- Introdução.
As pessoas fazem escolhas erradas na vida. Suicidam-se, envolvem-se em vícios, em crimes, agridem e lesam os outros, renunciam a fé, praticam satanismo, enfim, escolhem as coisas mais tortas, mais destrutivas, mais adequadas para afastar a felicidade e encaminhar a becos sem saída e à destruição. Por que fazem isto? Por que alguns seguem tão veementemente o caminho da felicidade, buscando-a tão firmemente, enquanto outros parecem escolher caminhos de destruição e afastamento de Deus e do próximo? Será que o problema da felicidade não se põe para todos? Será que algumas pessoas simplesmente não escolhem ser felizes, ou melhor, escolhem não sê-lo?
Este é o debate agora colocado. Por que a felicidade não é buscada por todo mundo? Por que alguns escolhem caminhos tão obviamente destrutivos? Parece que a felicidade não é o objetivo de todo mundo. Ou será que é? Vamos acompanhar o debate.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial propõe, aqui, que nem todas as pessoas desejam a felicidade, ou seja, nem todo mundo tem a vontade profunda de ser feliz. E apresenta três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro objetor lembra que, mesmo no plano psicológico, é preciso primeiro conhecer para depois querer, buscar e amar. Mas parece que muita gente ignora a felicidade verdadeira, porque muitos centram sua vida nos prazeres físicos, ou mesmo no desenvolvimento do intelecto – e muitos em outras coisas que lhes dão prazer. Assim, parece que nem todos desejam de verdade a felicidade, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Como já vimos em debates anteriores, a essência da felicidade é a amizade definitiva com Deus, vendo-o face a face assim como ele é. Mas muitos duvidam sinceramente, e mesmo acreditam e pregam que ninguém pode realmente entrar numa amizade pessoal com Deus, muito menos esperar vê-lo pessoalmente, face a face. Logo, nem todo mundo deseja verdadeiramente a felicidade, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Santo Agostinho, falando da felicidade, diz que felizes são aqueles que têm tudo o que querem e nada querem que seja mau. Mas nem todos têm a vontade ordenada deste modo, porque há muitos que percebem que é mau aquilo que querem, e no entanto desejam-no assim mesmo – alegram-se no mal. Assim, nem todos querem mesmo a felicidade, conclui o argumento.
- O argumento contrário à hipótese inicial.
O argumento sed contra, ou seja, aquele que se opõe à hipótese inicial, também cita Santo Agostinho. De fato, mencionando certo comediante romano que afirmava que todos querem levar vantagens financeiras e despertou risos, afirma; “se nosso comediante tivesse dito: ‘todos vós quereis ser felizes, não quereis ser infelizes’, teria dito algo que ninguém deixaria de reconhecer em sua própria vontade”. Isto é, no fundo o desejo que ocorre no mais íntimo de todas as vontades, de todos os seres humanos, é o de ser feliz, conclui este argumento.
- Encerrando por enquanto.
Por que há tanta dificuldade, entre as pessoas, de reconhecer o desejo de felicidade, que, no fundo, é o desejo de proximidade com Deus? Segundo o Catecismo da Igreja Católica (§29), esta “relação íntima e vital que une o homem a Deus” pode ser esquecida, desconhecida e até explicitamente rejeitada pelo ser humano. Tais atitudes, diz o Catecismo, podem ter origens diversas: “a revolta contra o mal existente no mundo, a ignorância ou a indiferença religiosas, as preocupações do mundo e das riquezas, o mau exemplo dos crentes, as correntes de pensamento hostis à religião e, finalmente, a atitude do pecador que, por medo, se esconde de Deus e foge quando Ele o chama”. Tudo isto implica, como sabemos, afastar-se da única via para a felicidade.
Será que esse desejo de autonomia, essa rejeição a Deus, é mais profunda do que o desejo de felicidade? Veremos a resposta de Tomás no próximo texto.
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