1. Introdução.

Não há dúvida de que um grande número de pessoas espera a felicidade já para esta vida e vive como se não houvesse uma eternidade. Assim, cai-se ou no hedonismo – a busca do prazer pelo prazer – ou num desencanto com a vida que pode se manifestar como desespero. Daí a importância de esclarecer bem: qual a felicidade que podemos esperar aqui mesmo e qual a felicidade que esperamos na vida eterna? Este é o debate que teremos neste artigo.

  1. A hipótese provocadora inicial.

A hipótese inicial, proposta para provocar o debate, é a de que podemos, de fato, alcançar a verdadeira felicidade já nesta vida. Há três argumentos iniciais que tentam comprová-la. 

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor propõe que a Bíblia nos ensina justamente isto, quer dizer, que a felicidade plena pode ser obtida nesta vida. De fato, diz o argumento, o Salmo 119(118), 1, diz: “Felizes os íntegros em seu caminho, os que andam na lei do Senhor”. Ora, andar na lei do Senhor é algo que devemos fazer já nesta vida. Logo, se é este o caminho da felicidade, então podemos ser felizes já nesta vida, conclui este argumento. 

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra que a felicidade em sentido próprio é algo exclusivo de Deus. Nós, seres humanos, participaremos dela em graus diversos, conforme nossas virtudes, a largueza de nosso coração e a densidade da relação que estabelecemos com Deus. No artigo passado, vimos que há graus diversos de felicidade para os santos, e isso não significa que todos os santos não sejam verdadeiramente felizes. Ora, se a participação na felicidade conhece graus, nada impede de chamar a felicidade limitada que vivemos na nossa vida terrena de verdadeira felicidade também, conclui o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

Aquilo que é declarado por muitas pessoas não pode ser totalmente falso, diz o argumento; de fato, podemos estar certos de que a “natureza” de alguém ou alguma coisa é aquilo que se manifesta espontaneamente na maioria dos seres da mesma espécie, já que a natureza não pode falhar completamente. Vale dizer, o fato de que eventualmente nasça um quadrúpede a quem falta uma das pernas – e só apresenta três delas – não muda a natureza dos quadrúpedes, porque a natureza deles é que tenham quatro patas.

Ora, se a maioria das pessoas declara que é feliz, devemos acreditar que ser feliz é algo que faz parte da natureza humana, mesmo nesta vida, o que é testemunhado até pelas Escrituras. Vejamos, por exemplo, o salmo 144(143), 15: feliz o povo a quem estas coisas acontecem. Ora, as coisas que acontecem são desta vida, e portanto isto significa que se pode ser feliz, em sentido próprio, já nesta vida, conclui o argumento. 

  1. O argumento contrário à hipótese inicial.

O argumento contrário à hipótese inicial lembra que não se pode admitir que a felicidade verdadeira possa ocorrer já nesta vida, quando a própria Bíblia, no Livro de Jó (14, 1), nos ensina que o ser humano, nascido de mulher, tem a vida curta, mas cheia de inquietação. Ora, a inquietação pressupõe carência, a miséria percebida, e é justamente o contrário da felicidade. Assim, não é possível ser feliz nesta vida, conclui o argumento. 

  1. Encerrando por enquanto.

Sabemos que a esperança, como virtude, é diferente do otimismo. O otimista crê que as coisas melhorarão aqui mesmo, nesta vida, enquanto a esperança nos leva a crer que, mesmo se as coisas nos levam ao pessimismo nesta vida, nosso coração pode esperar a felicidade em Deus para além dela. Em que medida, porém, a esperança – que pressupõe a expectativa de felicidade para além dos limites naturais – exclui o otimismo com a felicidade aqui mesmo? 

Tomás conciliárá este debate no próximo texto.