1. introdução.

Ao longo das primeiras cinco questões desta parte da Suma, tratamos da felicidade como fim último do ser humano e como motivo fundamental de atuarmos. Debatemos em que ela consiste (a amizade com deus pela eternidade) e como obtê-la e por que meios. Estamos bem firmes na ideia de que todos os seres humanos se movem pela inclinação à felicidade, assim compreendida como a plenitude, o atingimento dos fins, a completude de todos os desejos e inclinações, de modo completo e permanente. 

Esta é uma condição a que chegamos como seres humanos, e portanto envolve nossa responsabilidade e nossa liberdade. Mas a liberdade, sem a qual não se pode verdadeiramente ser amigo de ninguém – muito menos de Deus – tem como sua primeira dimensão a possibilidade de agir voluntariamente. Se não temos voluntariedade, quer dizer, capacidade de agir deliberadamente a partir da vontade, da inclinação que decorre da inteligência, então simplesmente não somos livres, mas determinados inteiramente pelas circunstâncias, pelos estímulos e pelos instintos – de tal modo que não há nem a possibilidade de uma ética, nem a possibilidade de desenvolver virtudes. Seres incapazes de voluntariedade, no máximo, podem ser condicionados, mas não verdadeiramente educados à virtude. 

Nesta parte da Suma, estudaremos a estrutura dos atos humanos, porque somente conhecendo-os poderemos saber como agir para alcançar a felicidade. Eis, pois, um tema importantíssimo. Vamos ao debate. 

  1. A hipótese controvertida inicial. 

A hipótese inicial, para estimular e provocar o debate, propõe, de modo controvertido, que os atos humanos nada têm de voluntário. Eles seriam respostas mecânicas, determinadas por circunstâncias, e a vontade humana não teria a liberdade de agir de modo verdadeiramente livre. Há três argumentos iniciais que tentam afastar possíveis objeções a esta hipótese, tentando confirmá-la. Vamos examiná-los.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor tem base filosófica e patrística. Começa citando Gregório de Nissa, Damasceno e o próprio Aristóteles, para ensinar que eles consideravam como voluntário “aquilo que tem seu princípio dentro de si mesmo”. Mas, prossegue o argumento, o princípio dos atos humanos não está dentro do ser humano, mas nos estímulos que ele recebe fora de si para agir. de fato, nossos atos perseguem algum objeto que nos estimula e que está fora de nós, e que nós perseguimos ao atuar. o estímulo, diz Aristóteles, está sempre fora ou além do ser humano, e é o que nos move a agir. O estímulo que perseguimos por nossos atos é aquilo que Aristóteles chama de “motivador imóvel”, porque ele nos transforma e estimula, causando mudança em nós sem mudar em si mesmo. Pensemos em alguém que vê uma ruta apetitosa: é a fruta que o move a querer comê-la. Assim, o movimento que gera os atos humanos não é espontâneo, mas provocado por algo externo ao próprio agente. Portanto, conclui o argumento, o ser humano não age de forma propriamente voluntária em seus atos

Segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra que é o próprio Aristóteles quem ensina que nenhum movimento contingente, ou seja, uma atuação que modifica externamente o próprio ente e seu ambiente,  surge, em nenhum animal, sem que haja algum tipo de estímulo externo que provoque esse atuar. Ora, o ser humano é um animal, e suas ações são sempre contingentes, isto é, não são imodificáveis nem eternas. Logo, não há atos humanos sem uma causa externa, e portanto os atos humanos não são voluntários no sentido próprio do termo, conclui este argumento. 

Terceiro argumento objetor. 

O terceiro argumento é teológico, ou melhor, bíblico. De fato, diz o argumento, agir voluntariamente significa ser capaz de agir por si mesmo, de modo autônomo. Mas, de acordo com a Bíblia, o ser humano não pode fazer nada sem Jesus: “sem mim nada podeis fazer”, diz Jesus no evangelho de João 15, 5. Logo, o ser humano não é capaz de atos voluntários, conclui o argumento. 

  1. O argumento contrário à hipótese inicial.

O argumento contrário à hipótese inicial, que estabelece a impossibilidade de aceitá-la antes de meditá-la mais profundamente, nos lembra que o próprio Damasceno (De Fide Orth. ii) diz que “o ato voluntário é um ato que consiste numa operação racional”. Ora, o ser humano é racional, e pode tomar decisões a partir da sua racionalidade – pode examinar racionalmente os estímulos externos e escolher deliberadamente uma linha de conduta. Logo, existe a possibilidade de que o ser humano aja de modo voluntário, conclui este argumento. 

  1. Encerrando por enquanto.

A possibilidade de agir voluntariamente não esgota a liberdade, porque sempre se pode agir voluntariamente de um modo tal a perdê-la. É o que ocorre, por exemplo, com aqueles que deliberadamente escolhem eliminar a própria vida. Se, por um lado, a voluntariedade de um ato não é suficiente para caracterizar plenamente a liberdade humana, sem essa voluntariedade a liberdade nem sequer seria pensável.

O tema é importantíssimo, prosseguiremos no próximo texto.