1. Retomando para concluir.

Fama, sucesso, prestígio, glória mundana. Tudo isso pode ocorrer para qualquer um, bom ou mau, de maneira justa ou injusta. No mundo das redes sociais, a fama pode ser comprada, desde que se adote a estratégia correta – pagar impulsionamentos, acionar bots, pagar para ser entrevistado em podcasts, participar de reality shows, manter contas em redes diversas, contratar uma assessoria de imagem, tudo isto está virtualmente às mãos de quem quiser pagar o preço. É claro que existe, também, a fama e o prestígio que decorrem de algum ato extraordinário, de algum talento bem exercido, de alguma capacidade política notável em tempos difíceis. Mas isto também é, de certo modo, incontrolável. E é de se ressaltar que a fama e o prestígio merecidos nunca foram o objetivo de quem os conquistou – seu objetivo era fazer o bem, ou mesmo fazer alguma coisa bem, e não necessariamente ficar famoso e cheio de prestígio com isso. Por isso, a fama, o prestígio, a glória mundana, nada disso pode ser o objetivo último, o sumo bem na vida de alguém, aquilo que dá sentido a todos os seus atos. Não é vivendo como um influencer ou como um astro do rock que o ser humano atinge a plenitude da maturidade, a completude da virtude, a felicidade da perfeição.

Vimos tudo isto no último texto. Agora examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O argumento nos lembra de que existe, na Bíblia, uma promessa de felicidade gloriosa para aqueles que sofrem tribulações nesta vida. Segundo Romanos 8, 18, essa recompensa é a glória futura, isto é, consiste em viver uma vida bem-sucedida, de sucesso, após as provações. Logo, a felicidade, que é o fim último do ser humano, consiste em desfrutar do prestígio que vem com o sucesso, conclui apressadamente o argumento.

A resposta de Tomás.

Nessa passagem bíblica, diz Tomás, não existe nenhuma promessa de sucesso, fama ou prestígio mundanos. Nós poderíamos dizer, hoje, com Tomás: a Bíblia não ensina nenhum caminho de “prosperidade”, como parecem acreditar alguns teólogos do século XXI. A única promessa de prosperidade mundana que existe na Bíblia é aquela de Satanás nas tentações a Jesus: Eu te darei tudo isto se, prostrando-te diante de mim, me adorares (Mateus 4, 9, ou Lucas 4, 7). A bem-aventurança prometida ao que encaram com valentia a própria cruz nesta vida, escorados na graça de Deus, é que o Filho do Homem o reconhecerá diante dos anjos de Deus (Lc 12, 8). Trata-se, portanto, de obter glória no céu, e não perante o mundo. 

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor nos lembra aquele princípio tão caro ao pensamento cristão, ensinado pelo Pseudo-Dionísio: o bem é difusivo de si mesmo, quer dizer, o bem, por si mesmo, tende a se difundir. Ora, quando alguém alcança a fama e o prestígio, isso significa que ele está sendo reconhecido pelo mundo como bom, ou como alguém que faz coisas boas. De fato, prossegue o argumento, o próprio Santo Agostinho nos ensina que a fama é ser conhecido gloriosamente e louvado publicamente.  Logo, a meta final da vida do ser humano deve ser a de ser famoso e prestigiado, conclui irrefletidamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

A fama ou o prestígio público só tem algum valor, diz Tomás, se decorre de um conhecimento verdadeiro, por parte do público, quanto a algum aspecto valioso na vida daquele que adquire esse prestígio. Basta lembrar, por exemplo, da Santa Madre Teresa recebendo o Prêmio Nobel da Paz – havia, nela, a serenidade de quem sabia que aquela honraria só tinha valor porque era a consequência da graça de Deus na vida dela, e ela só a aceitou porque o prêmio ajudaria seu trabalho de caridade e evangelização. Em suma, quando o mundo se assombra perante um exemplo verdadeiro de santidade, então há, aí, um tipo de fama e prestígio que pode ter valor. Mas, mesmo neste caso, a fama é mera consequência acidental de uma vida feliz e plena, de verdadeira aceitação da graça e da cruz, e não a causa da felicidade. Logo, a fama e o prestígio nunca devem ser o objetivo final daquele que busca verdadeiramente a felicidade

O terceiro argumento objetor.

Não há dúvida de que a busca do ser humano só pode ser por alguma coisa que represente uma realização estável, permanente, duradoura, não algo que possa ser perdida ao sabor do momento. Ora, a fama verdadeira, o prestígio público, podem até mesmo representar um tipo de “imortalidade”, e inclusive alguns famosos são chamados de imortais em ambientes como as academias de artes e de letras. Obter, portanto, esse conhecimento, essa fama, esse prestígio que nos torna capazes de permanecer na memória das pessoas mesmo quando nos formos desta vida, isto parece ser, diz o argumento de um modo um tanto irrefletido, a verdadeira felicidade, o objetivo final do ser humano

A resposta de Tomás.

É uma ideia falsa imaginar que a fama, o sucesso, o prestígio humano e social possuem algum tipo de estabilidade. São inúmeros exemplos de pessoas que foram célebres, mesmo depois de sua morte, para, tempos depois, transformarem-se em figuras odiadas e desprezadas pela posteridade. Outros foram cultuados por séculos, para depois serem completamente esquecidos na bruma do tempo. Mas a verdadeira realização humana não pode ser lastreada em algo assim tão frágil e volúvel. Logo, o fim último não pode ser a fama e o prestígio mundanos. 

  1. Concluindo.

A fama e o prestígio, a popularidade, a glória mundana, nada disso pode ser a felicidade perpétua e duradoura que o ser humano, mesmo quando não tem plena consciência disso, busca de verdade em seu coração. Quantas vezes os famosos desabaram, e quantas vezes conhecemos pessoas extremamente felizes e realizadas, mas completamente anônimas. Longe de Tomás desconhecer o fato de que também as pessoas boas e santas podem conhecer fama e prestígio mundanos – mas não é nisso que está fundamentada sua felicidade, quando é verdadeira.