- Palavras iniciais.
Estabelecemos, no texto anterior, que há anjos enviados em missão para proteger todos os seres humanos. A questão, agora, é a de saber se cada anjo recebe um ser humano concreto para guardar, ou se o mesmo anjo se encarrega de guardar diversos seres humanos. Vamos ao debate.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial, proposta para provocar o debate, afirma que, mesmo admitindo que todos os seres humanos são guardados por anjos, não existe um anjo para cada ser humano, mas o mesmo anjo pode se encarregar de guardar vários seres humanos simultaneamente. Assim, nós não teríamos anjos da guarda exclusivos, mas compartilharíamos o mesmo anjo com outras pessoas, segundo esta hipótese inicial. Há três argumentos que tentam provar esta hipótese.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra que os anjos, mesmo o menor dos anjos, é muito mais poderoso do que qualquer ser humano. Mas é muito comum que um mesmo ser humano seja encarregado de guardar diversas pessoas que são postas sob sua responsabilidade. Portanto, com muito mais razão, um mesmo anjo pode guardar diversos seres humanos, afirma o argumento.
O segundo argumento objetor.
A hierarquia dos santos anjos, como já vimos, é muito complexa, porque não há nenhum anjo igual a outro: cada anjo existe diferentemente, sendo único de dua espécie. Deste modo, há uma rígida hierarquia, na qual os anjos inferiores dependem dos superiores, aos quais se ligam por meio dos anjos intermediários. Portanto, em toda a hierarquia celeste apenas o mais inferior de todos os anjos poderia se dirigir aos seres humanos sem que houvesse algum intermediário entre ele e os homens. Deste modo, apenas o menor de todos os anjos poderia ter a incumbência de ser guardião dos seres humanos. Disto, o argumento conclui, apressadamente, que há apenas um único anjo que é anjo da guarda de todos os seres humanos.
O terceiro argumento objetor.
Já sabemos que os anjos são únicos, desiguais entre si. Isto significa que cada anjo é maior ou menor que os outros. Ora, todos os seres humanos são iguais em natureza e dignidade. Então, se houvesse um anjo diferente para cuidar individualmente de cada ser humano, isto significa que os seres humanos receberiam anjos da guarda diferentes em poder: uns teriam anjos mais poderosos, outros teriam anjos mais simples, e isto seria injusto. Então devemos concluir, diz o argumento, que o mesmo anjo guarda uma multidão de seres humanos, e não há anjos da guarda individuais para cada ser humano, diz o argumento.
- O argumento sed contra.
Já sabemos que, após apresentar os argumentos que apoiam a hipótese controvertida inicial, o artigo nos apresenta sempre um argumento que nos impede de aceitá-la.
No presente debate, o argumento sed contra nos lembra que, falando dos anjos que cuidam das crianças, Jesus nos diz, em Mateus 18, 10, que “seus anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu Pai que está nos céus”. Fala dos anjos da guarda, portanto, no plural, e São Jerônimo, comentando esta passagem, afirma: como é grande a dignidade das almas humanas, para que cada ser humano tenha, desde a concepção, um anjo delegado para o guardar. Portanto, conclui este argumento, há um anjo designado para cuidar de cada ser humano, pessoalmente.
- Encerrando.
O debate está colocado. De fato, já sabemos de antemão que a fé da Igreja nos ensina a individualidade pessoal do anjo da guarda, isto é, cada um de nós tem um anjo da guarda individual encarregado de cuidar de si pessoalmente. Mas Tomás não tem receio de debater abertamente este tema, fundamentando adequadamente aquilo que já sabe pela fé. É o que veremos no próximo texto.
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