- Introdução.
Estudávamos, na questão 110, a relação dos seres espirituais com o mundo material, que é o nosso mundo. Estudaremos, agora, a relação dos anjos e demônios conosco, seres humanos; este é o tema desta questão 111.
Antes de prosseguir, lembremos, ainda que brevemente, sobre o conceito de iluminação. Como sabemos, Santo Agostinho defendia que todo conhecimento humano decorre imediatamente da iluminação de Deus. Tomás, por outro lado, defende, com Aristóteles, que o conhecimento do mundo sensível vem ao ser humano pela atuação do intelecto agente, que é uma estrutura interna do próprio intelecto individual; o conhecimento das estruturas do mundo material nos vem pela reflexão intelectual. Mas o conhecimento sobre a vontade de Deus, sobre a sua realidade, nos vem por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo, em primeiro lugar.
Quanto aos anjos, sabemos que um anjo ilumina o outro quanto à vontade de Deus que ultrapassa a natureza da capacidade intelectual do anjo. Um anjo ilumina o outro quanto à vontade de Deus.
O debate, agora, é sobre a relação entre o intelecto angélico e o nosso, quanto à revelação da própria vontade de Deus. Sabemos, por passagens bíblicas como os dois primeiros versículos do Apocalipse (Apocalipse 1, 1-2), que há uma mediação na revelação. Estes versículos nos mostram a revelação de Deus por meio de seus anjos a João, que, por sua vez, nos transmite o que recebeu. Note-se que, aqui, há a noção de que o conhecimento de Deus ultrapassa o contato individual com as Escrituras e a iluminação direta pelo Espírito Santo quanto ao que nelas está. Trata-se de um conhecimento concreto, existencial, relacional, ou seja, verdadeira intimidade com a vontade de Deus e seu governo sobre o universo.
À vista de passagens assim, será que, além do fato de que o anjo superior ilumina o inferior, que nós já estudamos em textos anteriores, também os seres humanos podem ser iluminados, quanto à vontade de Deus, pelos anjos?
Vamos ao debate.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese, colocada aqui para provocar o debate, é a de que os anjos nunca são intermediários entre Deus e o conhecimento que temos, nós, humanos, sobre Ele. Ou seja, os anjos não iluminam os seres humanos, diz o argumento. Há três argumentos iniciais, que chamamos de argumentos objetores (porque serão, adiante, enfrentados e corrigidos por Santo Tomás), que tentam confirmar esta hipótese inicial.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que é a fé que ilumina o ser humano quanto às coisas de Deus. Fé, aqui, não está colocada como o ato de adesão pessoal (fides qua), mas como conteúdo objetivo que nos é dado para crer (fides quae). Mas aquilo em que devemos crer vem como dom de Deus no batismo, pelo Espírito Santo que nos é dado, como diz São Paulo na Carta aos Efésios (2, 8): “Porque é gratuitamente que fostes salvos mediante a fé. Isto não provém de vossos méritos, mas é puro dom de Deus”. Se é assim, então a iluminação nunca vem pelos anjos, mas sempre vem diretamente de Deus para nós, conclui provisoriamente o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento resgata outro trecho das Cartas Paulinas, que trata da chamada “revelação natural”, ou seja, aquela revelação das coisas de Deus que está acessível a todos os seres humanos, independentemente da revelação em Cristo e do batismo. Tratando disso, São Paulo nos diz (Rm 1, 19) que “o que se pode conhecer de Deus eles o lêem em si mesmos, pois Deus os revelou com evidência”. O comentário da Glosa Interlinear sobre este versículo lembra que a revelação natural de Deus não vem somente do fato de que podemos contemplar a criação como um fato do passado, mas de que a própria dinâmica da relação permanente de Deus com Sua criação pode ser conhecida pela razão humana independentemente da fé, em sua atualidade na história, mesmo que de maneira muito superficial e incompleta, pela contemplação do agir das criaturas. Ora, tanto a razão natural que pergunta pela origem da criação, como a criatura que se dá à nossa contemplação em seu agir histórico, procedem imediatamente de Deus. Logo, é Deus que ilumina o homem imediatamente, e não os anjos, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Quando somos iluminados, diz o argumento, somos capazes de conhecer não só aquilo sobre o que fomos iluminados (a vontade positiva de Deus), mas também de identificar conscientemente quem é que nos está iluminando – como se dá com as Escrituras e com o agir de Deus e da Igreja na história. Ora, ninguém tem consciência de serem iluminados pelos anjos. Portanto, os anjos não iluminam os seres humanos, conclui o argumento.
- O argumento sed contra.
Não podemos simplesmente aceitar esta hipótese inicial, diz este argumento, porque o Pseudo-Dionísio, em suas obras respeitadíssimas sobre os anjos, nos ensina de modo firme que as revelações das coisas divinas nos chegam ordinariamente pelos anjos (como, acrescentaríamos, parece indicar o Livro do Apocalipse 1, 1-2). Ora, esta revelação ordinária das coisas divinas é exatamente o que se quer dizer pela noção de iluminação, conforme já debatemos anteriormente (q. 106, a. 1 aqui, aqui e aqui; q. 107, a. 2, aqui, aqui e aqui). Logo, os homens são iluminados pelos anjos, conclui este argumento sed contra.
- Encerrando por enquanto.
Colocados os termos da questão, leremos, no próximo texto, a resposta sintetizadora de Tomás.
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