1. Retomando para concluir.

Todas as civilizações desenvolveram algum tipo de noção de que há mais forças inteligentes atuando no universo do que aquelas que podemos ver. Como sabemos, para os antigos, o sinal da inteligência estava exatamente na regularidade e na previsibilidade (que para nós, hoje, são sinais de impessoalidade mecânica). Assim, por exemplo, aquilo que imputamos, hoje, a forças impessoais do universo, como a gravitação e as forças eletromagnéticas, os antigos imputaram a inteligências imateriais (anjos). Já falamos disso quando comentamos as questões relativas aos anjos, na primeira parte da Suma. 

Conhecer os anjos é algo maravilhoso, estudar o universo sem imaginar que ele é um grande mecanismo impessoal. Mas isso não é suficiente para a nossa felicidade, foi o que vimos no último texto. Munidos dessa convicção, vamos revisitar, agora, os argumentos objetores iniciais para responder a eles a partir desses princípios.

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor. 

O primeiro argumento objetor lembra que São Gregório Magno, em uma de suas homilias, ensinou que não adianta participar das alegrias e festas humanas se não chegarmos a participar da alegria dos anjos no céu, ensinando que esta é a felicidade última do ser humano. Ora, prossegue o argumento, é justamente contemplando os anjos, estabelecendo uma relação de conhecimento e proximidade com eles, entregando a eles nosso coração, que podemos alcançar a participação nas alegrias do céu. Logo, é na contemplação dos anjos que está a plenitude da felicidade humana, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Tomás nos diz que realmente é essencial, para ser feliz, participar da mesma alegria dos anjos. Mas a alegria dos anjos consiste não somente em contemplá-los, mas em, junto com eles, contemplar Deus. Isto é, para ser feliz como os anjos, é preciso fazer o que eles fazem – conhecer-se, conhecê-los mas, em primeiro lugar, conhecer e estabelecer uma relação de amor com Deus.

O segundo argumento objetor.

A nossa inteligência investiga, explora a realidade, aprende, assimila a realidade na forma de conhecimento. Mas, no final das contas, quem nos ilumina, quanto aos assuntos realmente importantes, são os anjos, que são nossos mestres de sabedoria e contemplação. É o que ensinam os antigos mestres espirituais, como o Pseudo-Dionísio. 

Ora, se os anjos são o princípio de nossa iluminação intelectual nas coisas divinas, eles devem ser também o fim a que visamos em nosso intelecto, já que o fim se aperfeiçoa quando realiza seu princípio. Portanto, a felicidade humana consiste em contemplar os anjos, princípio e fim de nossa iluminação, conclui o argumento.  

A resposta de Tomás.

Há quem acredite até que os seres humanos foram criados pelos anjos. Se os seres humanos o fossem, faria sentido dizer que os anjos são “o princípio” do ser humano. Mas somos criados por Deus, assim como os anjos. Então devemos nos espelhar neles, que encontram sua felicidade plena na contemplação de Deus, e contemplar nosso Criador junto com eles, para sermos felizes como eles são. Os anjos, assim, são nossos guias, exemplos e auxiliadores  no caminho para Deus, e não nosso princípio. Muito menos nosso fim. 

O terceiro argumento objetor.

Cada grau da criação é tão mais perfeito quanto mais se aproxima do grau superior. Assim, por exemplo, os vegetais que têm certas reações dos animais são mais perfeitos do que aqueles que não o têm. Os animais que têm reações mais perfeitas e inteligência sensorial mais desenvolvida são os mais perfeitos, porque estão mais próximos do próximo degrau, que somos nós. Assim, nossa perfeição consiste em parecer cada vez mais com os anjos, que são o próximo degrau da criação. Portanto, nossa felicidade consiste em contemplar e imitar os anjos, conclui o argumento. 

 A resposta de Tomás.

Há duas maneiras como os seres de um dos degraus da criação podem se aproximar daqueles do degrau imediatamente superior: 

  1. Quanto à medida daquela capacidade que está em jogo. Assim como a astúcia prática de carros animais é admirada por se parecer com nossa inteligência, o nosso intelecto é tão mais perfeito quanto mais se assemelha ao intelecto dos anjos. Mas a astúcia prática dos animais é comparável à nossa quando ela parece fazer o que a nossa virtude da prudência faz inteligentemente. Desse modo, nossa contemplação parece com a dos anjos cada vez que ela se torna mais capaz de contemplar aquilo que a inteligência dos anjos contempla, que é Deus.
  2. Quanto ao objeto daquela capacidade. Ora, o objeto da nossa inteligência, como o objeto da inteligência dos anjos, é a verdade universal. Que é Deus. Os anjos não são felizes por contemplar a si mesmos, mas por contemplar Deus, e nós, por contemplá-lo como os santos anjos o fazem.

E neste sentido somos felizes por nos assemelhamos aos anjos na capacidade de contemplar Deus, e não na contemplação dos anjos. 

  1. Concluindo.

No rito da missa, há um momento em que o sacerdote nos conclama: “Corações ao alto!” (Sursum Corda!). e respondemos “o nosso coração está em Deus” (Habemus ad Dominum!). É ali que está a nossa felicidade. Como veremos no próximo artigo.