipótese inicial, de que não há voluntariedade nos atos humanos, restou afastada. 

É hora de revisitar, munidos destes princípios, os argumentos objetores iniciais, que tentavam comprovar esta hipótese, e estudar as respostas de Tomás a eles. 

  1. Os argumentos iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

Para a filosofia clássica, de raiz aristotélica, o voluntário é definido como “aquilo que tem em si mesmo o seu princípio”. Ora, prossegue o argumento, o que nos move, o que faz iniciar nossos movimentos, não está em nós, mas está fora de nós. O ser humano é movido por aquilo que atrai sua inclinação. Mas o que nos atrai, o que nos faz inclinar ao movimento, é sempre algo que está fora de nós mesmos, mas atrai nossa atenção e nossa vontade, sendo princípio do nosso agir. Assim, nosso ato não é voluntário, mas provocado de fora, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Tomás nos ensina que nem todo princípio que está envolvido em alguma realidade pode ser chamado de “princípio primeiro”. Então o “princípio” a que Aristóteles se refere quando diz que aquilo que é voluntário deve “ter em si mesmo o seu princípio” não é necessariamente um “princípio primeiro”, isto é, não precisa ser algo anterior ou superior, de modo absoluto, na linha causal do movimento. 

O que ele está querendo dizer é que o movimento voluntário precisa ter origem no interior daquele que age voluntariamente, mas isto não significa que não haja uma causa externa que desperte o agente e faça com que ele, internamente, determine-se a mover para alcançar aquilo que o atrai.

Isto tudo parece muito complexo, e de fato é. Mas é simples de entender. 

Se pensarmos nas grandes forças que movem o universo, diz Tomás, vemos que os movimentos das coisas, individualmente, são causados em primeiro lugar, por forças alheias a elas mesmas. Se não houvesse o sol, não haveria fotossíntese, e os herbívoros não poderiam absorver a energia das plantas e transmitir essa energia para os carnívoros, e assim por diante. Mas o próprio sol não é o primeiro princípio, em sentido absoluto. Se não houvesse, por exemplo, a gravidade, o atrito, as forças eletromagnéticas, o princípio da ação e reação, nada se moveria no universo, e o próprio sol não poderia desencadear os movimentos alimentares aqui na Terra. 

Assim, podemos dizer que o sol é a fonte primeira das alterações na cadeia biológica da Terra, mas ele não é a fonte primeira do movimento físico do universo, frente às grandes forças físicas que regem todo o funcionamento do cosmos. 

De modo similar, podemos dizer que os atos humanos são desencadeados por algum estímulo exterior, como causa final, já que todo ato nosso pressupõe uma inclinação a alguma coisa que está fora de nós mesmos. Mas essa coisa precisa ser apreendida e compreendida, para que possa ser desejada e desperte nossa vontade de agir, que nos leva deliberadamente a procurar aquele fim. Neste sentido, nossos atos podem ser considerados como algo que tem o princípio em nós mesmos, e portanto podem ser voluntários, embora dependam de inúmeras outras causas: o estímulo externo, a energia para agir, as condições históricas e materiais do nosso entorno, as relações sociais em que estamos inseridos e assim por diante. 

Portanto, a voluntariedade existe em nossos atos, ao lado de inúmeras circunstâncias, estímulos e fins que, em cada caso, perseguimos com nosso agir.  

O segundo argumento objetor.

No mundo, não há nenhum movimento – mesmo nos animais, como nós – que não esteja inserido nessa grande cadeia de causas que é o universo. Nossos atos humanos, que também são os atos desses grandes animais (racionais) que somos nós, estão inseridos nesta mesma cadeia de causas, e não escapam das determinações físicas e químicas do universo. Nosso agir não é originário, no sentido de que ele não é o início de uma cadeia de causas, mas é sempre parte de uma cadeia que tem seu início em outro lugar que não em nós mesmos. Portanto, não podemos dizer que nossos atos são voluntários, conclui o argumento,

A resposta de Tomás.

