- Retomando para finalizar.
A vida cristã consiste na busca permanente e incansável pela santidade, e isso envolve, é claro, o nosso comportamento, as nossas ações: aquelas dignas de Deus, mas também aquelas equivocadas, que podem servir para a reflexão, o arrependimento e o pedido de perdão ou para que nos afastemos de Deus. Para tudo isso, é preciso contar com um discernimento adequado. E ele pressupõe a capacidade de hierarquizar prioridades. Nossos atos são todos realizados sob as circunstâncias de tempo e lugar em que vivemos, e por isso são limitados, falíveis e contingentes.
Justamente porque o tempo e o lugar são como a moldura, a camada externa dos atos, é preciso saber qual circunstância é central dentre as que estão sob nosso controle. Vimos, no texto anterior, que há duas circunstâncias decisivas, fundamentais, para o nosso discernimento: 1) o fim, ou seja, o motivo pelo qual agimos, o objetivo que buscamos com nosso agir; e 2) aquilo ou aqueles que sofrem o nosso ato. Essas duas circunstâncias, como Tomás ensinou, são as mais importantes e devem constituir o eixo de uma deliberação prudente e virtuosa. As outras circunstâncias, como a oportunidade, o modo ou o lugar, são mais ou menos importantes na medida em que se aproximam ou se afastam destas.
Com esses princípios em mente, vamos retomar os argumentos objetores iniciais — que tentavam provar a hipótese de que essas não seriam as circunstâncias preponderantes — para estudar as respostas específicas que Tomás nos oferece sobre eles.
- Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento afirma que a pergunta a respeito daquilo sobre o que a ação recai parece ter por resposta as circunstâncias de tempo e de lugar — ou seja, quando e onde o ato foi praticado. Ocorre que o tempo e o lugar, diz o argumento, não são as principais circunstâncias do ato, justamente por serem aquelas mais distantes do controle do agente e, portanto, mais externas ao seu próprio agir. Logo, aquilo sobre o que se realiza a ação não pode ser uma das circunstâncias preponderantes, conclui a objeção.
A resposta de Tomás.
Tomás não tem dúvida de que as circunstâncias de tempo e lugar são muito importantes. Mas ele lembra, com muita precisão, que elas não respondem à pergunta a respeito daquilo sobre o qual a ação recai, para Aristóteles. De fato, Aristóteles considera que aquilo sobre o qual a ação recai é a coisa ou a pessoa que sofre a ação, ou, mais precisamente, aquilo que o agente faz sobre elas, e não as circunstâncias de tempo ou lugar. É por isso, diz Tomás, que Nemésio de Emesa (que Tomás cita como se fosse Gregório de Nissa, confusão comum naquele tempo) substitui a expressão ambígua “aquilo sobre o que a ação recai” — que poderia levar à interpretação equivocada registrada nesta primeira objeção — por “aquilo que foi feito”, ou seja, o que aconteceu com aquilo (ou aquele) que recebe o ato na condição de sujeito passivo.
O segundo argumento objetor.
Lembrando a teoria das causas em Aristóteles, o segundo argumento afirma que a causa final — ou seja, o fim do próprio ato — é o objetivo perseguido pelo agente, o qual está situado fora da própria ação física, pois representa o resultado que se quer obter após praticá-la. Ocorre que o resultado exterior só passa a existir depois de executado o ato; logo, não faz parte da sua própria substância imediata. Consequentemente, a circunstância que diz respeito à finalidade perseguida pelo agente não pode ser uma das que são consideradas como mais importantes, conclui a objeção.
A resposta de Tomás.
Tomás faz, aqui, mais uma daquelas suas célebres distinções, que esclarecem a resposta com precisão. Quando falamos de finalidade ou fim de um ato, certamente falamos de algo que, olhando para o mundo da vida, está objetivamente fora ou além do ato humano. Este, o ato humano, é um processo de modificação voluntária da realidade pelo agente; portanto, a própria alteração pretendida não se esgota no ato em si, mas se realiza no plano exterior.
Mas, quando examinamos o coração do agente — isto é, a dimensão subjetiva, interna, a própria voluntariedade livre daquele que age —, vemos que a finalidade, o resultado almejado, é justamente a primeira coisa que move o agente e dá sentido ao seu agir. É, portanto, aquilo que o orienta, que dá inteligibilidade à sua conduta e determina a escolha de todas as outras circunstâncias. Nesse sentido, a finalidade da ação não está fora do ato (quando observado sob a perspectiva da intenção), mas representa justamente a sua circunstância mais importante e determinante.
O terceiro argumento objetor.
Buscando aquilo que é mais fundamental num ato qualquer, o argumento afirma veementemente que os dois aspectos mais importantes são a causa eficiente do ato e a sua forma. ora, prossegue o argumento, a causa eficiente do ato é a pessoa que age, que o realiza, e a forma pela qual ele age é a maneira que ele usa para executá-lo. Assim, as circunstâncias mais fundamentais do ato humano são a pessoa que age, como causa eficiente, e a maneira como executa o ato, como causa formal, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Precisamos ter cuidado ao afirmar que a pessoa é a causa eficiente do ato. A verdadeira causa eficiente do agir é o coração da pessoa concreta que age, quando ela, no uso de sua liberdade, busca uma determinada finalidade e a persegue por meio de um ato voluntário. Assim, falar em abstrato de uma “pessoa” como causa eficiente do ato voluntário não é descrever a causa eficiente concreta do agir — como a circunstância que o individualiza (este ato, feito por esta pessoa, para alcançar esta finalidade) —, mas simplesmente descrever uma estrutura teórica e abstrata da própria ação humana. Por isso, a circunstância mais fundamental reside na finalidade que habita o coração do agente, e não na pessoa tomada em abstrato.
Similarmente, quando falamos de modo, não devemos confundir a mera maneira de executar uma ação com a própria forma moral do ato. O modo, quando classificado como circunstância, configura apenas uma qualidade acidental do agir — como o fato de realizar algo com pressa, calma, hesitação ou vivacidade —, a qual não altera, por si só, a substância moral da ação.
A verdadeira forma e inteligibilidade da ação humana é dada pela união entre a pessoa ou coisa que sofre o ato (o sujeito passivo atingido pela conduta do agente) e a finalidade pretendida pelo coração. Por isso, a mera maneira ou modalidade de execução permanece como um elemento secundário e acidental, orbitando ao redor das duas circunstâncias verdadeiramente prioritárias: o fim e o objeto.
- Concluindo.
Todas as circunstâncias são importantes. O agente virtuoso — isto é, a pessoa prudente — está sempre atento a todas elas quando deve escolher o que fazer. Mas muitas vezes ele precisa agir em circunstâncias desfavoráveis, sem a possibilidade de refletir calmamente ou sem a clareza de tudo o que pode influir na sua conduta ou resultar dela. Nessa hipótese, deve estar atento principalmente à motivação do seu próprio coração e aos efeitos do ato naquilo (ou naquele) que sofre a ação. Todas as outras circunstâncias recebem sua devida apreciação quando estão devidamente referidas a estas.
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