1. Retomando.

Vimos, no texto anterior, a hipótese controvertida de que nem todo mundo deseja realmente ser feliz. Como dizíamos ali, as pessoas fazem, muitas vezes, escolhas erradas e até destrutivas, opostas à perspectiva de felicidade. Vimos os três argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese; o primeiro argumento lembra que não se pode buscar senão aquilo que se conhece, e muitas pessoas não procuram conhecer mais profundamente os caminhos da felicidade – conformam-se com os prazeres superficiais, como os prazeres alimentares ou sexuais, ou até mesmo o conhecimento vão por curiosidade. O segundo argumento afirma que uma amizade com Deus é vista como improvável, ou até impossível, por muitas pessoas. se ela é a fonte da felicidade estas tantas pessoas simplesmente consideram impossível sequer cogitar em ser feliz por esta maneira. Finalmente o terceiro argumento lembra que Santo Agostinho define a pessoa feliz como aquele que tem tudo o que quer e não quer nada de mau; mas muita gente busca ativamente o mal, portanto nem todo mundo quer ser feliz da mesma maneira.

Por fim, posicionando-se contra a hipótese inicial, a hipótese sed contra lembra que o próprio Santo Agostinho afirma que todos querem ser felizes e este é um querer que está em todas as vontades.

Colocados os termos da questão, vamos estudar a resposta sintetizadora de Tomás. 

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Mais uma vez Tomás nos mostrará que as dúvidas e confusões nesta matéria ocorrem porque não estamos atentos a todos os sentidos das coisas sobre as quais falamos.

Também quando nos perguntamos se todas as pessoas, mesmo aquelas mais deprimidas, ou mais desviadas, mais destrutivas ou mais maléficas, estão buscando a felicidade (ou seja, se a busca da felicidade é um ponto em comum de todos os seres humanos), precisamos distinguir bem as coisas.

Se estamos falando de um movimento do coração em busca da plenitude, da saciedade, da perfeição, do repouso do querer na saciedade de todos os bens, de todas as conquistas possíveis, ou seja, de uma inclinação à busca daquilo que, acreditamos, nos transformará em pessoas plenas, saciadas, realizadas, então esta é uma busca de todos os seres humanos. No fundo, todos nós, mesmo o criminoso mais empedernido, mais mergulhado no mal, ou mesmo o suicida mais desesperado, estão buscando aquilo que, acreditam, saciará seu coração e os fará repousar na plenitude da realização pessoal. 

De modo genérico, é a busca dessa realização, seja na forma de uma fortuna financeira, de uma fama mundial, de uma satisfação sexual interminável, ou mesmo da cessação do desespero por algum tipo de anestesia geral definitiva – é isto que move toda e qualquer pessoa a agir, isto é, a mover sua pessoa na direção daquilo que a sua vontade aponta como bom para ela, como aquilo que a tornará feliz, completa, realizada, saciada. Neste sentido, todos nós, qualquer ser humano, quer e anseia pela felicidade. 

Mas, se estamos falando da busca da verdadeira felicidade, ou seja, daquela que realmente fará pleno o ser humano e realizará todas as suas inclinações e desejos, então este não é um desejo de todos os seres humanos. Bem poucos de nós, na verdade, chegam a intuir a profundidade e o verdadeiro significado do nosso desejo de felicidade, que é um desejo que só Deus, em sua bondade infinita, pode realizar. Como não sabem disso, como muitas vezes mesmo nós, pessoas de fé, não chegamos a discernir a profundidade dessa intuição, então não buscam a sua felicidade pelo único modo que poderiam realmente alcançá-la – no esforço e na busca de uma relação profunda com Deus, de abertura à graça e de realização de Sua maravilhosa vontade em nossa vida. Ou seja, o desejo profundo de santidade, que é a única maneira de ser realmente feliz, não está presente igualmente em todas as pessoas do mesmo modo. Neste sentido, nem todos os seres humanos são movidos pela busca da felicidade em sentido próprio.

  1. Encerrando por enquanto.

Será que todo mundo deseja mesmo ser feliz? A resposta é dupla: sim, todos desejam a felicidade, e esta é a primeira e fundamental motivação do ser humano. Quando saímos da cama, quando achamos forças mesmo para cometer crimes, promover a destruição dos outros ou de nós mesmos, nós o fazemos movidos por um desejo implícito e irrefletido de plenitude, de realização. Neste sentido, o impulso pela felicidade está presente em todos os corações humanos.

Mas a felicidade em sentido próprio somente se pode encontrar na vida em comunhão com o Deus verdadeiro, com a abertura à Sua graça, que nos fará caminhar virtuosamente em Sua vontade para a santidade. Neste sentido próprio, a vontade de felicidade não está em todos os corações.

No próximo texto, de posse destes princípios, debateremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.