1. retomando.

Se a história tem um sentido, se o universo tem um gestor, será que isto significa que não existe espaço para o acaso, o fortuito, o coincidente e o casual? E se não houver um grande gestor do universo, será que nada tem sentido, e portanto tudo é apenas acaso e coincidência? Perguntas complicadas e importantes.

No texto anterior, vimos a hipótese controvertida de que não existe nada que possa ser chamado de destino; vimos os dois argumentos objetores iniciais,que tentavam comprovar esta hipótese: o primeiro argumento citada São Gregório Magno,que nos exortava a não acreditar que pudesse existir algo como um destino ou fado. O segundo lembra que a palavra “fado’ tem a mesma raiz de “falado”, no sentido de “decretado” ou “predeterminado”. Ora, prossegue o argumento, se tudo na história foi rigidamente decretado de antemão, então não há margem para coincidências, para o acaso, para o casual e o indiferente. Mas sabemos que há coisas que ocorrem por caso fortuito, por coincidência ou por mero acaso, e daí o argumento conclui apressadamente que não existe nada como um “destino” ou “fado”. 

Colocados os termos do debate, vamos examinar agora a resposta sintetizadora de Tomás. 

2. A resposta de Tomás. 

A simples observação do funcionamento do mundo material nos faz observar muita coisa que ocorre fortuitamente, por acaso ou por coincidência: por exemplo, um raio atinge um galho exatamente no momento em que um animal passa por baixo da árvore, o galho cai e o animal morre. Ou, outras vezes, um pássaro desce ao chão para apanhar uma fruta, esbarra num pequeno galho e fica aprisionado num emaranhado de cipós. 

No primeiro exemplo, temos um caso fortuito. No segundo caso, temos uma situação que, para o pássaro, pode se apresentar como fortuito ou casual, mas que, examinando melhor, mostra uma intencionalidade superior: trata-se, na verdade, de uma armadilha, uma arapuca montada por um caçador de um modo que apanha o pássaro distraído. 

Portanto, um determinado fenômeno, observado sob um ponto de vista inferior, pode apresentar-se como casual ou fortuito, mas, examinando-se sob o ponto de vista das causas superiores, pode ser algo determinado de modo intencional. 

Um outro exemplo dessa diversidade de pontos de vista seria o encontro de dois empregados da mesma empresa num determinado ponto da cidade, em certo momento. Talvez os empregados, que não conhecem as missões dos outros empregados, interpretassem esse encontro, naquele lugar aleatório e naquele momento inesperado, como algo fortuito ou casual, já que nenhum deles teve a intenção ou o conhecimento prévio do encontro, nem o causou ou se deu conta de que estava sendo causado. Mas para o gerente responsável pelos dois, que planejou o roteiro deles de tal modo que eles se encontrassem justamente naquela praça e naquele momento, para, por exemplo, facilitar o retorno dos empregados à sede da empresa ao final do dia, o encontro nada tem de casual: foi plenamente intencional

Assim, para que se pudesse compreender a relação entre a liberdade, a casualidade e o destino, compreendido como o governo intencional e consciente de todas as coisas para seu fim, seria preciso que admitíssemos que as coisas que acontecem casualmente, fortuitamente, fossem, na verdade, submetidas a um poder causal maior, intencional, que pudesse comandar essas aparentes casualidades como peças de um conjunto cheio de sentido e intencionalidade. Mas isso é justamente o que muitos pensadores negam: que haja um governo pessoal, providencial, capaz de dirigir com sentido o rumo do universo material criado. Segundo santo Agostinho nos diz em “A Cidade de Deus”, este seria o pensamento de Túlio. Nos nossos dias atuais, este é o pensamento de tantos que se guiam pelo niilismo, pelo ateísmo, pelo deísmo e por tantas outras concepções que negam a realidade da Providência divina

Outros existem, ainda, que acreditam até num Deus criador, que já não se envolver com a condução do Universo: são os deístas, que creem numa concepção de Deus como um grande relojoeiro que já não precisa intervir no relógio, ou num grande arquiteto que, após construir sua obra, já não precisa trabalhar nela. Por fim, existem outros, como os cientificistas e evolucionistas radicais, que acreditam que as leis do universo, a relação entre os astros, as forças físicas, biológicas ou químicas são capazes de explicar todos os acontecimentos do universo, sendo desnecessário, como dizia Laplace, postular a existência de um governo divino para o universo e, portanto, negando qualquer tipo de destino ou fado que conduzisse as coisas aos seus fins e que não fossem, simplesmente, a relação entre as grandes forças naturais do universo. 

