1. Retomando para finalizar.

Um mundo consistente em si mesmo, com as razões para a existência, o desenvolvimento e a geração das coisas inscritas na sua própria corporeidade. Um mundo que se dá ao conhecimento científico, que pode ser interpelado, conhecido, modificado, pesado e medido. Eis o mundo no qual as razões seminais estão inscritas. Mesmo uma eventual evolução não seria uma força cega guiada por uma seleção impessoal e cruel, mas o desenvolvimento das virtualidades que foram inscritas no mundo material desde a sua criação. Vimos, nos textos anteriores, a defesa que Tomás faz de um mundo assim: um mundo em que o logos, o sentido, que é o Filho, está inscrito no coração de cada coisa, em sua corporeidade mesma, como o DNA está inscrito nas células e, principalmente, nos gametas (o que é um excelente exemplo de razão seminal, aliás). Tudo isto vimos nos textos anteriores.

Examinemos agora as respostas de Tomás aos argumentos iniciais que tentavam comprovar a inexistência de razões seminais nas coisas materiais.

  1. Os argumentos iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

Quando falamos de “razões”, diz o argumento, estamos falando de algo inteligível; ora, as coisas inteligíveis, como as ideias, os discursos, as formas, são todas imateriais. Ora, as coisas corporais são todas materiais. Portanto, não podem existir, nelas, algo como razões seminais, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

As capacidades ativas e passivas das criaturas materiais, que estão inscritas em sua corporeidade mesmo e determinam que sejam aquilo que são e transmitam as qualidades que têm, não são “razões” no mesmo sentido que as razões que integram um raciocínio lógico. Mas são determinações que delimitam o ser das coisas e sua forma de agir, como o DNA de um ser vivo o identifica como sendo este ser e não outro, e é uma coisa material. Logo, essas razões seminais, como o próprio DNA, são chamadas de razões por analogia às razões inseridas num raciocínio – embora não sejam da mesma natureza.

O segundo argumento objetor

É o mesmo Agostinho que nos lembra que os demônios são capazes de realizar coisas que nos parecem prodigiosas, porque podem manipular certos aspectos do mundo material que estão ocultos nas criaturas materiais e que não são inteiramente conhecidos pelos seres humanos. É assim que se dão certos fenômenos paranormais e mesmo fisicamente inexplicáveis que atribuímos aos demônios, como possessões, infestações e deslocamentos de coisas. Ora, essas coisas se dão pelo poder dos demônios sobre os corpos, não por alguma capacidade de alterar as razões das coisas. De fato, razões são de ordem lógica, e os demônios não têm poder sobre a lógica, para alterá-la. Assim, seria imprudente dizer que há certas razões seminais inseridas na própria corporeidade material das coisas, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

As razões pelas quais as coisas existem, as capacidades e potencialidades, ativas e passivas, que as coisas têm, estão inscritas em sua corporeidade mesma. Hoje, oitocentos anos depois de Tomás, sabemos disso com mais precisão ainda do que o próprio Tomás o sabia, porque conhecemos realidades como o DNA e as estruturas moleculares que carregam em si informações sobre o próprio modo de ser das coisas animadas e inanimadas. Estas coisas podem ser, eventualmente, influenciadas para usos demoníacos – eu me arriscaria a dizer algo que o próprio Tomás jamais poderia prever: nossa civilização descobriu o uso demoníaco, por exemplo, da radioatividade, e construiu bombas atômicas que devem alegrar profundamente o Diabo. Toda a capacidade, toda a razão do funcionamento das bombas atômicas estão inscritas na matéria que as compõem, como razões seminais dos danos que elas podem provocar. Que São Tomás interceda por nós e que Deus impeça seu uso!

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor parece ter uma influência platônica muito forte. De fato, ele afirma que podemos chamar de sêmen, ou de semente, aquilo que é capaz de agir sobre a matéria, imprimindo nela um modo de ser que a determina. Ora, sabemos que aquilo que imprime à matéria o seu modo de ser não é, por sua vez, material, como o carimbo que marca o papel tem que estar fora do papel. Assim, são as formas ou ideias universais, e não algum tipo de sêmen ou semente, que age sobre a matéria, marcando-a. A matéria é, portanto, estritamente passiva, e somente as formas são ativas. Assim, conclui o argumento, não existe nenhuma realidade, na própria matéria à qual pudéssemos chamar de razões seminais

A resposta de Tomás.

Chamamos de sêmen aquele princípio ativo que transmite as características aos novos seres vivos, em sua geração. Mas também reconhecemos que o sêmen traz princípios passivos, ou seja, a capacidade de ser transformado no encontro com o sêmen do sexo oposto, formando um novo ser no instante mesmo da geração. Portanto, além de todas as ideias e formas universais, existem princípios materiais concretos, de caráter ativo e passivo, que determinam a geração de novos seres vivos. Tudo isso demonstra que os corpos das criaturas trazem em si as marcas de suas próprias razões seminais, diz Tomás, afastando-se de qualquer tipo de platonismo espiritualizante.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento objetor é importantíssimo para que possamos entender o que era, exatamente, que Agostinho chamava de razões seminais e como ele entendia que elas estavam inseridas na própria corporeidade das criaturas. Sigamo-lo com atenção.

Não há dúvida, diz o argumento, que o mundo material guarda em si as conexões causais. São as causas (material, formal, eficiente e final) que estão em jogo no aperfeiçoamento dos entes e na formação de novos entes. Mas as causas não são iguais as razões: os milagres de Deus acontecem contra as causas (como as curas repentinas, as ressuscitações, as multiplicações de coisas materiais, etc.), mas nunca acontecem contra as razões: um ser humano nunca gerará, nem por milagre, uma vaca, por exemplo. Portanto, as razões são algo diferente das causas. Assim, se, por um lado, há causalidade na matéria, por outro lado não podemos dizer que há algo como razões seminais nela, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Quando Agostinho trata das razões seminais, diz Tomás, ele não faz essa separação radical entre causas e razões. Assim, por exemplo, os gametas reprodutivos trazem em si as razões seminais daquela espécie, e também são causa da geração de novos espécimes. De fato, Agostinho ensina que, assim como as mães, fecundadas, estão grávidas de seus filhos, também o universo material está prenhe das causas que gerarão os novos seres. É, de fato, enxergar no instante da criação, o cuidado de Deus que já inscreveu na própria matéria as razões que guiarão a futura existência de todos os entes que irão surgir ao longo da história. O desenrolar da história, sua evolução, não seria, assim, um processo cego, mas um processo querido e guiado pelo próprio Deus

Mas há, também, razões de natureza imaterial, diz Tomás. São as razões lógicas, formais, universais, que também podem ser consideradas como causais. Falamos, aqui, de realidades como as causas formais e as causas finais, que são também razões das coisas. Mas não são chamadas de razões seminais, justamente porque não fazem parte da própria materialidade das coisas. Assim, conclui Tomás, razões seminais são aquelas razões que estão inscritas na própria matéria das coisas, e que as fazem ser como são e transmitir o que são a outras coisas. 

Neste sentido, os milagres nunca são realizados com violação das razões imateriais, mas sempre contra as verdadeiras razões seminais

  1. Concluindo.

As razões seminais, que determinam que as coisas sejam o que são e transmitam seu modo de ser, existem e estão inscritas nas coisas. Esta afirmação de Santo Agostinho, defendida por São Tomás, permitiu o desenvolvimento da ciência: seguros de que o exame das coisas revelará, em sua corporeidade mesma, as suas razões seminais, a ciência veio a se desenvolver como método de investigação empírica de um mundo criado para ser inteligível.