1. Retomando.

O mundo material traz em si a “semente” de todas as coisas que já existiram, existem ou irão existir. Essa ideia de Agostinho foi retomada recentemente por uma corrente filosófica denominada de “realismo crítico”, marcada por nomes como Roy Bhaskar e Elizabeth Archer, na Inglaterra; para Roy Bhaskar, para que possamos explicar o fato de que a ciência existe, temos que pressupor uma realidade que pode ser conhecida pela ciência, ou seja, uma realidade cheia de razões; assim, Bhaskar diz que a realidade não se apresenta como uma só camada, mas tem pelo menos três dimensões interessantes: a dimensão do potencial, ou seja, a promessa de tudo o que pode chegar a ser; a dimensão do real, que é tudo aquilo que se tornou atual dentre todas as coisas que são potenciais (como aquela árvore que nasceu no meio da floresta, num ponto nunca visitado por seres humanos, no entanto existe real e atualmente), e a dimensão do empírico, ou seja, daquelas coisas que são reais e foram experimentadas pelo ser humano. Assim, um unicórnio, por exemplo, não está nem no plano do empírico, mas os acidentes geográficos de um planeta desconhecido estão no plano do real, mas não do empírico.

É num sentido semelhante a este que Tomás fala, aqui, de razões seminais: no sentido daquilo que já está inscrito no campo das potencialidades do mundo material, e portanto é mais do que uma simples possibilidade. Um unicórnio pode estar no campo das possibilidades, mas não há uma razão seminal para um unicórnio, porque ele não está no campo das potencialidades. Se as coisas são assim, podemos estar seguros de que o mundo material pode ser conhecido por nós – ele é razoável, porque está cheio de razões seminais. Mas onde estão as evidências para afirmar a existência dessas razões seminais?

Mais uma vez, estamos nos adiantando ao artigo da Suma. No texto anterior, vimos a hipótese de que não existem essas razões seminais, e os argumentos objetores que tentam negá-las. Vejamos, agora, a resposta do próprio Tomás a essa hipótese.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Sempre temos que examinar aquelas situações em que uma realidade se evidencia mais claramente, se queremos compreendê-la profundamente, diz Tomás, citando Aristóteles. Assim, para entender a questão das razões seminais, devemos investigar aquelas situações do mundo material em que tais razões se manifestam mais claramente.

Ora, diz Tomás, a situação em que essas razões se manifestam mais claramente é no mundo biológico, no mundo das coisas vivas, que podemos examinar para entender o mundo das coisas inanimadas. De fato, somente as coisas vivas se reproduzem em sentido próprio, quer dizer, somente os seres vivos nascem; portanto, a palavra natureza, que deriva de nascer, nato, se aplica originalmente às coisas vivas; mas foi progressivamente sendo aplicada por analogia a toda a realidade material, inclusive às coisas inanimadas. Hoje, nós dizemos, por exemplo, que o ouro não tem a mesma natureza do ferro, ou que a lua não tem a mesma natureza das estrelas. Todas estas são realidades inanimadas, Às quais aplicamos a noção de natureza de modo apenas analógico, já que as coisas inanimadas não nascem.

A ideia, agora, é explorar as razões seminais existentes nas coisas vivas, para depois proceder, por analogia, às coisas inanimadas, de modo a verificar se, nelas, encontramos alguma coisa semelhante às sementes e gametas encontradas no mundo das coisas vivas. Ou seja, se, assim como as coisas vivas, também as inanimadas trazem em si algum princípio que explique seu desenvolvimento e o surgimento de novos seres semelhantes a si. Ou seja, se podemos falar numa natureza das coisas vivas e das inanimadas. 

Ora, no mundo das coisas vivas existe sempre uma razão pela qual os seres adultos podem gerar novos seres idênticos a si mesmos, e que explica o fato de que os seres vivos, uma vez gerados, desenvolvem-se desta maneira e não daquela. Assim, uma semente de milho vai gerar um pé de milho que, uma vez crescido, nos dará espigas de milho. As razões seminais inscritas na semente de milho determina sua geração e seu desenvolvimento, e o mesmo acontece com os gametas dos animais, de tal modo que os gametas masculino e feminino de um casal de cães só pode gerar um cãozinho que, por sua vez, crescerá como cão e gerará, oportunamente, novos cães. 

Observando essa característica, Santo Agostinho propõe que toda a realidade está fundamentada nessas razões que levam as coisas a se comportarem assim e não de outro modo, ou seja, todas as coisas possuem razões que as encaminham no sentido de suas capacidades ativas e passivas a obedecer à sua natureza. Não somente a reprodução, mas todas as capacidades de um ente estão definidas por suas razões seminais

Adotando esta visão de Santo Agostinho, que, aliás, a ciência no nosso tempo, de certo modo, recebeu e confirmou (basta pensar na genética, ou nas forças físicas fundamentais, ou mesmo na regularidade universal que a física de nosso tempo observa no universo), Tomás aponta que esta noção de razões seminais, ou seja, daquilo que, na própria constituição das coisas, determina suas capacidades, virtualidades e modo de ser, tem quatro dimensões fundamentais:

  1. A primeira dimensão é aquela que está no próprio Verbo divino, ou seja, todas as coisas existem em primeiro lugar no Verbo e pelo Verbo, como está dito em João 1, 3: tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito. O Filho tem em si todas as razões de tudo o que existe. Os princípios, as ideias, não estão primeiramente numa realidade transcendente e impessoal, como acreditava Platão. Elas estão primeiramente no Verbo. 
  2. Em segundo lugar, os próprios elementos da Criação trazem, inscritos em si, todas as razões de toda a realidade criada. A matéria traz em si a possibilidade de ser qualquer coisa material, individualizando as formas; a forma traz em si a capacidade de especificar a matéria, fazendo-a ser isto e não aquilo; as potências e forças encaminham as coisas a se desenvolverem no sentido de sua própria perfeição.
  3. Em terceiro lugar, as razões seminais estão nas próprias coisas individuais, que obedecem à ordem para a qual foram criadas, exibindo sua própria natureza
  4. Por fim, as razões seminais estão nas sementes e gametas das coisas vivas, que permitem a sua reprodução. O sistema de reprodução de seres vivos está para os novos seres como as formas universais estão para as coisas individuais: elas determinam aquilo que a prole será.

3. Encerrando por enquanto.

Não devemos nos esquecer de que estamos estudando, nesta parte da Suma, o modo pelo qual Deus rege o universo que criou: vemos que esse universo obedece a uma lógica intrínseca na qual a natureza das coisas as encaminha para serem o que são e para transmitir, à prole, aquilo que a prole será.

De posse desses princípios, estudaremos, no próximo texto, a resposta de Tomás aos argumentos objetores iniciais.