1. Retomando.

O destino é algo imutável, porque é o decreto prévio de um Deus onipotente e amoroso que conduz infalivelmente todas as coisas para onde ele quiser; mas ele sabe também que sua criação inclui criaturas livres, e por isso nossas decisões livres, orações, súplicas, ações e omissões espontâneas, estão previamente incorporadas nos decretos imutáveis de Deus. 

Mas isto é a conclusão. Por enquanto estamos discutindo a imutabilidade do destino a partir da hipótese prévia de que o destino não é fixado de antemão por Deus como algo fatalmente certo. Vimos os três argumentos iniciais, que tentavam provar esta hipótese relacionando a contingência das coisas criadas, sua provisoriedade e mutabilidade, por um lado, com a imutabilidade divina, por outro. Mas vimos, também, o argumento sed contra, que resgata a afirmação de Boécio de que o destino é, sim, imutável. 

Examinaremos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Sabemos que costumamos chamar de “destino” ou “fado” o desenrolar dos fatos aparentemente desconexos que, por providência, acabam levando aos fins preordenados por Deus em sua onisciência amorosa. Ou, como diz o velho ditado, “Deus escreve certo por linhas tortas”. Assim, qualquer que seja a configuração do desenrolar da história, humana ou natural, aquilo que, para nós, é simplesmente acaso ou sucessão mecânica, representa a sucessão que levará a vontade de Deus a concretizar-se, no fim. Desse modo, pode-se dizer que aquilo que, para nós, é o inesperado e imprevisível suceder-se de fatos causais, pela relação entre as coisas criadas, para Deus é o desenrolar de acontecimentos que se encaminhará até onde Ele quer.

Mas há muitos que imaginam que aquilo que chamamos de destino já está inelutavelmente inscrito no próprio mundo, de tal modo que tudo acontece fatalmente, irremediavelmente, sem espaços para acasos e para a própria liberdade humana. 

Há outros que creem que o destino está tão irremediavelmente fixado nas coisas que pode ser “lido” por videntes ou magos, por astrólogos e horóscopos, de tal modo que não adiantaria confiar em Deus para o futuro ou mesmo tentar mudar aquilo que já estaria decretado e inscrito nas estrelas. Todos os que creem assim estão errados.

Por outro lado, há aqueles que creem que podem “subornar” Deus de algum modo, fazendo-o “mudar de ideia” e alterar Seus planos divinos, por meio de sacrifícios, doações, ritos ou magia. Estes também estão errados. 

Deus é imutável, e sua Providência também. Mas ela não é fatalista: inclui o encadeamento natural das causas e toda a aparente aleatoriedade do encontro das liberdades criaturais. Podemos rezar ou não, podemos agir ou não, e nisso tudo somos livres. Mas Deus já sabe, de antemão, que rezaremos, e por isso ele já incluiu em sua Providência não somente o atendimento à oração, mas a própria oração que, livremente, elevaremos a Ele. Porque o encadeamento das causas segundas – dentre as quais se inclui a liberdade criatural – não está marcado por nenhum tipo de fatalismo irremediável, e tem espaço para nossas livres decisões, orações e atos, para o acaso e a contingência das coisas, de tal modo que, do ponto de vista criatural, Deus respeita, espera e acolhe nossa liberdade e a consistência da causalidade das coisas criadas.

Mas Deus não está sujeito ao tempo, nem submetido aos nossos interesses. Ele é poderoso o suficiente para ter ordenado infalivelmente o mundo no sentido que Ele quer, incluindo nessa ordenação a contingência e  a liberdade criatural, sem que, com isso, haja defeito ou falha na imutabilidade de Sua vontade que se expressa para nós como Providência. 

Deste modo, podemos dizer que o destino, quanto à condução divina, é imutável. Mas, para as criaturas, ele é livre e contingente. O amanhã pertence a Deus, mas nasce das nossas ações e dos acontecimentos contingentes das criaturas.

  1. Concluindo.

Isto responde às objeções iniciais, nas quais se defendia que, embora a Providência fosse imutável, seus efeitos no mundo das criaturas não o seriam. Na verdade, os efeitos predeterminados da Providência já levam em conta, graças à maravilhosa onipotência de amor que há em Deus, tudo o que há de contingente e livre no mundo, e portanto está predeterminado, mas sem fatalismos. A nossa resposta é a de uma serena confiança em Deus e de uma ativa construção do futuro. Ou, como dizia tão belamente São Bento, Ora et Labora.