- Introdução.
Eis um daqueles debates que nos parecem, hoje, completamente obsoletos, por tudo o que sabemos a mais, em comparação com a ciência do tempo de Tomás. É claro que ele conhecia e respeitava a ciência de seu tempo; mas, convenhamos, era uma ciência com poucos recursos técnicos. No entanto, o exercício de acompanhar o debate que ele trava ainda pode nos ser muito útil, principalmente porque vivemos num tempo de ciência avançada, mas também é um tempo de muita pseudo-ciência e desinformação. Será útil, então, acompanhar a linha de raciocínio de Tomás, quanto à questão alimentar: será que aquilo que comemos se transforma, pela digestão, em parte do nosso corpo?
Antes de prosseguirmos, precisamos lembrar que os cientistas do tempo de Tomás conheciam apenas cinco elementos: os quatro elementos sublunares (água, fogo, terra, ar) e a matéria supralunar, que eles acreditavam que era imutável. Eles desconheciam a genética, então raciocinava em termos de forma e matéria, como já sabemos.
Passemos ao debate.
- A hipótese controvertida inicial.
Não podemos ler esta hipótese sob olhos contemporâneos. Sabemos, hoje, toda a química que envolve a digestão alimentar, e por isso tendemos a achar que esta discussão é desnecessária e enfadonha. MAs há, aqui, um viés filosófico que continua válido: em que medida eu posso dizer que aquilo que constitui o meu “eu”, a minha identidade, aquilo que eu sou, também é integrado por um corpo biológico que se alimenta? E em que medida o efeito da digestão dos alimentos se integra e passa a fazer parte de mim? Muito mais do que a simples biologia, ou a bioquímica, da digestão, o que está em jogo aqui é uma questão de identidade. Será que somos aquilo que comemos, como ainda hoje se costuma dizer (e de fato é slogan de alguns movimentos de saúde alimentar), ou será que essas estruturas biológicas que compõem o meu corpo não são propriamente parte de mim, minha identidade, mas apenas acidentes externos a mim?
Essa é exatamente a hipótese aqui. A proposta é defender a ideia de que nada do que comemos e digerimos passa, de fato, a integrar minha identidade humana. Ou seja, em outras palavras a hipótese quer dizer que não somos aquilo que comemos – ou melhor, aquilo que comemos não passa a ser o que somos. Há nada menos do que cinco argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese inicial. Vamos examiná-los.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita Mateus 15, 17: “Não compreendeis que tudo o que entra pela boca vai ao ventre e depois é lançado num lugar secreto?”. Ora, prossegue o argumento numa tentativa de fazer biologia diretamente a partir da palavra bíblica, aquilo que é expulso não pode se transformar em nosso próprio corpo. Logo, nada do que comemos se transforma verdadeiramente em nosso corpo, conclui apressadamente o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor retoma uma distinção presente no pensamento de Aristóteles. Aristóteles, quando trata das coisas vivas, faz uma distinção entre a espécie, que é aquilo que dá identidade à coisa, e a matéria, que é aquilo que compõe a coisa. Assim, diz Aristóteles, a carne que compõe os indivíduos pode eventualmente mudar, como é o caso de seres que são capazes de regenerar partes cortadas; mas a espécie da carne permanece. Ora, prossegue o argumento, aquilo que, em nós, é gerado pela transformação do alimento na digestão se transforma em nossa carne, mas não passa a integrar a nossa espécie, porque se desgastará e tornará necessário mais alimento, e assim por diante. Assim, aquilo que, em nós, é consumido e regenerado pela alimentação não faz propriamente parte de nós como membros da espécie humana, mas apenas como uma espécie de reserva externa de energia que não integra propriamente nossa identidade, ou seja, não se transforma naquilo que nós somos.
O terceiro argumento objetor.
No tempo de Tomás (pro uma visão que, hoje, sabemos que era equivocada), os médicos acreditavam que a umidade que existe em nosso corpo, e que é essencial para o que somos, não poderia ser recuperada, se fosse perdida. ora, diz o argumento, se o alimento digerido se transformasse naquilo mesmo que nós somos, essa umidade original nunca seria perdida. Logo, o argumento conclui que a digestão não transforma o alimento em parte da nossa identidade, ou seja, naquilo que nós somos.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento objetor parte de uma informação científica que estava em vigor no tempo de Tomás, mas que hoje pode nos parecer estranha. De fato, naquele tempo, os médicos acreditavam que nosso corpo seria formado de fogo, terra, ar e água, e que a perda de um desses elementos resultaria irremediavelmente em desequilíbrio e morte. Ora, prossegue o argumento, se os alimentos pudessem se transformar em nosso corpo mesmo, e passar a fazer parte de nós, integrando nossa identidade, então nunca haveria desequilíbrio e morte, porque os elementos perdidos seriam simplesmente repostos pela alimentação. Assim, conclui apressadamente o argumento, aquilo que comemos não se transforma em nós mesmos.
O quinto argumento objetor.
O quinto argumento objetor trata da dinâmica do desgaste e reconstituição do corpo humano, com relação à identidade individual. Ora, durante a vida o corpo sofre desgastes, e a alimentação nos fornece a energia para viver. Mas se todo o corpo fosse submetido a desgaste, e a alimentação fosse convertida em nosso corpo mesmo, então o ser humano que chegou à idade avançada já não seria a mesma pessoa que era quando era apenas um bebê, porque todo o ser corpo já teria sido substituído, e ninguém, com o passar dos anos, teria a mesma identidade. Então o alimento, pela digestão, não passa a integrar aquilo que somos, conclui o argumento.
- O argumento sed contra.
Como argumento contrário à hipótese inicial de que a digestão não faz com que aquilo que comemos passe a integrar a nossa identidade mesma, o artigo cita Santo Agostinho, que, na obra De Vera Religio, diz que o processo de digestão, que decompõe os alimentos que ingerimos, faz com que passem a integrar nossa forma humana, transformando-se nos membros do nosso corpo. Ora, os membros, quer dizer, as partes do nosso corpo, compõem aquilo que nós somos. Logo, os alimentos digeridos realmente se transformam naquilo que nós somos, conclui este argumento sed contra.
- Encerrando por enquanto.
Este artigo é longo e denso, e por isso será visitado por nós em muitos textos. Mas estamos alegres, porque é a última questão dessa primeira parte da Suma. Depois de oito anos de trabalho, estamos perto de acabar de visitar toda a primeira parte da nossa grande “catedral”, que é a Suma, e isso, com fé em Deus, ocorrerá justamente no ano em que Tomás completará 800 anos de nascimento.
Com relação ao debate neste artigo, devemos lembrar que estamos discutindo, aqui, muito mais a questão da unidade da identidade humana, que se compõe também dos dinamismos corporais, do que propriamente de alimentação e digestão. Esta questão nos mostra, muito agudamente, como a identidade humana é radicalmente diversa daquela dos anjos.
Nos próximos textos visitaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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