1. Introdução.

Na questão anterior, o debate envolvia a ideia de um universo mecanicista, interinamente determinista, de tal modo que, dadas as forças naturais, de ordem física, química ou biológica, por exemplo, nada poderia escapar delas. 

O debate aqui é um pouco diferente: envolve a presença e os limites daquilo que podemos chamar de destino, fado ou sina: será que a existência e o desenvolver-se do universo, o desenrolar do tempo, tem um sentido que se estabelece de antemão, ou é um simples desenrolar sem rumo? Será que têm razão aqueles que, com Nietzsche, acreditam na lei do eterno retorno, e o caminhar do universo como um infinito regresso a si mesmo? Ou estariam certos aqueles que, como Spencer e outros evolucionistas, acreditam que a história caminha, movida por certo acaso, mas encaminhando-se a um progresso constante, de tal modo que aquilo que existe depois é sempre mais perfeito do que aquilo que existe antes – pensamento que deu origem a tantas tragédias racistas e etnocentristas na história recente?

O debate é interessantíssimo. Trata-se de harmonizar a providência divina, as forças naturais e a liberdade da criatura inteligente. É muito rico ainda no nosso tempo, muito influenciado por pensadores como Nietzsche, Darwin e Spencer, dentre outros. . 

Vamos ao debate. 

  1. A hipótese controvertida inicial.

Como vimos, mesmo em nossa contemporaneidade a ideia de que há algum tipo e sentido no desenrolar do tempo não está plenamente resolvido, já que conhecemos teorias evolutivas (que pressupõem, portanto, um estado menos evoluído, como ponto de partida, até um estado mais evoluído, como ponto de chegada), e teorias do ciclo infinito, como as de inspiração nietzschiana. Existem, também, ideias que envolvem a completa falta de sentido intrínseco para o tempo, ou seja, que vislumbram apenas as forças do acaso e da adaptação como atuantes na história. Esta última teoria é proposta, aqui, como hipótese polêmica, para possibilitar a instalação do debate: parece, diz a hipótese inicial, que não há nenhum destino prefixado ou mesmo conhecido de antemão. Há apenas dois argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese. Vamos examiná-los.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Numa de suas homilias para a Epifania, o próprio Papa Gregório Magno, reconhecidamente um homem de retidão de fé e profundo conhecimento, afirma; “que esteja longe dos corações dos fiéis pensar que há alguma coisa como o destino”. Logo, o destino não existe, diz apressadamente este argumento. 

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento acrescenta que aquilo que ocorre por força de um destino prefixado não é imprevisto. De fato, o próprio Santo Agostinho, na Cidade de Deus, afirma que a palavra “fado”, que significa destino ou sina, é derivada da mesma raiz de “falado”, de tal modo que aquilo que acontece por destino, sina ou fado é aquilo que foi previamente dito, ou seja, decretado por alguém que tem o poder de controlar a sequência dos acontecimentos. Ora, aquilo que se faz por previsão não ocorre por acaso nem por acidente. Portanto, se admitirmos que existe um destino um um fado decretado previamente, isto significa que não há nada que possa ter ocorrido nem por acaso nem por coincidência ou caso fortuito. Mas sabemos que há coisas fortuitas e casuais na história. Assim, conclui o argumento sem muita reflexão, não pode existir algo como o destino

  1. O argumento sed contra.

Aquilo que não existe não pode ser definido, diz o argumento sed contra. Mas Boécio, grande filósofo cristão, define o destino ou fado como uma disposição inerente às coisas mutáveis, pelas quais elas são submetidas à disposição da Providência. Portanto, conclui este argumento, deve existir algo como destino ou fado. 

  1. Encerrando por enquanto. 

O acaso não é propriamente uma explicação dos acontecimentos; na verdade, ele pode ser definido como uma ausência de explicações, já que explicar é apontar causas que conduzem o resultado, o efeito, numa determinada direção, encaminhando-o desde a potência até o ato. Ora, o problema está posto: como conciliar a contingência, a liberdade, a historicidade, de um lado, com uma noção de destino que torna tudo predeterminado de antemão, ou mesmo com uma ideia de evolução que tenta conciliar o aumento da complexidade do universo, por um lado, com a negativa da existência de Deus, por outro?

Bons temas para o próximo texto.