1. Retomando para concluir.

Todos querem ser felizes. Eis um princípio básico da humanidade. Não há um ser humano que não se mova justamente para ser feliz, no sentido de que se move para concluir, para buscar aquilo que, conforme acredita, fará com que ele seja uma pessoa melhor, mais completa, mais realizada, mais satisfeita. Mas isto não significa que saibamos onde está essa felicidade, ou seja, o desejo de ser feliz é vago, genérico, ou mal dirigido. É por isso que as pessoas buscam aquilo que, aos olhos de qualquer outro com um mínimo de prudência e sensatez, não trará nenhuma felicidade: o pecado, o crime, as riquezas desnecessárias, o sofrimento alheio deliberadamente causado, tudo isso pode ser objetivo de condutas humanas, e, embora o agente acredite que o faz em busca de plenitude, de satisfação, de atingimento de objetivos valiosos, no fundo são, muito claramente, objetivos que não trarão felicidade de verdade. Neste sentido, podemos dizer que todo mundo deseja mesmo ser feliz, mas nem todo mundo se abre à felicidade verdadeira, à qual somente podemos aceder pela abertura à graça santificante de Deus.

De posse destes princípios, vamos voltar a examinar os argumentos objetores iniciais – que tentavam provar o contrário – para estudar as respostas de Tomás a eles.

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás. 

O primeiro argumento objetor

O primeiro argumento lembra que a felicidade pressupõe que a nossa vontade nos mova em direção a ela, ativamente. Mas a vontade somente pode nos inclinar a perseguir aquilo que conhecemos, porque ela é o apetite da inteligência. E a maioria das pessoas ignora o que é que, de verdade, pode nos fazer felizes. Logo, nem todo mundo busca a felicidade, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Tomás nem precisa responder especificamente a esta objeção. Ele a considera já respondida pela resposta sintetizadora, que estudamos no texto anterior. De fato, ali ele faz uma importante distinção: todos buscam a sua felicidade, embora nem todos saibam exatamente onde encontrá-la, ou se equivoquem quanto àquilo que, verdadeiramente, fará com que sejam felizes, e a buscam no lugar errado. Logo, a resposta é: todos buscam a felicidade, mas nem todos a buscam ali onde ela realmente pode ser encontrada. 

O segundo argumento objetor. 

O segundo argumento inicial afirma que a felicidade, propriamente falando, consiste em desenvolver uma amizade tão profunda com Deus a ponto de ser admitido à visão de Deus frente a frente, assim como ele é. Mas muitos duvidam até mesmo que deus exista, e outros tantos afirmam que, se ele existe, certamente não se interessa por nós nem se dá a uma relação pessoal com um mero mortal, de tal modo que não fazem da amizade com deus uma prioridade em sua própria vida. Há, por fim, aqueles que, embora sabendo que Deus se deixa encontrar e busca relacionar-se conosco, simplesmente não o consideram importante e explicitamente o rejeitam. Portanto, conclui este argumento, nem todos os seres humanos buscam a felicidade. 

A resposta de Tomás.

Tomás nos lembra que as coisas são o que são na realidade dos fatos, mas nem sempre são compreendidas pelas pessoas da mesma maneira. Realmente, diz Tomás, na realidade dos fatos, a felicidade é aquela completude, aquela plenitude, aquela realização que se dá quando a vontade é completamente saciada porque atingiu o bem perfeito, capaz de atender a todas as suas inclinações e expectativas de maneira completa e perfeita. E, ainda no plano da realidade, somente Deus, a Trindade Santa realmente existente, é capaz de, pela graça, nos conduzir a esta situação, quando nos abrimos e ativamente aderimos à graça e nos deixamos conduzir por ela.

Ora, a primeira dimensão da realidade, ou seja, aquela de que a nossa vontade é insaciável por qualquer coisa que não seja perfeita, completa e total, é intuída por todas as pessoas. Todos nós nos movemos em busca dessa realidade. Mas quanto ao segundo aspecto ou dimensão da realidade, ou seja, à percepção de que somente Deus, com sua graça e em sua glória, pode nos levar a uma felicidade assim, é algo que nem todos percebem ou aceitam. Disso podemos concluir, diz Tomás, que todos os seres humanos movem-se em busca da felicidade, porque intuem a primeira dimensão dela, mas nem todos compreendem ou aceitam a segunda e mais importante dimensão dela. 

O terceiro argumento objetor. 

Segundo Santo Agostinho, diz o argumento, feliz é quem tem tudo o que quer e nada quer mal. Ora, prossegue o argumento, sabemos que muitas pessoas buscam ativamente o mal, quer porque buscam aquilo que é mau, quer porque buscam mal aquilo que é bom, quer porque buscam as coisas boas por razões ou objetivos maus. Logo, conclui o argumento, nem todos desejam a felicidade

A resposta de Tomás.

Precisamos tomar cuidado com essa definição de felicidade, que é aceita por muita gente: “feliz é quem tem tudo o que quer”, ou ainda “feliz é aquele para quem tudo acontece exatamente como ele deseja”. De fato, não se pode negar que essas definições, sob certas condições, são verdadeiras, mas, sob muitos ângulos, ela são falsas e enganadoras, e conduzem à infelicidade e à destruição. Vejamos.

Se entendemos que o ser humano está aberto, já desde suas inclinações mais naturais e humanas, a somente ser saciado com aquilo que de fato é pleno e absoluto, então estas definições são verdadeiras. De fato, o coração do ser humano está sempre inquieto, porque percebe que nunca será saciado pelos bens limitados que encontra nesta vida. Assim, se a inquietação, a insatisfação do coração humano, encontra a plenitude divina, ele se torna verdadeiramente feliz, porque “tem tudo o que quer”, e todas as coisas “acontecem exatamente como ele deseja”. 

Mas se entendemos estas frases como significando que um ser humano pode ser feliz quando alcança riquezas naturais ou econômicas intermináveis, poder político, militar ou econômico absoluto ou fama universal, de tal modo a “ter tudo o que quer” ou “fazer tudo acontecer como deseja” independentemente de Deus, então essas afirmações não são somente enganosas, como profundamente nocivas. Porque a satisfação dessas inclinações deste modo afastarão o ser humano de Deus de uma maneira irremediável, e causarão a sua perda e a perda de muitos em torno dele. E o impedirão de vislumbrar a verdade daquilo que realmente poderia fazê-lo feliz. 

É por isso que Santo Agostinho diz “feliz é quem tem tudo o que quer” e acrescenta: “e nada quer de mal”; esse acréscimo, a rigor, nem seria necessário, porque bastaria que o ser humano quisesse Deus que a primeira frase estaria perfeita. Mas como há o risco de desviar-se na busca da felicidade, por tentar buscá-la no que não pode trazê-la, ele sente a necessidade de advertir-nos a “não querer nada de mal”. 

  1. Concluindo.

Que todos os seres humanos desejam a felicidade é indiscutível. Esta é a base de toda e qualquer ética, no sentido de discernimento pessoal de “como agir”. Mas isto não significa que saibamos imediatamente como agir para atingi-la. É o que vamos estudar nas próximas questões.