- Introdução.
Talvez seja muito fácil conceber o universo como uma grande máquina, como fez Descartes e tantos pensadores modernos, a partir dele. Mas esta não é a melhor metáfora. Deus não é o “grande relojoeiro”, ou o “grande arquiteto”, que criou uma máquina bem engrenada e deixou-a a funcionar sozinha, tornando-se, ele próprio, dispensável a ela – que seria, para estes pensadores, capaz de existir etsi Deus non daretur, quer dizer, como se Deus não existisse. Não é esta a concepção cristã do universo e da sua relação com Deus. Usando a analogia, poderíamos dizer que a relação seria muito mais análoga à de um músico com seu instrumento: é por causa das qualidades do instrumento que ele emite os sons no timbre e na altura que emite; mas sem a ação hábil e contínua do músico, os sons simplesmente não seriam emitidos. Diríamos, para continuar nessa analogia, que o sopro de Deus é a causa primeira da música, e as notas musicais emitidas com o timbre e a altura próprias são a causa segunda, a participação do instrumento musical na existência da música.
A pergunta é: essa sinfonia maravilhosa que é o desenrolar da criação na história resume e abrange tudo aquilo que acontece em seguida? Todos os eventos, todos os acontecimentos são dependentes da interação das causas segundas, na orquestração divina – ou seja, estão vinculados àquilo que, nesta questão da Suma, está definido como destino ou fado? O jogo das causas secundárias orquestrado a partir de um ponto de vista superior pelo Maestro Supremo explica e abrange tudo o que acontece na criação? Há seres, coisas, eventos, que não se explicam como resultado dessa interação? Em suma, tudo está submetido ao destino? Eis o debate proposto aqui.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese polêmica inicial, que é proposta para possibilitar o debate, é a de que nada acontece fora da ordem das causas segundas que são, afinal, dirigidas por Deus, por sua Providência, até seu destino, que já foi imutavelmente estabelecido por Ele antes de todos os tempos. ou, traduzindo em termos mais familiares para nós, nada acontece no reino da criação que não esteja submetido ao encadeamento das forças criaturais, sejam as forças naturais, sejam mesmo as forças sociais ou culturais – também estas entendidas como encadeamento de causas segundas. O universo seria, assim, um sistema fechado, em que Deus nunca agiria diretamente, mas sempre de modo mediado pelas causas secundárias – que, no entanto, seriam dirigidas providencialmente por Ele até o destino. Esta é uma hipótese que estabelece uma certa distância entre Deus e a criação, e uma certa determinação da causalidade secundária frente ao destino ou fado. Há três argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que, na obra “Consolação da Filosofia”, o próprio Boécio ensina que “o encadeamento do destino move o céu e a terra, equilibra os elementos entre si, transforma-os reciprocamente, renova todas as coisas que nascem e morrem pelo crescimento semelhante de embriões e sementes, envolve em si os atos e acontecimentos humanos, num encadeamento indissolúvel de causas”. A partir desta citação, tirada do contexto maior em que se encontra, este argumento quer deduzir que tudo está rigidamente submetido ao jogo das causas secundárias coordenadas pela Providência para seu destino inexorável, ou seja, nada escapa do rígido determinismo das causas segundas encadeadas pelo destino, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor cita Santo Agostinho, que na sua Cidade de Deus, volume I, Livro V, capítulo 1, afirma peremptoriamente que o destino é algo real, quando atribuído à vontade e ao poder de Deus. Ora, prossegue o argumento, a vontade divina é a causa de tudo aquilo que acontece, como diz o próprio Agostinho na obra sobre a Trindade. Logo, tudo está sujeito à ordem do destino e ao encadeamento das causas segundas regido por ele, conclui apressadamente este argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor também fará uma citação da Consolação de Boécio, retirada do mesmo trecho citado pelo primeiro argumento. Neste trecho, Boécio diz que o destino ou fado é uma disposição inerente a todas as coisas que são mutáveis. ora, prossegue o argumento, todas as criaturas são mutáveis, somente Deus mesmo é realmente imutável. Logo, nada no universo criado escapa às forças do destino, conclui irrefletidamente o argumento.
- O argumento sed contra.
Já sabemos que, após a hipótese inicial e os argumentos que tentam defendê-la, cada artigo traz um argumento contrário àquela hipótese, que nos impede de aceitá-la sem que sejamos forçados a uma reflexão mais profunda.
No caso presente, o argumento sed contra traz uma citação do próprio Boécio, tirada do mesmo trecho da obra Consolação da Filosofia, na qual o antigo filósofo nos afirma que “há certas coisas que, embora estejam sujeitas à Divina Providência, estão acima do encadeamento do destino”. Assim sendo, parece que Boécio reconhece que há acontecimentos, mesmo no mundo criado, que não podem ser inteiramente explicados apenas pelo encadeamento das causas segundas ordenadas ao destino. Quais acontecimentos serão estes? É o que Tomás examinará em sua Resposta Sintetizadora, que veremos no próximo texto.
5. Encerrando por enquanto.
Se o destino é capaz de envolver e explicar todas as coisas, a ciência humana seria capaz de abranger e compreender tudo aquilo que acontece no universo; deste modo, por exemplo, seria muito difícil explicar o heroísmo dos mártires ou a realidade da própria criação, como algo que existe em vez do nada (para citar Leibniz). Estaríamos em dificuldade para explicar certas realidades que são limítrofes para a própria ciência, como a criação ou o martírio. Mas estamos nos adiantando – este é um assunto, como já dissemos, para o próximo texto.
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