- Retomando.
O debate, aqui, envolve, como vimos no último texto, a própria existência de anjos da guarda, individualmente encarregados de guardar as nossas pessoas contra o mal, e como harmonizar isto com a liberdade e a falibilidade humanas. Vimos que a guarda dos anjos existe, é contínua e necessária, já que estamos mergulhados num mundo espiritual para o qual somos, de certo modo, cegos. Mas isto não exclui nossa responsabilidade nem a necessidade da graça santificante para nos encaminhar ao céu.
De posse desses princípios, examinemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
- Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que os guardadores são sempre designados para cuidar daquelas pessoas que são incapazes de cuidar de si mesmas. Desse modo, as crianças e os doentes precisam desse tipo de guarda, assim como pessoas muito idosas ou com algum tipo de deficiência. Mas a maioria da humanidade é perfeitamente capaz de cuidar de si mesma, porque dispõe de livre arbítrio e de autonomia para exercê-lo, diante do fato de que os princípios éticos podem ser conhecidos naturalmente pelo homem – aquilo que Tomás chama de “lei natural”. Assim, não há sentido em propor que os seres humanos livres e capazes necessitam do cuidado permanente e individualizado de um anjo, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, pelo livre arbítrio e pelo uso da prudência no discernimento, com atenção à ética que se manifesta naturalmente à nossa reflexão, qualquer ser humano que tenha o uso da razão pode, de certo modo, evitar o mal. Somos naturalmente inclinados ao bem, mas a nossa natureza sofre a desordem do pecado original, de tal modo que a prudência e o discernimento podem ser enfraquecidos por paixões e afetos desordenados, dificultando que possamos, nos casos concretos, a partir de princípios gerais, encontrar a coisa certa a fazer. Nós podemos, ainda, sofrer tentações e influências malignas às quais somos, de certo modo, cegos, se não formos ajudados pela graça e pelo anjo da guarda. “De fato”, diz o Livro da Sabedoria (9, 14), “os pensamentos dos mortais são tímidos, e incertas nossas reflexões”. Por isso, a ajuda e a vigilância dos anjos da guarda nos é sempre necessária – embora não exclua, de modo nenhum, nossa própria liberdade e a consequente responsabilidade.
O segundo argumento objetor.
Quando alguém está guardado de modo mais firme, por um guarda muito forte, não precisa da guarda de um mais fraquinho. Se alguém está guardado por um exército, certamente não precisa de um vigilante desarmado como protetor.
Ora, as Escrituras dizem que Deus mesmo nos guarda pessoalmente a todos, no Salmo 121(120), 4: “Não, não há de dormir, nem adormecer o guarda de Israel”. Ora, se Deus mesmo guarda pessoalmente cada um de nós, não há necessidade de que sejamos guardados por anjos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A estrutura do ser humano determina que haja duas condições para que nos dirijamos ao bem: 1. Que nossa inclinação afetiva tenda ao bem. 2. Que nossa razão escolha os meios adequados para realizá-lo.
Quanto à tendência da nossa inclinação (item 01 acima), trata-se daquela educação das virtudes, que nos capacita a sentir alegria com as coisas boas e sentir tristeza com as coisas más. Como dizia Aristóteles na Ética a Nicômaco, é próprio do virtuoso alegrar com aquilo que deve dar alegria, e se entristecer com aquilo que deve gerar tristeza. Assim, por exemplo, um guloso se alegra em se empanturrar, e isso prejudica a sua saúde. Assim, o primeiro requisito para fazer o bem é ter as inclinações devidamente educadas na virtude.
Quanto à busca dos meios racionais para atingir o bem, trata-se daquele discernimento que a filosofia clássica chama de prudência, isto é, a capacidade de descobrir, na situação concreta, a maneira mais racional de atingir o bem. Se, por exemplo, alguém quer ir de São Paulo para o Rio de Janeiro, não seria prudente tomar a estrada que leva a Curitiba.
Assim, com relação à condição do item 01 – a educação dos afetos no sentido de desenvolver as virtudes – Deus mesmo nos infunde virtudes e nos fornece a graça para que possamos exercer as virtudes naturais. Mas com relação à segunda condição, Deus estabelece a lei eterna, a lei divina e nos dá a racionalidade para discernir a lei. Mas, com relação ao segundo requisito, a nossa prudência depende, além de toda a providência geral que Deus nos dá, de um discernimento concreto para o qual a ajuda dos anjos é essencial para nós. Ou seja, a dimensão em que Deus nos assiste não sofre, de modo algum, invasão ou redução por conta da providência dos anjos.
O terceiro argumento objetor.
Quando alguém é designado para guardar outro, a responsabilidade pela perda do outro é do guardador. Isto está na Bíblia, quando ensina: “‘Guarda este homem! Se ele escapar, a tua vida responderá pela sua.” (1 Reis 20, 39b). Ora, é inegável que os seres humanos caem repetidamente e rejeitam a graça, escolhendo o pecado e se afastando de Deus. Se os anjos fossem os guardiões dos seres humanos, caberia a eles agir de todos os modos para evitar essa queda, quer por intervenções miraculosas, quer por aparições extraordinárias, quer por qualquer outro meio que estivesse ao seu alcance. Mas isso não acontece, como sabemos da nossa experiência cotidiana. Assim, devemos concluir que não existem anjos guardando individualmente os seres humanos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Os seres humanos são dotados de inteligência e livre arbítrio, e por isso são responsáveis pelas próprias quedas. Os anjos os protegem por inspirações e orientações invisíveis que seus anjos lhes dão, rejeitando essa condução e elegendo o mal por deliberação própria. Deste modo, somos, nós humanos, responsáveis por nossas quedas, e não os nossos anjos. E, de fato, todos nós somos testemunhas de quantas intervenções miraculosas nossos anjos realizam em nosso favor, livrando-nos de tantas situações pecaminosas ou fisicamente perigosas.
- Concluindo.
Há, portanto, anjos designados para a guarda individual de seres humanos. Isto ficou bem estabelecido. O que resta questionar, agora, é se todos e cada um dos seres humanos têm anjos da guarda designados para a sua própria guarda. Veremos isto no próximo texto.
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