1. Retomando.

Vamos começar, agora, a estudar a resposta sintetizadora de Tomás ao artigo ora em debate. Lembramos que, no texto anterior, examinamos a hipótese polêmica de que aquilo que comemos não se incorpora de verdade em nossa identidade humana, de tal forma que, após o processo digestório, esse alimento absorvido não se integra realmente em nós. Vimos o primeiro argumento, que lembra o dito bíblico de Jesus em Mc 7, 19 e paralelos, de que aquilo que entra pela boca vai para o estômago e depois é evacuado, e portanto não passa verdadeiramente a fazer parte de nós. O segundo argumento faz uma diferenciação entre a nossa carne individual e a nossa carne humana (ou específica), dizendo que o alimento pode até se transformar em algum tipo de recheio carnal individual em nós, mas isso não seria verdadeiramente carne especificamente humana. Os outros três argumentos articulam ideias filosóficas de que, se a digestão pudesse de fato reconstruir nosso corpo desgastado, transformando o alimento naquilo que nós somos, não envelheceríamos, não morreríamos, mas ao longo da vida deixamos de ser a mesma pessoa que fomos no nascimento, para nos transformarmos em outra coisa, pela substituição de todas as partes em nós – e, disso, os argumentos concluem que não é verdade que o alimento se transforma, pela digestão, naquilo que nós somos. O argumento contrário é retirado da obra “ A Verdadeira Religião”, de Santo Agostinho, na qual ele diz que, pela digestão, os alimentos perdem sua forma e passam a compor nosso corpo

Conhecendo, pois, os termos do debate, podemos passar a examinar a resposta sintetizadora de Tomás. Sempre considerando os limites da ciência do tempo em que ele viveu. Tomás era um profundo conhecedor da ciência do seu tempo, e a respeitava muito, de tal modo que, se vivesse hoje, respeitaria os avanços científicos. Mas é impressionante ver que, apesar de todos os limites de conhecimento com que ele se deparava, as suas intuições filosóficas e teológicas continuam válidas, embora, é claro, de modo limitado. Sem mais delongas, vamos a Tomás.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás. Início.

A filosofia de Aristóteles. A matéria comum e a matéria individual.

Tomás nos lembra, logo no início, a dupla relação de todo ente material: ele tem relação com a verdade, por um lado, e com a existência, por outro. Assim, todo ser existente deve ser verdadeiro. Por isso, a natureza de cada ser reflete, na sua existência concreta, a verdade de sua composição.

No fundo dessa afirmação filosófica aparentemente tão complexa, reside uma constatação simples: tudo aquilo que existe no mundo material – inclusive nós, humanos – tem uma relação com Deus, ou seja, com aquilo que Deus nos criou para ser (e por isso é a verdade do ser). Um, na verdade cada elefante, foi criado para ser um belo e gigante mamífero na relação com sua família, sua manada, seu ambiente; essa verdade é eliminada quando os seres humanos passam, por exemplo, a ver os elefantes como fontes de marfim, e os abatem aos milhares. Por outro lado, os elefantes, individualmente falando, apresentam uma forte dinâmica de relação com a natureza e com os outros elefantes, de tal modo que este elefante tem seu próprio corpo e aquele tem um corpo diferente, embora todos eles compartilhem a mesma espécie. Essa relação de individualização é concretizada pela matéria individual do seu corpo, perfeitamente delimitada com relação aos outros elefantes – e mesmo frente à natureza em geral.

Ora, essa natureza, à luz dessa dupla relação, pode ser considerada de dois modos: de um modo geral, comum, assim como é pensada por Deus, e de um modo individual, concreto, assim como existe no mundo. 

Aplicando isso à natureza humana.

Olhando, então, a natureza humana: 1) de modo geral, podemos dizer que é verdade que qualquer ser humano, simplesmente pelo fato de pertencer à espécie humana, tem carne e ossos, assim como uma alma espiritual. E 2) podemos dizer que cada ser humano existente tem a sua própria carne, seus próprios ossos e sua própria alma. Portanto, podemos distinguir entre uma matéria em geral, que entra na composição da natureza de uma espécie, e a matéria individual, que compõe este indivíduo. Podemos dizer que anjos em geral não possuem corpo material, e seres humanos em geral o possuem; mas em nenhum dos dois casos estamos falando de uma certa quantidade de matéria concreta, por exemplo a carne de meus próprios ossos, mas estamos falando de carne e osso em geral.

Tomás, então, nos diz – em sintonia com a ciência de seu tempo – que esta diferença existe apenas para os seres da Terra. De fato, ele acreditava (com a ciência do seu tempo) que os seres cósmicos (astros e estrelas) não apresentavam essa diferença entre uma matéria comum e uma matéria concreta, porque apenas poderiam existir com a matéria que possuíam – a matéria dos astros e estrelas seria exclusiva para cada um deles. É difícil para nós, hoje, entender este pensamento. Basicamente, ele achava que os astros e estrelas eram indestrutíveis e imutáveis, porque estavam constituídos de uma matéria especialíssima que só servia para constituir a eles próprios, e portanto não podiam sofrer nem diminuição, nem aumento de matéria, nem transformação em seus corpos. A matéria do sol seria apenas “matéria do sol”, e estaria apenas no sol, de tal modo que, para o sol, não valeria a diferença entre “matéria comum” e “matéria concreta”: para os que pensavam assim, o sol não perde nem ganha matéria, e a matéria dele pertence a ele e a mais nenhum ser, não estando sujeito a mudanças. Para que o sol seja o sol, ele tem que ter aquela matéria e nenhuma outra, e nenhum outro ser poderia ter a matéria do sol. Hoje, sabemos que essa concepção é equivocada, e que a matéria que compõe o sol pertence à tabela periódica tanto quanto a que compõe nosso corpo. Mas isso não muda o argumento de Tomás: esse engano quanto ao sol, que é decorrente da ciência de seu tempo, em momento algum leva Tomás a se enganar com relação ao nosso próprio corpo. Veremos a seguir como Tomás raciocina corretamente, apesar desses pressupostos que se mostraram, depois, equivocados. É encantadora a maneira com que Tomás conclui corretamente a partir de dados científicos incompletos ou mesmo equivocados, e é surpreendente ver que as descobertas científicas posteriores não invalidaram, mas até reforçam, de modo geral, suas conclusões. 

