- Retomando.
Podemos esperar a felicidade completa nesta vida? Existe a possibilidade de ser plenamente feliz aqui mesmo? Este é o debate que se iniciou no texto anterior. Importantíssimo, como vimos, porque toca um ponto essencial para nossa vida: a mundanidade, a busca de uma felicidade plena aqui mesmo, nesta vida tão fugaz, marcada por tanta injustiça e tanta coisa inesperada. Ademais, sabemos que muitos erros de fé – e de ética – decorrem justamente da ideia de que se pode – ou mesmo se deve – buscar a felicidade por aqui mesmo.
Vimos, no texto passado, a hipótese inicial de que a felicidade pode, de fato, ser encontrada de maneira plena já nesta vida. Vimos os três argumentos que tentam comprová-la: O primeiro cita o salmo 119(118), 1, que declara felizes os que andam na lei do Senhor. Ora, andar na lei do Senhor é algo próprio desta vida; logo, é possível ser feliz nesta vida, conclui.
O segundo argumento lembra que, uma vez que a nossa felicidade é uma participação, em diversos graus, na própria felicidade divina, que é a única absoluta, nada impediria que essa participação que pode acontecer nesta vida também possa ser chamada de verdadeira felicidade. O terceiro argumento lembra que as pessoas costumam reconhecer que são felizes, nesta vida mesma. Logo, ser feliz aqui é parte da natureza humana e, deste modo, é de se esperar que alguém chegue a ser feliz de modo verdadeiro aqui mesmo.
Por fim, o argumento contrário cita a Bíblia, que, no Livro de Jó (14, 1) ensina que o homem nascido da mulher, que vive breve tempo, é cercado de muitas misérias. Ora, a felicidade é incompatível com este tipo de miséria, diz o argumento. Logo, não se pode ser feliz verdadeiramente nesta vida, conclui.
Veremos agora a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás inicia afirmando que podemos, em alguma medida, alcançar uma participação limitada, provisória e inconstante na felicidade plena de Deus. Mas a felicidade, no sentido próprio de plenitude da realização humana, não pode ser obtida nesta vida.
segundo Tomás, há dois motivos pelos quais podemos estar certos de que a felicidade é inalcançável nesta vida:
- Pela própria definição de felicidade, em sua essência, percebemos que ela é inalcançável nesta vida. De fato, a felicidade é o repouso no bem perfeito, que sacia todo desejo de bem e exclui todo o mal, toda incompletude, toda imperfeição, toda carência. Mas esta é uma situação impossível nesta vida, como nos demonstra a experiência cotidiana. É o que nos ensina, por exemplo, Santo Agostinho, na obra Cidade de Deus, onde enumera os muitos percalços a que estamos sujeitos nesta vida: a ignorância e a desinformação, os desejos desordenados que temos, as necessidades e desarranjos corporais inevitáveis, estes são só alguns dos desconfortos que a vida nos traz, e que mostram que a felicidade plena não pode ser atingida aqui mesmo.
Além disso, a felicidade é um estado que não deve ser revertido; não há felicidade verdadeira ali onde se tem a consciência de que a situação de posse do bem vai acabar. Ora, não somente os bens que alcançamos nesta vida são transitórios, como a própria vida humana é transitória, passa rápido e traz a morte, que é um mal. Sabemos disso, e isso nos impede de reconhecer algum tipo de permanência da situação de felicidade. De fato, há ao menos um desejo que, nesta vida, nenhum ser humano vai realizar: o desejo de não morrer.
- Do mesmo modo, a felicidade consiste numa relação de presença com Deus, que é o bem absoluto e goza da felicidade plena. Mas nesta vida não podemos chegar a ver Deus face a face, ou seja, não podemos ter a visão beatífica, como, aliás, já vimos na Primeira Parte desta Suma. É certo que podemos ter, já aqui, uma certa relação com Deus pelas virtudes teologais, em especial pela fé, mas ainda é uma relação mediada, sacramental, limitada e fugidia. Somente na eternidade dos santos essa relação será direta.
Assim, embora se possa ser feliz em sentido limitado, ninguém será bem-aventurado de fato nesta vida.
3. Encerrando.
Quantas ideologias maléficas já foram construídas sobre a promessa de obter a felicidade perfeita aqui mesmo na terra. Totalitarismos, seitas, hedonismos, promessas levianas, tudo isto pode decorrer de uma concepção errônea da felicidade, de promessas falsas de uma felicidade já aqui – daí a importância de saber que ela é inalcançável aqui, mas não na eternidade.
No próximo texto, munidos destas ideias, revisitaremos os argumentos iniciais, para estudar as respostas de Tomás a eles.
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