- Retomando.
No texto anterior, vimos a hipótese inicial de que, uma vez que não tem a possibilidade de alcançar por si mesmo a felicidade, o ser humano não precisa – e não deve – fazer nada no sentido de esforçar-se para ser feliz. Três argumentos tentaram comprovar esta hipótese. O primeiro argumento lembra que é Deus quem conduz à felicidade,e sua onipotência não pressupõe nenhuma ajuda de nossa parte. O segundo argumento vai no mesmo sentido: como Deus nos criou a partir do nada, é também a partir do nosso nada que ele nos fará felizes. Por fim, o terceiro argumento exclui as nossas atividades, as nossas obras no sentido da felicidade, ao citar Romanos 4, 6 (“É assim que Davi declara felizes aqueles seres humanos a quem Deus atribui a justiça independentemente de obras”) para reafirmar que a felicidade não depende de nenhuma obra humana para realizar-se.
Por fim, o argumento contrário lembrou que o Evangelho de João (13,17) nos traz a palavra de Jesus: “Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sereis, se as praticardes”. Logo, é o próprio Jesus, nas Escrituras, que nos ensina que a felicidade envolve também a prática da vontade de Deus em nossa vida.
Com o debate colocado nestes termos, vamos estudar agora a resposta do próprio Tomás a este tema.
- A resposta de Tomás.
Não se pode ser feliz sem ter uma vontade reta. Eis a primeira lição de Tomás.
E o que é uma vontade reta? É a vontade que consegue discernir o verdadeiro bem e se encaminhar a ele. Ou seja, é a vontade virtuosa.
Deus respeita nossa liberdade. Se não quisermos apontar nossa vontade para o verdadeiro bem, pela educação de nossa pessoa à virtude, simplesmente não alcançaremos a felicidade. Deus não nos colocará ali onde a nossa vontade prefere não ir. Ele respeita nossa liberdade.
As virtudes possibilitam que nós busquemos o verdadeiro bem. De fato, toda vontade está, por natureza, inclinada a buscar o bem. Não existe vontade que não busque o bem. A questão é que aquilo que parece bom para nós nem sempre é bom de verdade. Para o covarde, por exemplo, fugir do atacante pode parecer um bem, comparado a arriscar-se para salvar sua família ou mesmo a pátria. Para o guloso a comida em excesso pode parecer melhor do que a saúde. Para o luxurioso o sexo ocasional pode parecer melhor do que o respeito ao seu próprio corpo e ao corpo do outro. E assim por diante.
Somos pessoas. Temos vontade. E a nossa vontade tem muita dificuldade de atinar com o verdadeiro bem. Na verdade, não podemos vê-lo. Porque apenas Deus é bom incondicionalmente. Todos os bens que somos capazes de perceber e discernir por nossa própria conta são bens apenas num sentido relativo, ou seja, têm aspectos limitados de bem.
É por isso que a vontade de Deus não precisa de nenhum tipo de discernimento. Ele próprio é o bem supremo, incondicional, de modo que sua vonade está imutavelmente voltada para si mesmo, não como uma atitude narcisista ou egoísta, mas porque em si está todo o bem – inclusive o nosso. Deus não precisa formar virtudes, deliberar, escolher. Ele se ama, ele nos ama por causa dele mesmo, e isso de modo absoluto, eterno, imutável. Deus não precisa fazer nada para ser feliz. Ele já o é, sempre foi e sempre será. Para Deus não existe a necessidade de atividade prévia à felicidade. Ele é imutavelmente feliz, porque nele não há distância entre a vontade e o bem.
Os anjos são seres mais simples do que nós. Uma vez criados, tomam consciência de si mesmo e tomam consciência de Deus. Assim, precisam fazer apenas uma escolha, apenas um movimento, apenas um ato livre de escolha da vontade: o bem perfeito e supremo que está em Deus ou o bem enorme, mas criado, que encontram em si mesmos. No simples movimento da vontade para si mesmos ou para Deus eles alcançam a felicidade em Deus ou a perdição eterna em si mesmos. Neste sentido, mesmo para os anjos é necessário agir, mover-se, e escolher virtuosamente o bem para alcançar a felicidade. Uma escolha virtuosa apenas, assistida pela graça, e terão para sempre a recompensa plena por esse mérito alcançado pela sua própria atitude assistida pela graça.
Para nós, seres humanos,a situação é um pouco mais complexa. Deus pode conduzir nossa vontade para o bem pleno que nos dará a felicidade perfeita, mas, para isso, a raça precisa se encontrar com uma vontade reta, virtuosa, capaz de ser conduzida para a graça sem ter sua liberdade violada no percurso. A vontade virtuosa é como a matéria na qual a graça vai trabalhar para dar a forma da santidade. Como o bom mármore que possibilitará ao escultor fazer a bela estátua. Eis a importância das virtudes que aperfeiçoam a vontade.
Assim, diferentemente de Deus, que tem a vontade permanentemente voltada para a felicidade plena que é ele mesmo, e não precisa mover-se; diferentemente dos anjos, cuja vontade fará apenas um movimento virtuoso e alcançará imediatamente a felicidade, nós humanos temos um longo processo de amadurecimento, de desenvolvimento de virtudes, de retificação da vontade, de modo a podermos ser bom material para a obra que a graça faz em nós. Este trabalho de aperfeiçoamento moral é nobre, meritório e procede em comunhão com a graça. E a felicidade, para nós, humanos, é justamente a culminação desse processo que se chama, afinal, santificação, e nos conduz à salvação.
- Encerrando por enquanto.
Deste modo, a nossa atividade é necessária para que possamos atingir a condição de santidade que nos concede a felicidade eterna. Eis o caminho da ética: é o caminho da construção, em nós, daquela condição que o Espírito Santo espera que tenhamos para que Ele possa trabalhar-nos até a santidade. Ou, como dizia Santo Agostinho: se Deus não nos consultou para nos criar, ou seja, ele nos criou sem nós; mas, uma vez que nos criou livres, ele não nos salvará sem nós, sem nossa colaboração, sem nosso esforço meritório e virtuoso. Que é preparado pela graça e se desenvolve na nossa vontade, tornando-a virtuosa.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos iniciais, a partir destes princípios.
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