Estas opiniões, diz Tomás, são insuficientes para explicar tudo que ocorre no universo material De fato, diz ele, não se pode explicar todos os acontecimentos do universo material apenas como resultado das forças cegas da natureza e da evolução, ou mesmo do acaso e da coincidência, por dois motivos que não podem ser explicados simplesmente por tais razões:

  1. Em primeiro lugar, temos a indeterminação material dos atos humanos, que não estão predeterminados pelas leis naturais, sejam físicas, químicas ou biológicas. De fato, o mundo da cultura humana, o mundo da ética e da responsabilidade, que pressupõem a capacidade de conhecer e escolher, pode ser influenciado pelas grandes forças e leis naturais, mas não pode ser determinado por elas, como já vimos na questão anterior. porque tanto o intelecto quanto a vontade humanas são faculdades imateriais, e portanto não são determináveis mecanicamente nem são apenas casuais ou fortuitas, mas são verdadeiramente intencionais. Em suma, o espírito humano não está submetido a determinações externas fatais. Há a responsabilidade humana, porque há a liberdade.
  2. Em segundo lugar vem o fenômeno da contingência, do acidental, do acaso. por exemplo, diz Tomás, o fato de que, cavando uma sepultura, alguém encontra um tesouro. Nada determina nem causa esse encontro fortuito, nem se pode dizer que esse encontro está “inscrito na nossa natureza”. Mas, neste caso, é preciso uma inteligência que conceda unidade a essa experiência – quer dizer, a mente humana reúne, por sua interpretação, o fato de que estávamos cavando uma sepultura e viemos a encontrar um tesouro. Estes significados não são resultado de intencionalidade, que viesse a preceder o encontro fortuito, mas são uma interpretação posterior daquilo que, em sua fenomenalidade, é casual, fortuito. É claro, diz Tomás, que eu posso saber de antemão que há um tesouro enterrado num ponto desconhecido de determinado campo, e contratar um operário a pretexto de cavar sepulturas ali, para encontrar esse tesouro sem que ele saiba de antemão o que eu seu a respeito do tesouro. Neste caso, o encontro do tesouro será fortuito para o operário, porque não está incluído em sua intencionalidade, mas será intencional para mim, porque estava incluído na minha. Deste modo, opondo-se o acaso à intencionalidade, podemos dizer que as forças da natureza não podem gerar algo como um destino ou fado, simplesmente porque as forças da natureza, como as forças cósmicas, físicas, químicas ou biológicas, são desprovidas de qualquer intencionalidade. Por isso, diz Tomás, seria contraditório imputar algo como um sentido ou predeterminação àquilo que obedece apenas às leis da natureza.

Neste sentido, poderíamos dizer, por exemplo, que imaginar que algo como uma lei da evolução, no sentido de uma predeterminação estritamente natural, estritamente física, de que as coisas ficam melhores, mais organizadas, mais perfeitas com o tempo, apenas em virtude do acaso e da seleção, seria uma contradição – não pode haver verdadeira evolução ali onde não existe um sentido externo à própria natureza que permitisse mensurar, entre duas ou mais coisas, quais delas são mais evoluídas que as outras – isso pressuporia um padrão e uma inteligência diretora, ou seja, pressupõe a existência de Deus, que é exatamente o que a teoria evolucionista quer negar de início. O acaso e a seleção podem levar à maior ou menor adaptação às condições ambientais e até a uma maior ou menor aptidão para sobreviver e multiplicar-se, mas dizer que uma criatura é mais evoluída  que outra sem pressupor um padrão externo de comparação que estabeleça de antemão que a correspondência ao ambiente e a capacidade de sobrevivência e multiplicação é um bem a ser usado para a mesuração da superioridade evolutiva de um ser frente a outro é algo que dependeria de pressupor uma inteligência externa que tornasse valiosos, cheios de significados, esses atributos.

Portanto, pode-se dizer que o acaso e o fortuito existem no plano do universo material, e que a inteligência humana é capaz de imprimir intencionalidade e significado às coisas que ela própria prevê e determina; mas também é capaz de discernir, frente ao acaso e ao fortuito dos acontecimentos, a existência de uma mente divina que conduz de fora o porvir do universo material e dá sentido e unidade à história, humana e natural. Ora, diz Tomás, a própria vontade humana só é movida pelo Bem, isto é, é Deus, por sua bondade intrínseca ou pela bondade das coisas que criou em analogia à sua própria Bondade, que é capaz de mover, em última instância, a vontade humana. Por isso, mesmo aquilo que não pode ser considerado fortuito no mundo natural, por ser resultante de algua vontade humana, no fundo é reflexo da Providência divina também. 

Deus é poderoso o suficiente para ser providente sem excluir o acaso e o fortuito no mundo natural. É a esta capacidade providencial que chamamos de destino ou fado em sentido próprio. 

  1. Encerrando por enquanto.

Tudo está sujeito a Deus, mas a providência divina respeita o acaso e o fortuito na natureza, a contingência factual do universo e a intencionalidade cheia de liberdade humana; Deus é poderoso o suficiente para governar o universo sem violar essas dimensões. 

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.