1. Retomando para concluir.

Vimos, nos últimos textos, que Tomás já intuía que o universo material não é um simples mecanismo submetido implacavelmente a leis inescapáveis, mas guarda em si uma margem de indeterminação, mesmo quanto às coisas que não são dotadas de inteligência. assim, se é implacável que, na presença de combustível, comburente e alguma fonte de ignição o fogo inevitavelmente se produza, nada determina que esses três elementos venham a se encontrar num dado ponto de tempo e lugar, de modo que a sua ocorrência natural é imprevisível. Além disso, como ensina a teoria do caos, uma pequena alteração nas condições antecedentes pode provocar grandes alterações no resultado. A formulação desse princípio, em nossos tempos, é normalmente expressada pela parábola da borboleta: uma borboleta bate as asas em Tóquio e uma tempestade se desencadeia em Nova York, dizem os teóricos do caos. Tomás, quanto ao mesmo princípio, escreve, na abertura de sua obra “Do ente e da Essência”, citando Aristóteles: “Um pequeno erro no princípio acaba por tornar-se grande no fim”. Se isto se aplica até a seres desprovidos de inteligência – e mesmo a seres inanimados – muito mais se aplica a seres dotados de inteligência e vontade, que são faculdades espirituais e, por isso, autônomas frente à matéria. 

Fortes nestes princípios, vamos agora examinar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que tentavam, equivocadamente, comprovar a ideia de que as leis mecânicas da natureza imporiam determinismo às criaturas.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas. 

 O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor afirma que, quando uma causa ocorre, seu efeito se segue necessariamente. Ora, as leis cósmicas da natureza, as leis da física, são causa suficiente para seus efeitos. Essas leis naturais não são contingentes, porque são intrínsecas mesmo ao funcionamento do universo. Assim, as criaturas estão submetidas necessariamente às leis inflexíveis da natureza, de modo determinista, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

As leis naturais não se aplicam  diretamente às coisas como se fossem um programa de computador que determina o sistema operacional de uma máquina. As leis naturais se aplicam no jogo de interações entre as criaturas, e descrevem a maneira pela qual as criaturas interagem entre si. Assim, por exemplo, não é a lei da gravidade que me atrai ao solo do planeta Terra, mas o fato de que estou próximo a ele e sua massa me atrai. Ora, a posição dos corpos no universo num dado momento é inteiramente acidental e contingente, de tal modo que os acontecimentos concretos que se dão no tempo e no espaço não sucedem de modo automático ou predeterminado, mas contingentemente. Logo, o universo não se comporta, com relação às suas criaturas que interagem, de um modo determinista

O segundo argumento objetor.

A relação entre as criaturas se dá de tal modo que, quando alguma criatura dispõe do poder total para provocar determinado efeito sobre a outra criatura, esse efeito se dará necessariamente. Assim, por exemplo, o sol possui poder para iluminar a face da Terra que está voltada a ele, de tal modo que essa iluminação ocorre necessariamente, quando é dia. Ora, as forças cósmicas são de tal modo avassaladoras que nenhuma criatura pode escapar a elas, e portanto tudo ocorre, no universo material, de modo determinista, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Nenhuma criatura cósmica, por mais poderosa que seja – como o sol que ilumina a Terra – tem poderes absolutos, de modo a gerar efeitos necessários e predeterminados de modo integral. Assim, por exemplo, mesmo a luminosidade do sol varia, para as criaturas da superfície terrestre, conforme a hora do dia, a latitude e a longitude, a presença de nuvens e muitos outros fatores acidentais. Portanto, o universo não é um mero conjunto mecânico, algo como um computador predeterminado, conclui a resposta (em termos atualizados, claro, por nós).

.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento pondera que, quando algum efeito natural não ocorre naturalmente em presença de sua causa suficiente, isto se dá por alguma outra causa que o impede, como no caso das nuvens que encobrem temporariamente o sol. Mas este fenômeno, quer dizer, a sombra provocada pelas nuvens, não é algo que escape à ordem das leis naturais; logo, é uma lei natural que impede a realização necessária do efeito de outra. Portanto, todas as coisas estão sujeitas à necessidade mecânica das leis naturais do universo, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás. 

É verdade que o impedimento natural ao resultado de algum fenômeno regido por leis naturais não representa uma exclusão da lei natural, mas apenas a confirmação do seu poder. Assim, o corpo opaco que se põe entre o sol e a Terra impede que a energia solar chegue à Terra, mas isso se dá em função das leis naturais que regem a interação entre essa energia e os corpos opacos. Mas essa interação, por sua vez, não se rege por nenhuma determinação: o fato de que haja nuvens num determinado momento e lugar é algo que não está determinado de uma vez por todas pelas forças e leis cósmicas, mas ocorre de maneira caótica e imprevisível. Logo, as leis cósmicas e naturais não impõem necessidade a todos os acontecimentos do universo, conclui Tomás. 

  1. Concluindo.

O universo não é um “grande relógio”, como propuseram alguns teólogos e filósofos influenciados pelo mecanicismo e pelo cientificismo. A Suma demonstra que este tipo de pensamento já lançava raízes no tempo de Tomás. 

Em nossos tempos, como já vimos, teorias como a física quântica e a teoria do caos demonstram que Tomás estava com a razão, embora, é claro, a Suma expresse isto de um modo que dificilmente pode ser compreendido por nós, hoje.