Tomás reconhece que o nosso mundo físico realmente é um mundo com uma teia de causalidade muito estreita, de tal modo que nós, animais (racionais ou irracionais) sempre atuamos num mundo que provoca e condiciona nosso atuar. Não somos nós, os seres vivos, que colocamos o mundo em movimento, mas, ao contrário, é o mundo que, já estando em movimento, faz com que nos movimentemos. 

De dois modos principais, diz Tomás, podemos, como todos os animais, ser movidos pelos estímulos externos: a primeira ocorre quando algo é percebido como um objetivo para as nossas ações. Por exemplo, um leão, caçando, enxerga ao longe um javali. Esse javali passa a ser desejado como alimento, e se transforma numa presa. O leão, então, persegue, mata e devora o javali. Ou, por uma segunda maneira, o corpo do animal é atingido pelo vento gelado do inverno ou pelo sol quente do verão. No primeiro caso, ele se move para buscar um abrigo contra o frio, e no segundo caso busca um lugar abrigado do sol para desfrutar sua sombra. 

Em todos estes casos, nós e os outros animais somos estimulados a atuar em razão de estímulos externos que atingem nossa sensibilidade. Em todos estes casos, nosso apetite animal é despertado e nos impele a tomar alguma atitude. 

Mas isto não significa que não possamos ter atitudes voluntárias: o voluntário está em outro plano, o plano da vontade, que se segue a um discernimento da inteligência. Assim, quando esses estímulos passam pela nossa razão, podem despertar atos voluntários, inclusive atos que contrariam as inclinações sensíveis. Por exemplo, mesmo famintos e estimulados com a visão de alimentos podemos recusá-los por motivos religiosos; podemos suportar o frio ou o sol para realizar alguma atividade desportiva e assim por diante. Portanto, os estímulos sensíveis, embora inegavelmente nos interpelem, não descaracterizam a voluntariedade de nossos atos.

O terceiro argumento objetor. 

O ato voluntário implica a capacidade de agir por si mesmo. Mas as Escrituras nos mostram que Jesus disse: “sem mim nada podeis fazer” (João 15, 5). Logo, a voluntariedade não é algo próprio dos atos humanos, conclui este argumento. 

A resposta de Tomás.

De fato, nós somos movidos a agir porque nos defrontamos, pela vida afora, com coisas ou situações boas que movem nossa inclinação e nos levam a buscá-las. Mas todas essas coisas são externas a nós: são bens que encontramos, examinamos, conhecemos e prudentemente elegemos para que sejam buscados. 

Há, porém, uma outra ordem de inclinação em nosso coração: aquela inclinação causada por Deus, que é mais íntimo de nós do que nós mesmos, e é capaz de mover nossa vontade a partir de dentro: agindo em nós como aquele bem que se apresenta diretamente à nossa consciência, e que nos leva, inclusive, a escolher com prudência aquilo que escolhemos dentre os bens criados. Neste sentido, Deus age em nossa vontade mesma, não somente porque a vontade humana busca, em primeiro lugar, a felicidade absoluta que está no próprio Deus, como também porque tudo o que há de bom, nesta vida, só o é porque participa de algum modo da bondade de Deus. Neste sentido, a presença de Deus em nossos corações não retira a voluntariedade de nossos atos, nem nossa responsabilidade por eles. Ao contrário, somente esta presença nos faz ser livres de verdade, porque somente ela – ainda que não percebida conscientemente por nós – é que nos capacita a escolher o bem, e a escolher bem e ordenadamente. Neste sentido, sem Deus nada podemos fazer de verdadeiramente bom, e portanto sem ele não somos verdadeiramente livres.

  1. Concluindo.

Diferentemente do que imaginamos hoje em dia, nossa vontade não é uma potência incondicionada que pode decidir o bem ou o mal por si mesma, sem condicionamentos históricos e geográficos e sem referência a Deus. Mas, em tudo isso, ela retém a capacidade de escolher mal – o que não faz com que essa capacidade tenha que ser atualizada para que sejamos livres. Somente somos livres quando, em comunhão com Deus, escolhemos bem e escolhemos o bem. Mas a possibilidade de errar, de escolher o mal, torna valiosa nossa liberdade, e determina a nossa responsabilidade.