A concepção errada dos que negam as transformações dos corpos concretos.

Ora, prossegue Tomás, há aqueles que pensam que os seres humanos também seriam, de certo modo, como aquela concepção do sol que eles tinham; isto é, nossos primeiros pais foram criados com a verdadeira “matéria humana”; que eles transmitem a seus descendentes. Mas como os descendentes se multiplicam, então a alimentação seria necessária apenas para dar “volume” aos descendentes, aumentando a quantidade de matéria humana que receberam de seus pais, sem que esse “aumento” seja realmente “matéria humana”. Todos nós, descendentes de Adão e Eva, seríamos como uma certa “liga” de matéria humana original e “recheio” alimentar, e isto nos ajudaria a conservar nosso corpo unido, mas esse “recheio” alimentar não seria propriamente “humano”. 

Tomás passa, então, a responder aos que têm uma opinião tão esdrúxula, dando quatro razões pelas quais essa opinião é falsa: 

  1. Os seres humanos são gerados e destruídos, e pouco importa se eles são compostos da matéria que existe no Japão ou no Brasil.  Aquela matéria que antes fazia parte do corpo de um ser humano pode, agora, fazer parte, por exemplo, do tronco de uma árvore ou do solo de uma campina. Exatamente porque o ser humano nasce e morre, multiplica-se e se destrói é que a matéria concreta que passa a fazer parte de um corpo humano passa a ser, em sua inteireza, “carne humana” e “ossos humanos”.
  2. Se existisse algo como uma “matéria humana”, como se acreditava que havia uma “matéria solar” ou uma “matéria estelar” (que, hoje, sabemos que não existe), então não poderíamos realizar trocas com o ambiente, nem nos multiplicar, como os seres que tivessem uma matéria exclusiva não poderiam interagir com o ambiente, nem se reproduzir, nem sofrer destruição. 
  3. Se a matéria humana não fosse dinâmica, e não fosse capaz de realizar essas trocas com o ambiente – principalmente pela alimentação – então o crescimento do corpo humano significa uma verdadeira diluição, ou rarefação, da nossa matéria. Como um elástico que se torna mais fino à medida que é esticado, ou um gás que se torna menos denso à medida que se expande, se nosso corpo humano não fosse capaz de incorporar a si a matéria externa. Não se pode imaginar que o crescimento e a multiplicação dos seres humanos se dê por meio de criação de nova matéria, porque a criação já está concluída, quanto à matéria que há no universo. Tomás intui, aqui, a lei natural que Lavoisier formularia séculos depois: no mundo material, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Tomás usa, aqui, o exemplo do fogo, que precisa da adição de combustível para crescer em volume. 
  4. Nessa mesma linha de raciocínio, Tomás lembra que não apenas os seres humanos, mas todo ser biologicamente vivo precisa incorporar em si os elementos externos, pela alimentação, para crescer e se reproduzir. De fato, diz Tomás, os vegetais e os animais em geral não crescem como se fossem objetos de elástico esticando e se tornando mais esguios pela rearrumação de suas extensões, nem como os gases que se expandem enquanto se tornam menos densos. Uma vez que não podemos imaginar que o crescimento e a multiplicação dos seres biológicos se dê por milagre divino (como se Deus mesmo tivesse que criar a matéria dos corpos que crescem e os corpos dos seres que surgem por reprodução), então temos que admitir que a ideia de que a digestão não faz incorporar nova matéria aos corpos dos seres vivos é falsa.

3. Encerrando por enquanto. 

A vida humana envolve uma dinâmica de relação com o mundo, e a alimentação é uma faceta importantíssima dessa relação. Daí a importância deste debate.

Ainda hoje, oitocentos anos depois do nascimento de Tomás, temos o velho discurso entre os que acham que o ser é algo fixo, rígido e imutável, e que portanto qualquer mudança é mera ilusão, mera falsidade – de tal modo que deveríamos manter em nós a mesma matéria com que fomos dotados ao nascer, sob pena de perdemos inteiramente nossa identidade no ser – como Parmênides acreditava; ou os que acham que não temos nenhum tipo de identidade, mas somos puro fluxo, puro devir, pura mudança, (que Raul Seixas, nosso poeta da insanidade, chamava de “metamorfose ambulante”), de tal modo que, a cada momento, somos pessoas diferentes do que éramos no momento anterior. Como explicar, pois, a permanência da identidade frente ao mistério da alimentação, que promove a substituição da matéria que nos compõe? 

Veremos as conclusões de Tomás, a explicação de sua própria posição na sua resposta sintetizadora, no próximo texto.