1. Introdução.

Se o destino é algo fatalisticamente imutável, a oração não parece ser algo razoável: ela não mudará aquilo que, de antemão, é conhecido e inflexivelmente fixado por Deus. Por outro lado, a liberdade humana, a iniciativa livre de agir, seria impensável. É isto que pensam tanto os defensores de um fatalismo muito estrito, quanto aqueles que, defendendo um niilismo selvagem, enxergam uma concorrência direta entre a autoridade divina e a liberdade humana.

Ambos estão errados: a liberdade humana e a autoridade divina não são realidades do mesmo plano, isto é, não estão em concorrência entre si.  De um lado, estão as criaturas, mesmo aquelas livres, com sua capacidade de agir livremente, mas apenas de modo contingente, histórico e limitado. Por outro, está o Amor pleno, que é Deus, com sua capacidade de reconduzir ao caminho do amor mesmo as escolhas mais disparatadas das criaturas. Não conhecemos plenamente a vontade imutável de Deus, e por isso precisamos de oração – que nada mais é do que o estabelecimento de uma relação entre nós, criaturas, e o amor incondicionado.

Eis a grande importância do presente debate: de que modo se relacionam a providência incondicionada e absoluta, que não existe no tempo nem no espaço, mas para além deles, e nossa liberdade, decorrente de um conhecimento intra-histórico e limitado e de uma vontade apenas secundária e derivada? É o que debateremos agora: em que sentido podemos dizer que o destino é algo imutável e, ao mesmo tempo, pode ser compatível com a contingência da história e a liberdade das criaturas? Vamos ao debate.

  1. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial, para provocar o debate, é a de que o destino não é algo imutável de antemão, fixado rigidamente por Deus para além das contingências históricas de tempo e espaço, mas seria indeterminado e mutável. Há três argumentos objetores iniciais, que tentam comprovar esta hipótese.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor. 

O primeiro argumento objetor traz uma citação do antigo filósofo cristão Boécio, que afirma que o destino está para a Eterna Providência divina como aquilo que é plúrimo, contingente e mutável está para aquilo que é simples, eterno e imutável; e ele faz uma série de comparações por analogia, para mostrar que a relação entre o destino das criaturas e a providência de Deus seria análogo à relação que a história das criaturas tem com a plenitude divina, ou que o círculo tem com relação ao ponto central, ou que o tempo tem com a eternidade. Assim, o destino das criaturas não poderia ser algo imutável desde sempre e para sempre, conclui o argumento de modo inconsistente (como veremos no próximo texto).

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor cita o próprio Aristóteles (que, como sabemos, Tomás chama simplesmente de “O Filósofo”). De fato, diz o argumento, quando há alguma transformação, quando algo em nós passa da simples potência ao ato, isto nos transforma, nos muda em todas as dimensões. Ora, prossegue o argumento, vimos no artigo anterior que o destino está nas criaturas, como causas segundas das transformações que ocorrem no universo criado. Assim, o destino ou fado é algo inerentemente mutável, porque mutáveis são as criaturas, conclui apressadamente o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

Se o destino é algo implacavelmente imutável, então nada nos resta senão o simples fatalismo, porque todas as coisas que deverão ocorrer simplesmente ocorrerão de modo inevitável, necessário, e não há nada que possamos fazer para alterar o curso da história que já foi fixado desde sempre e para sempre, diz o argumento. Assim, não haveria mais nada que fosse contingente, mutável, acidental, livre, mas todas as coisas seriam determinadas e necessárias; mas sabemos que elas não o são. Logo, conclui o argumento, o destino não é algo imutável. 

  1. O argumento sed contra.

O argumento sed contra, que, como sabemos, buscar razões pelas quais não podemos simplesmente admitir a hipótese controvertida inicial, resgata, aqui, mais uma vez, o pensamento de Boécio, que escreveu bastante sobre este assunto e é considerado por Tomás como uma grande autoridade no particular. De fato, Boécio diz, nas suas “Consolações da Filosofia”, que o destino é uma disposição imutável. Logo, não podemos considerar que o destino ou fado é algo contingente e mutável, conclui, ainda que de modo incompleto, este argumento sed contra

  1. Encerrando por enquanto.

A questão do fatalismo, por um lado – que vê a liberdade humana como uma ilusão, já que nos vê apenas como máquinas muito complexas de reações químicas e físicas – ainda é algo discutido em nossos dias. Por outro lado, o niilismo hoje corrente tende a creditar tudo nos braços do “acaso” e da imanência, negando que haja uma condução pessoal e inteligente do universo – o que, por um lado, liberta a ciência para o estudo das causas segundas, que é seu campo próprio, mas, por outro, nega a transcendência e a providência. Esta confusão pode ser vista, por exemplo, no debate do design inteligente, que quer reduzir a condução de Deus ao plano do Deus das lacunas, levando à ideia de que a existência de mecanismos de seleção natural consistentes e suficientes negaria a própria Providência – quando, na verdade, são realidades de órbitas diferentes. Uma está no âmbito das causas secundárias, consistentes e capazes de ser objeto de estudo científico, e outra está no plano da providência, que se abre à sabedoria e à mística, mas não é menos real. Como o oleiro, que não prescinde de todos os processos químicos e físicos que agem sobre a argila, quando realiza sua obra.

No próximo texto examinaremos a resposta de Tomás a este belo debate.