1. Introdução.

A política, para os antigos – a partir do pensamento de Aristóteles – sempre foi vista como a arte de alcançar o bem comum, de conduzir a coletividade, aquela rede de relações que normalmente era chamada de “cidade” ou “polis”, à sua plenificação, às suas metas, à sua felicidade. Neste sentido, o poder era entendido como aquela capacidade de governar, quer dizer, de determinar os caminhos da coletividade ao bem comum. A lei era vista, então, como uma ordenação da razão, feita por aquele que tem a condução da comunidade, para conduzi-la ao bem comum, e devidamente promulgada. 

Nos tempos modernos, a política passou a ser vista como a arte de alcançar e manter o poder – entendido como a capacidade de impor sua própria vontade àquela de outros indivíduos na comunidade, de modo a transformar sua vontade em lei – já que é a vontade, não a razão, que faz a lei, segundo os modernos (voluntas, non ratio, facit legem, segundo a conhecida frase de Hobbes). Neste sentido, alcançar o poder significa ter a capacidade de fazer sua vontade prevalecer sobre os demais, controlando e impondo a lei. Seria este, no fundo, a meta final do ser humano? Será que a nossa vida tem seu sentido na busca pelo poder? Os poderosos seriam, então, os verdadeiros seres humanos plenos, e por isso felizes?

Eis o debate que faremos neste artigo.

  1. A hipótese polêmica inicial. 

Para provocar o debate, a hipótese inicial propõe que a busca e a conquista do poder, a busca de alcançar aquela condição em que se pode fazer a própria vontade prevalecer sobre toda a comunidade, é  o fim último, o sumo bem, a plenitude e a felicidade do ser humano. Há três argumentos iniciais que tentam sustentar esta hipótese contra eventuais objetores. Vamos examiná-los.

  1. Os argumentos objetores iniciais. 

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que nada pode ter mais semelhança com Deus do que um poderoso, alguém que tem o governo de uma comunidade. De fato, diz o argumento, a própria Bíblia parece apontar para essa semelhança, quando determina, em Êxodo 22, 27, que o respeito aos governantes é análogo ao respeito a Deus: “não blasfemarás contra Deus, nem insultarás o chefe de teu povo”, diz a passagem bíblica. Ora, se os que detêm o poder merecem um respeito análogo ao que é devido a Deus, então a realização máxima do ser humano, aquilo que o torna mais parecido com Deus – e portanto tão pleno e realizado quanto o próprio Deus, é deter o poder em suas mãos, e este deve ser o fim último do ser humano, diz o argumento, de um modo um tanto temerário. 

 O segundo argumento objetor. 

O segundo argumento nos lembra que a busca do ser humano, aquela busca que deve pautar toda a sua vida e dar sentido aos seus atos, é a busca por aquilo que o aperfeiçoa, que o leva à plenitude de sua maturidade como ser humano. Ora, prossegue o argumento, o ser humano é mais perfeito quando consegue governar plenamente a si mesmo – e portanto será ainda mais perfeito quando tiver o poder também para governar os outros, seus semelhantes, o que é justamente a prerrogativa daqueles que detêm o poder. Logo, buscar, alcançar e manter o poder é o fim último, é aquilo que dá sentido e leva alguém a ser pleno e realizado, conclui irrefletidamente o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

Parece claro que aquilo que é o bem supremo do ser humano, aquilo que o aperfeiçoa e realiza a plenitude de sua vida, é justamente aquilo que mais devemos desejar e buscar. Portanto, aquilo que mais nos repele deve ser aquilo que é mais oposto a isso. Ora, nada é mais odiável, mais repugnante, do que a condição de escravo, de servo, de submisso. E o que mais fortemente se opõe a essa condição é a condição de senhor, de governante, de poderoso. Logo, a coisa mais desejável, aquilo que consuma e dá sentido à vida do ser humano, e que ele deve buscar acima de tudo, é o poder, conclui este argumento.  

  1. O argumento contrário à hipótese inicial. 

Quando alguém é realizado e feliz, ele está numa situação de perfeita tranquilidade e repouso, livre de tensões, medos e sobressaltos, porque é alguém maduro, pleno e virtuoso. Mas o poder é, acima de tudo, tensão, incompletude, inquietude. Como diz Boécio, na obra “Consolação da Filosofia”, o poder que alguém ostenta não o alivia das apreensões e cuidados, nem o livra do espinhoso fardo da ansiedade”. E este grande pensador prossegue: “Será que consideramos poderoso àquele que é cercado de servos a quem ele impõe terror, mas que ele teme ainda mais?” Logo, a situação dos poderosos não pode ser o fim último no qual o ser humano encontra sua felicidade plena, conclui este argumento. 

  1. Encerrando por enquanto.

Riquezas, honra, glória, poder. São os quatro bens avaliados nestes primeiros quatro artigos da questão 02 da parte I-II da Suma. Todos estes são bens externos à pessoa, não fazem parte de seu corpo, nem de sua alma, mas estão nas relações com aquilo que é externo a alguém. Tomás jamais negou – nem negará – que são verdadeiros bens. Mas não são o fim último do ser humano. 

No presente texto, o enfoque foi sobre o poder. Mas Tomás revisará a importância e o verdadeiro lugar dos quatro na sua resposta sintetizadora. Não se trata, como veremos, de rejeitá-los (já que são, de fato, bens), mas de ordená-los adequadamente, não transformando em central aquilo que é secundário.

Veremos mais sobre isto no próximo texto.