- Retomando.
Vimos, no texto anterior, diversas opiniões sobre aquilo que ocorre pela alimentação. Lembrando que o interesse de Tomás, aqui, é teológico e filosófico, não simplesmente biológico.
Vimos, ali, que Aristóteles fazia a diferença entre a “matéria comum”, que compõe as coisas simplesmente por serem materiais, e a matéria “signata” ou quantificada, que é esta matéria que compõe o meu corpo, minha carne, meus ossos. É a matéria signata que faz parte da minha identidade pessoal. E o dinamismo da relação das pessoas com o ambiente se constata pelo fato de que a matéria que hoje compõe, digamos, uma planta, pode ser posteriormente incorporada ao nosso corpo. Não somos seres estáticos constituídos de algum tipo de matéria especial que estivesse somente em nós e não no resto do universo, como os antigos pensavam com relação aos astros e estrelas. Tampouco crescemos e nos mantemos em vida por alguma espécie de “esticamento”, como as borrachas, ou por algum tipo de “rarefação”, como os gases que se expandem.
Tudo isto visto, vamos ver, agora, o que realmente Tomás pensa, quanto à incorporação do alimento em nosso corpo e, por fim, em nossa identidade mesma.
- A resposta sintetizadora de Tomás, parte final.
A matéria “original” e a matéria acrescida. Uma falsa opinião.
Tomás nos lembra, a esta altura, que há pessoas que defendem que a vida humana pode, de fato, tomar a matéria comum do mundo para começar a existir; mas, uma vez formada a pessoa, a matéria que o compõe fica fixa nele até sua morte, de modo que a mesma porção de matéria faz sempre parte de sua personalidade. O alimento seria necessário para que a pessoa crescesse e até se mantivesse viva, devido ao desgaste energético que acontece pelo simples fato de viver. Mas essa matéria que nos chega pela alimentação, dizem essas pessoas, nunca fará realmente parte de nós mesmos. Mas Tomás não pode aceitar essa opinião (aliás também desmentida pela ciência de nosso tempo). ele nos dá três razões pelas quais essa opinião é falsa:
- Em primeiro lugar, essa teoria, diz Tomás, confunde os seres vivos com seres inanimados. Seres inanimados podem eventualmente se multiplicar, por exemplo por divisão; pensemos num grande bloco de mármore que pode ser cortado em inúmeras lâminas. Tomás pensava, também, no fogo, que pode aumentar e até fazer outra coisa entrar em combustão; mas hoje sabemos que o fogo não é um elemento, mas uma reação química. O fato é que, nos seres inanimados, não existe a capacidade de regeneração que vem da alimentação, e, consequentemente, não há a possibilidade de reprodução. A nutrição está diretamente ligada, portanto, à capacidade de nutrição, que é a capacidade de transformar o alimento em parte do próprio corpo e pertence apenas aos seres vivos.
- Essa relação entre a alimentação e a reprodução também se apresenta nos gametas; eles levam em si a capacidade de organizar a matéria da prole de modo a fazê-la dar origem a um novo ser da mesma espécie. Vale dizer: o gameta é capaz de assimilar a matéria alimentar e transformá-la no seu próprio corpo biológico. Ora, o gameta não teria essa capacidade se a própria alma animal, da qual ele é semente, não a tivesse.
- A nutrição não é necessária apenas na fase do crescimento, de tal modo que houvesse uma diferenciação entre a matéria “originalmente” humana, que vem dos gametas e não sofreria transformação (conforme esta teoria falsa) e a matéria acrescentada pela nutrição. A alimentação é algo que persiste mesmo na fase adulta, para a regeneração da energia e dos tecidos perdidos, de tal maneira que a identidade do ser persiste mesmo com a perda e reposição de matéria.
Assim, conclui Tomás, não é possível imaginar qualquer diferenciação entre a matéria corporal que nos vem pela herança dos genitores daqueloutra que nos vem pela alimentação. Em ambas existe perda e reposição de matéria, e a nutrição é o meio pelo qual esse dinamismo acontece sem que venhamos a perder nossa identidade ou a poder distinguir, em nosso corpo, aquilo que é “matéria original” e aquilo que é “matéria posterior, resultado da nutrição”. Essa diferença não existe.
3. Encerrando por enquanto.
Boas intuições de Tomás, confirmadas pela biologia e pela genética da ciência que veio séculos após seus escritos.
Nos próximos textos, munidos destes princípios, visitaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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