- Retomando.
Vimos, então, que os anjos recebem a missão de guardar pessoalmente todos os seres humanos, mas ainda não sabemos se cada ser humano tem um anjo exclusivamente designado para cuidar dele. No texto anterior, a hipótese era a de que, embora todos os seres humanos de fato sejam guardados por anjos, isto não significa que cada ser humano tenha um anjo só para cuidar dele, com dedicação exclusiva, mas, segundo aquela hipótese, um anjo poderia ser designado para cuidar de muitos, ou até de todos os seres humanos simultaneamente. Mas vimos também um argumento sed contra que destaca o ensinamento de São Jerônimo, à luz de Mateus 18, 10b (“seus anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu Pai que está nos céus”) de que cada ser humano tem um anjo exclusivamente dedicado a guardar a sua pessoa. E é à luz deste debate que examinaremos agora a resposta de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Não há dúvidas, diz Tomás, de que cada ser humano tem um anjo da guarda dedicado, com dedicação exclusiva, a guardá-lo. E isto é parte da providência divina em nosso favor, ou seja, é parte do cuidado pessoal de Deus por nós.
Isto se dá em razão do fato de que nós, seres humanos, somos tratados por Deus de uma maneira diferente daquela com a qual ele trata todas as outras criaturas. De fato, somos criados com alma imortal e espiritual – somos os únicos seres materiais com esta característica. Deste modo, não somos destrutíveis do mesmo modo que as demais criaturas materiais. Se, por um lado, todas as criaturas vivas se perpetuam pela reprodução (que não impede a morte dos indivíduos, mas apenas mantém a existência coletiva da espécie), por outro lado nós, seres humanos, também nos perpetuamos pela reprodução, e também estamos sujeitos à morte. Mas, pelo fato de sermos dotados de almas espirituais, há uma dimensão em nós que sobrevive à morte e que, portanto, é indestrutível e perene: a nossa alma. Ora, diz Tomás, Deus trata de um jeito as coisas que são perecíveis e trata de um jeito diferente as coisas que são imperecíveis.
Por isso, para as demais espécies de seres vivos, basta um olhar genérico de um anjo, que acompanha toda a espécie indiscriminadamente, porque a sobrevivência da espécie é, para os irracionais, mais relevante do que a sobrevivência de cada indivíduo. Não há necessidade, pois, de um acompanhamento individualizado para os seres de outras espécies – já que os indivíduos não permanecem – a permanência é da espécie. Deste modo, basta que haja um anjo de Deus capaz de providenciar para a espécie, que é o que permanece, afinal. Porque, para Deus, interessa sempre ordenar aquilo que é perecível em função daquilo que é imperecível. Assim, diz Tomás, há ordens de anjos, como as Potestades, que são encarregadas de afastar os demônios, protegendo a criação contra eles; há ordens, como as Virtudes, encarregadas de intervir miraculosamente no universo criado, para efetivar a providência divina com relação a ele. E deve haver, diz Tomás, ordens de anjos encarregadas igualmente de cuidar das espécies de seres vivos.
Mas, no caso da espécie humana, como somos individualmente imperecíveis, seria conveniente que fôssemos também individualmente acompanhados e protegidos pela Providência, que designa um anjo dedicado exclusivamente a cada ser humano – a fim de nos guiar e proteger no caminho da eternidade – não como mera “sobrevivência da alma”, mas como salvação, isto é, como amizade eterna com Deus.
Há, portanto, um anjo diferente para cada ser humano, que o guia e protege no caminho da salvação.
- Encerrando.
O maravilhoso cuidado da providência divina para com cada um de nós estabelece um anjo diferente para cada um de nós, dedicado ao serviço silencioso e dedicado de nos vigiar e guardar em todos os momentos de nossa vida, e que será eternamente nosso melhor amigo. Não temos ideia do que isto significa, na prática: mas deveríamos nos maravilhar do fato de que há uma criatura imaterial, inteligente, livre, santa e poderosíssima sempre de prontidão para ser nosso cuidador. Graças a Deus por isto.
No próximo texto estudaremos as respostas sintetizadoras de Tomás.
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