1. Introdução.

Vimos, nos dois artigos anteriores, que a alma humana é imaterial e subsistente, isto é, capaz de sobreviver à morte. Mas ocorre que, na terminologia da filosofia clássica, adotada pela Suma, qualquer ser vivo tem alma. É fácil entender: todos os seres materiais são compostos de matéria e forma. No caso dos seres vivos, sua forma se chama “alma”, ou “anima”, porque é capaz de imprimir-lhes dinamismo interno. Esta é o chamado “hilemorfismo”, ou “hilomorfismo” metafísico, palavra que vem da união entre “hylé”, que é matéria, e “morfé”, que é forma.

Portanto, todos os seres vivos, sejam vegetais, animais irracionais ou animais inteligentes como nós, caracterizam-se por ter uma estrutura em matéria e forma, que, no caso dos seres vivos, são representados pelo corpo e pela alma.

No caso dos vegetais, a alma é muito simples, porque estrutura apenas as atividades da chamada vida vegetativa: nascer, crescer, alimentar-se, reproduzir-se. Nada há, aí, que não esteja relacionado com a própria sobrevivência física mais básica, mais imediata. Mas, no caso dos a animais irracionais, há uma série de operações de percepção que os tornam muito autônomos e capazes de interação com o meio ambiente. Eles são capazes de alguma aprendizagem e reações inesperadas, de tal modo que seu comportamento pode ser imprevisível. Por outro lado, a sua sensibilidade, em muitos casos, é até mais apurada do que a humana, e, em muitos casos, estão muito mais adaptados às condições ambientais do que nós. Há algo, neles, de subsistente? Algo que supere o plano material e possa representar algum tipo de espiritualidade? Este é o debate a ser travado neste artigo.

2. A hipótese controvertida.

Como sempre, para provocar o debate, Tomás traz uma hipótese controvertida, que será testada no diálogo. A hipótese controvertida, aqui, é que as almas dos animais irracionais também é subsistente, como a nossa. Será uma excelente discussão sobre a natureza da inteligência humana, portanto. Ele coleciona três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que somos todos animais; tanto nós, os humanos (chamados de “animais racionais”) quanto os outros animais, que são desprovidos de racionalidade. Somos, junto com eles, parte do conjunto dos animais. Ora, se somos animais como eles, e se nossa alma animal é algo subsistente, o argumento conclui que todas as almas animais também o são.

O segundo argumento objetor.

A inteligência humana tem por objeto próprio a inteligibilidade das coisas, ou seja, aquele conhecimento de quem, deparando-se com os seus objetos, é capaz de extrair, a partir dos elementos concretos que interagem com o corpo, a informação abstrata e universal que forma o conhecimento intelectual. Mas, uma vez obtido este conhecimento, a inteligência humana já não depende do corpo para acessá-lo e utilizá-lo. Esta independência é que nos leva a afirmar que a alma intelectual é subsistente.

Ocorre que os animais também são capazes de aprender com os dados sensíveis que interagem com seus sentidos. Este conhecimento sensível está para o seu objeto, que é constituído por tudo aquilo que atinge os sentidos dos animais, como o conhecimento intelectual do ser humano está para os inteligíveis, no sentido de que, mesmo ausente o estímulo, os animais são capazes de reter o conhecimento sensível que obtiveram. O argumento deduz, então, que o conhecimento sensível dos animais irracionais, uma vez adquirido, também é retido com independência dos novos estímulos corporais. Portanto, prossegue ele, se a independência entre o conhecimento e o corpo é o critério para considerar a alma como subsistente, teríamos que concluir que as almas sensíveis dos animais são tão subsistentes quanto nossas almas intelectivas.

O terceiro argumento objetor.

A alma, como vimos nos debates dos artigos anteriores, é o princípio da vida, nos seres vivos. Racionais ou irracionais. E o princípio da vida é o dinamismo, quer dizer, a capacidade de mover-se, de transformar-se. Portanto, a alma é a causa eficiente do movimento, nos seres vivos, porque ela move o corpo, mas o corpo nunca é causa inicial do movimento, porque nunca tem a iniciativa de mover a alma.

Ocorre que, como foi visto nos debates anteriores, a subsistência da alma é evidenciada pelo fato de que ela tem operações próprias, que independem do corpo.

Parece, então, que a operação de iniciar o movimento do ser vivo é própria da alma, tanto no ser racional quanto no irracional, porque ela tem esta iniciativa, independentemente do corpo. Portanto, se ela tem uma operação própria, independente do corpo, ela é subsistente, quer no racional, quer no irracional, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra recorre à Tradição da Igreja, tal como consignada nas compilações dogmáticas. Ali, consigna-se que é fé da igreja que somente o ser humano tem uma alma substantiva, e que a alma dos animais não racionais não é substantiva. Vale dizer, uma vez que a alma irracional não é sujeito de nenhuma operação por si mesma, ela não subsiste à destruição do composto (da qual ela é elemento) pela morte.

5. Palavras de encerramento.

No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.