- Introdução.
Os antigos já observavam que as coisas, na natureza, não se sucedem sem razão. Na Bíblia, já escutamos Jesus dizer: “Porquanto cada árvore se conhece pelo seu fruto. Não se colhem figos dos espinheiros, nem se apanham uvas dos abrolhos” (Lc 6, 44). Que característica da matéria é esta que faz com que a geração das coisas seja ordenada? Será que a matéria traz, em si, a possibilidade de ser qualquer criatura? Mas se fosse assim, poderíamos de fato esperar maçãs de laranjeiras e assim por diante. O fato é que as coisas são geradas segundo algum tipo de ordem, ou ao menos é assim que as coisas nos parecem. Deste modo, de fato, parecem existir razões, intrínsecas nas próprias coisas, para que a natureza conserve uma ordem na sucessão dos entes. Ou não? Eis justamente o que discutiremos neste artigo – a existência dessa ordem na natureza que os antigos chamavam de razões seminais. .
- A hipótese controvertida inicial.
Segundo a hipótese inicial, essas “razões seminais”, ou seja, aquela ordem intrínseca no mundo material pela qual as coisas não surgem sem explicação, mas sempre surgem devido a condições antecedentes precisas, como as laranjas não nascem em macieiras, simplesmente não existem.
Quer dizer, se há alguma regularidade no mundo material, isto não viria de alguma qualidade intrínseca a ele – propõe esta hipótese provocadora – mas de meras coincidências ou da intervenção direta de Deus a cada vez. Portanto, por exemplo, se há reação de oxigênio e hidrogênio e disso resulta água, isto não seria um efeito emergente da própria reação, mas uma atuação direta de Deus que faz a água surgir ali onde antes havia hidrogênio e oxigênio interagindo. Ou então é uma ocorrência fortuita, e da reação entre oxigênio e hidrogênio poderia surgir qualquer coisa, e não somente água.
Esta hipótese inicial será defendida por quatro argumentos objetores iniciais, que examinaremos em seguida.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento afirma que as razões das coisas está no plano das ideias, quer dizer, no campo do imaterial, do espiritual, e não do material. De fato, mais tarde, esta noção será retomada por Hume e por Kant, para dizer que o fato de que encontramos razões e conexões na natureza decorre muito mais do nosso modo humano de conhecer do que de alguma característica intrínseca do próprio universo material. O argumento, sem chegar a isso (afinal, essas discussões epistemológicas idealistas somente surgiram séculos depois da Suma) afirma que as razões pelas quais as coisas passam a existir não estão na matéria, mas no mundo das ideias, das formas. Logo, conclui o argumento, o mundo material não traz em si nenhuma razão seminal que determine que as coisas materiais sejam de um determinado modo e não de outro.
O segundo argumento objetor.
Segundo Santo Agostinho, os demônios são capazes de mover as coisas materiais, de causar alterações nelas, a partir de certos princípios que eles sabem que se encontram nos entes corporais. Ora, prossegue o argumento, se esses princípios permitem que os demônios movam as coisas, então não são princípios imateriais, mas elementos materiais, que eles podem deslocar a seu talante. Assim, esses princípios não podem ser chamados de razões seminais, porque razões são imateriais, e esses princípios, como foi visto, seriam sempre materiais. Logo, o argumento conclui que não existe algo que se possa chamar de razões seminais no mundo material.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento retoma um tema já debatido no artigo anterior. Ele afirma que as “razões seminais” são verdadeiras “sementes” das coisas, como o esperma e o óvulo são “sementes” de seres humanos, e o oxigênio e o hidrogênio seriam “sementes” da água. Mas para imaginar que as razões seminais fossem algo como sementes, nós teríamos que admitir que a matéria contém, em si mesma, o princípio ativo das coisas a serem geradas. Mas sabemos que o princípio ativo das coisas é a sua forma, não alguma parte ou pedaço de matéria, como o sêmen e os óvulos. Razões são argumentos, e portanto são imateriais, enquanto sementes são gametas, e portanto são coisas materiais. Assim, não há razões seminais nas coisas, conclui o argumento, apressadamente.
O quarto argumento objetor.
As causas são modos pelos quais as coisas se relacionam entre si, provocando efeitos umas nas outras. Assim, por exemplo, a fricção de duas pedras pode ser causa eficiente do fogo, e assim por diante. Ora, Quando falamos em razões seminais n]ao estamos falando da mesma coisa a que nos referimos quando falamos de causas: os milagres podem ocorrer contra as causas, como naquelas ocasiões em que Jesus acalmou o mar ou trouxe pessoas de volta à vida; mas não pode ocorrer contra as razões seminais, de tal modo, por exemplo, que do cruzamento de um casal de coelhos viesse a surgir um jacaré – coisas assim seriam absurdas, e não miraculosas. Assim, não podemos dizer que há razões seminais nas coisas, conclui o argumento, de modo ilógico.
4. O argumento sed contra.
O argumento contrário à hipótese inicial traz a posição de Santo Agostinho, que foi o propositor da teoria das razões seminais. Ele dizia que na própria corporeidade das coisas, aquelas geradas de modo corporal e visível, há certas sementes latentes, de tal modo que a geração de novas coisas segue uma certa ordem inscrita no próprio mundo material.
5. Encerrando.
É interessante que Louis Pasteur tenha comprovado, séculos depois de Tomás, que não há geração espontânea de seres vivos, como se os vermes surgissem espontaneamente da carne podre. Pasteur estabeleceu que os próprios microrganismos somente surgem por reprodução, e não brotam espontaneamente. Iso parece confirmar a intuição de Santo Agostinho de que o mundo material traz certas razões seminais que determinam que as coisas sejam de determinada maneira e não de outro. Se quero, por exemplo, ter um diamante, preciso de carbono e de fortes pressões e temperatura. Não posso obter diamantes a partir de água ou de ferro, por exemplo. Eis, pois, uma teoria que foi muito importante no estabelecimento da ciência moderna – que pressupõe a regularidade do mundo.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás ao problema proposto neste artigo.
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