1. Retomando para concluir. 

A santidade não é uma ética, a felicidade não é um moralismo. Muito diferente disso, a santidade começa com um encontro – o encontro com Jesus. E conclui com a amizade eterna com a Trindade Santa, no céu. Deus é o semeador e o ceifeiro. Mas nós precisamos ser bons terrenos.

Neste sentido, desenvolver virtudes não é seguir uma “ética de deveres”, embora, é claro, os deveres estejam envolvidos nisso. Ser feliz pressupõe um coração reto, ou seja, um coração capaz de alegrar-se com o verdadeiro bem e colocar tudo na verdadeira hierarquia. Tudo me é permitido, diz São Paulo em 1 Coríntios 6, 12, mas nem tudo me convém. Discernir o que convém é prudência. Querer o que convém, mesmo em prejuízo próprio, é justiça. Lutar pelo que convém, mesmo frente a todas as dificuldades e os apelos do comodismo é fortaleza. Ter, do que convém, aquilo que me é adequado, é temperança. Eis o quadro do coração que se prepara para receber a graça santificante e ser feliz. Em suma: a felicidade é um dom. Mas não um dom a ser recebido de qualquer modo. Trata-se de um dom a ser recebido por um coração que o conhece, o valoriza e se prepara para ele.

Com estes princípios em mente, vamos revisitar os argumentos objetores iniciais, que tentavam comprovar que o ser humano não tem que participar da construção da própria felicidade com nenhum tipo de agir, vale dizer, que as obras humanas não são pressupostas para alcançar a felicidade. Com os princípios que provam o contrário, vamos enfrentar agora esses argumentos e aprender com eles.

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás. 

O primeiro argumento objetor.

Deus tem poder infinito. Ele não precisa de algum material preexistente para agir, como o escultor ou o arquiteto precisam de matéria sobre a qual atuar. Deus cria a partir do nada,

Ora, vimos que o ser humano não pode alcançar a felicidade por suas próprias forças; quer dizer, não podemos ser causa eficiente de nossa própria felicidade. Assim, qualquer tipo de atividade nossa, se não é causa eficiente, seria uma espécie de material sobre o qual Deus construiria nossa felicidade. Mas esse material não é necessário para Deus. Então nossas obras não são necessárias para atingirmos a felicidade, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

A nossa felicidade pressupõe nossa atividade, nossas ações, não como uma espécie de “material” que ajudasse alguma incapacidade divina de agir, mas como respeito de Deus por aquilo que ele mesmo criou: seres humanos livres, chamados a ser amigos, ou melhor, filhos, e não simples objetos passivos da ação de Deus. 

o segundo argumento objetor.

O segundo argumento vai na mesma linha do primeiro. Deus nos criou a partir do nada, portanto pode nos levar à felicidade a partir do nosso nada, sem pressupor nenhum tipo de preparação de nossa parte. Logo, as nossas obras não são necessárias à nossa felicidade, diz o argumento. 

A resposta de Tomás.

De fato, diz Tomás, na criação Deus fez tudo perfeito, sem precisar de alguma matéria anterior. E de fato essa perfeição inclui a realização final de todas as suas potencialidades, porque estas seriam as potencialidades que todas as criaturas posteriores deveriam alcançar. Tudo está perfeito em Deus, na sua mente criadora. E de fato Jesus já nasceu com a felicidade em sua alma, porque ele seria o nosso padrão de felicidade, e dele aprenderíamos a ser felizes também. A relação de Jesus com Deus sempre foi plena, desde o nascimento. Mas, ainda assim, ele cresceu em sabedoria, graça e estatura diante de Deus e dos homens (Lucas 2, 52). 

Quando somos batizados, o pecado original se apaga em nós, e recebemos como dom a amizade com Deus. Isso decorre, é claro, das virtudes e dos méritos de Cristo, que nos abriu a salvação. Mas a felicidade final virá, em nós, de uma caminhada com Deus, que implica um esforço para tornar-se terreno bom (Marcos 4, 8) e manter-se ligado à videira, sem a qual nada podemos fazer (João 15, 1-5). Deste modo, devemos receber a graça e trabalhar para que ela dê frutos em nós, frutos que nos tornem dignos da salvação que nos é dada como dom. 

O terceiro argumento objetor.

A Escritura (Rm 4, 6), diz o argumento, proclama felizes aqueles a quem Deus atribui a justiça sem as obras. Logo, a felicidade nos vem só pela graça, só pela fé, sem nenhuma obra nossa, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

O Apóstolo São Paulo está falando, aqui, da justificação que vem com a graça da conversão, que nos traz para a vida cristã e nos justifica, devolvendo-nos a condição de filhos de Deus, para que possamos ter uma vida sobrenatural de fé, esperança e caridade. Essa justificação é fruto puramente da graça, mas ela não é o fim de nossa caminhada. Ela é o princípio, e o fim é justamente a salvação, a santidade, à qual não se chega sem o coração reto que recebe e faz a graça frutificar. Por isso, Santo Agostinho ensinava: “Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti”.

  1. Concluindo.

Esta questão da fé e das obras continua relevantíssima em nosso tempo – talvez ainda mais do que no tempo de Tomás, dado o advento da reforma protestante neste meio termo. Conta a história que o Concílio de Trento (1545-1563), que respondeu à reforma protestante, foi celebrado com as Escrituras e a Suma abertas sobre a mesa. Ele reafirmou a doutrina católica de que a salvação é fruto da fé operante pela caridade, unindo fé e boas obras. Contrapondo-se à justificação apenas pela fé (Protestantismo), o Concílio definiu que as obras, impulsionadas pela graça, são necessárias para a manutenção e aumento da justificação – ou seja, sem a nossa cooperação, a graça não nos levará à felicidade.