- Retomando.
A ideia de que devemos viver, desde já, como anjos e que as coisas materiais são inferiores e fontes de infelicidade tem um nome: gnosticismo. Anjos são criaturas. Elevadíssimas, admiráveis, mas criaturas diversas de nós. Não são nem objeto de adoração, nem modelos de ação. Quando Jesus nos diz que “seremos como anjos” em Mateus 22:30, isto significa que, após a ressurreição, os seres humanos não se casarão nem se darão em casamento, pois a necessidade de procriação e os relacionamentos matrimoniais não existirão mais na vida eterna. Jesus usou essa comparação para responder a uma pergunta dos saduceus sobre o casamento na ressurreição e não para afirmar que as pessoas se tornarão anjos em todos os aspectos.
Será que conhecer e cultuar os anjos, tomá-los como exemplo, tentar viver vidas mais “imateriais” e angelicais, será que é este o caminho para a felicidade? Esta foi a hipótese controvertida no último texto, seguida por três argumentos iniciais que tentavam comprová-la. Mas o argumento contrário a ela nos lembra que o centro da nossa fé é Deus e somente ele, de modo que o culto aos anjos não pode bastar para nos fazer felizes.
Vamos estudar agora a resposta de Tomás sobre este assunto.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Não seremos plenamente felizes, lembra Tomás, a menos que nosso ser, que é essencialmente inteligente no sentido mais amplo da palavra, no sentido que o Papa Francisco chama de “coração”. De fato, na sua última e maravilhosa Encíclica Dilexit Nos, ele nos ensina que “este núcleo de cada ser humano, o seu centro mais íntimo, não é o núcleo da alma, mas da pessoa inteira na sua identidade única, que é alma e corpo. Tudo está unificado no coração, que pode ser a sede do amor com todas as suas componentes espirituais, psíquicas e também físicas. Em última análise, se aí reina o amor, a pessoa realiza a sua identidade de forma plena e luminosa, porque cada ser humano é criado sobretudo para o amor; é feito nas suas fibras mais profundas para amar e ser amado”. Assim, quando falamos que a fé é uma virtude intelectual, ou seja, é caracterizada por aperfeiçoar o intelecto, falamos de intelecto, aqui, no sentido de coração, e não daquela razão instrumental, seca e fria, abstrata e impessoal, que a modernidade distorceu. Não era disso que Tomás falava; quando ele fala que a felicidade é a consumação da criatura inteligente em toda a sua potencialidade, ele está falando da consumação, da plenificação, do coração, e não apenas do desenvolvimento da razão instrumental. Eis a plenitude de que fala Tomás aqui.
O fato é que conhecer os anjos, entrar em relação com eles, é algo realmente bom, está de acordo inclusive com a fé da igreja. Mas não é o pleno desenvolvimento do nosso ser: há uma relação mais alta, a relação com Deus, que nos leva, ela sim, à consumação.
A prova filosófica disso, que Tomás nos traz, é a ideia de que nosso intelecto não se satisfaz nunca em conhecer “verdades parciais”. Queremos sempre buscar mais, chegar à raiz, conhecer a Verdade até o fim. Nossa inteligência somente se satisfaz quando conhece tudo, ou seja, nesta vida a inteligência nunca repousa, porque nunca chega a conhecer tudo.
Mas se cairmos na tentação de achar que o máximo que podemos conhecer, para nos completar, é conhecer os anjos, entrar em relação com eles, colocá-los na posição de “objeto central” de nosso coração, jamais seremos felizes de verdade. Porque os anjos não esgotam nossa sede pelo conhecimento completo.
Assim, somente a relação com Deus, verdade completa e originante, nos pode saciar o coração. Conhecer os anjos, entrar em relação com eles, contemplá-los, tudo isso é bom, mas não é aí que está a felicidade plena do ser humano. Além disso, parar nesse conhecimento seria o equivalente a renunciar à possibilidade de ser feliz de verdade.
- Encerrando por enquanto.
Não podemos cair na armadilha de imaginar que o ser humano é um aglomerado acidental de inteligência e vontade; esta é uma armadilha na qual Tomás não cai, embora tenhamos que ter atenção para ler seus textos. Ele escreveu antes da modernidade, e portanto pode falar em virtude intelectual sem estar contaminado pelo racionalismo moderno. Ou, como diz o Papa Francisco na Dilexit Vos, “Muitos, para construir os seus sistemas de pensamento, sentiram-se seguros no âmbito mais controlável da inteligência e da vontade. E, ao não se encontrar um lugar para o coração, como algo distinto das faculdades e das paixões humanas consideradas separadamente, também não se desenvolveu suficientemente a ideia de um centro pessoal, em que a única realidade que pode unificar tudo é, em última análise, o amor”. Neste erro Tomás não cai. Mas alguns dos seus leitores, se não forem suficientemente atentos, podem cair.
No próximo texto veremos, a partir dos princípios que Tomás nos apresenta aqui, as respostas que ele oferece aos argumentos objetores iniciais.
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