- De volta para encerrar.
A palavra “milagre” é uma daquelas que atrapalha o pensamento unívoco. De fato, tanto a usamos para descrever grandes acontecimentos culturais ou econômicos (e neste sentido vemos manchetes alertando para “o milagre do crescimento do produto interno bruto”, ou “o milagre do cinema brasileiro”, ou coisas assim), quanto feitos mágicos atribuídos a ilusionistas ou mesmo curas ou sucessos inexplicáveis atribuídos a santos, anjos ou demônios. Mas, como vimos no texto anterior, só há um sentido fundante e originário para a palavra “milagre”: trata-se da relação direta e livre de Deus com suas criaturas, já que as formas e as potencialidades latentes no mundo não podem se impor a ele. Somente Deus pode se relacionar com o mundo desconsiderando, ou mesmo contrariando, o curso natural das coisas criadas.
Uma vez que o primeiro argumento objetor já foi respondido no texto anterior, estudaremos agora as últimas respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
- Os últimos argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor nos lembra que o próprio Santo Agostinho afirma que os magos e ilusionistas fazem milagres, embora como que por “contrato privado”, enquanto os bons cristãos os fazem em razão da “justiça pública” e os maus cristãos em razão dos sinais dessa “justiça pública”. Ora, o que ele quer dizer é que os magos fazem milagres por sua relação com os demônios, e os cristãos, por sua relação com Deus ou com os Santos Anjos. Logo, os anjos e demônios podem realizar milagres, conclui apressadamente o argumento.
A resposta de Tomás.
A definição própria de milagre, lembra Tomás, é a daquilo que é realizado além ou contra toda a ordem criada.
Ocorre que, uma vez que nós, humanos, não conhecemos a ordem inteira das coisas criadas, muitas vezes acreditamos que há milagre quando alguém usa um aspecto da natureza que desconhecemos para nos iludir. Assim, um mago pode usar um elemento natural raro para simular uma escrita invisível, que reaparece quando o elemento reage com algum outro elemento, e isto poderia nos parecer com algum tipo de “escrita milagrosa”. Mas de nenhum modo é propriamente um milagre em si mesmo, mas apenas para nós.
É assim que a relação dos demônios com a natureza, utilizando princípios naturais que são desconhecidos para nós, pode nos parecer miraculosa, gerando fenômenos que podemos interpretar como mediúnicos, ou fantasmagóricos, ou mesmo fantásticos. Neste caso, diz Santo Agostinho, há como que um contrato, um pacto entre o mago ou necromante e o demônio, para que os prodígios que se valem de aspectos naturais que nos são desconhecidos possam parecer verdadeiros milagres.
No caso, porém, da intercessão dos santos para a realização, por Deus, de verdadeiros milagres, Santo Agostinho os chama de milagres por justiça pública, já que o poder de Deus frente à natureza pode ser comparado ao poder do ordenamento jurídico público, com seus respectivos órgãos de governo, nos Estados.
Mas mesmo os cristãos que ainda estão longe da santidade, eles podem interceder pelos outros cristãos e por si mesmos, e podem presenciar milagres como a transubstanciação das espécies eucarísticas ou o perdão dos pecados, por exemplo, que nos são conferidos ordinariamente pelos sacramentos, pela oração da Igreja ou pelo tesouro de méritos dos santos, e por isso Agostinho os chama de milagres pelos sinais da justiça pública.
Ou seja, a intercessão dos santos e a vida da Igreja gera milagres em sentido próprio.
O terceiro argumento objetor.
Mais uma vez, Santo Agostinho nos ensina que não seria absurdo acreditar que todos os fenômenos que vemos acontecer, mesmo aparentemente inexplicáveis, são, em princípio, ocasionados pelas forças que habitam por aqui mesmo, na nossa atmosfera local. Ora, há fenômenos que ocorrem, por aqui, que não parecem decorrer de causas materiais visíveis ou identificáveis, como naquelas ocasiões em que alguém é curado de alguma doença sem tratamento independentemente de alguma reação natural do corpo. Logo, mesmo nestes casos, se é verdade que todos os fenômenos que ocorrem por aqui têm uma explicação interna ao próprio mundo criado, incluindo as “forças da atmosfera inferior” (ou seja, os anjos e demônios inferiores), então temos que acreditar que os anjos e demônios podem fazer milagres, e são eles os responsáveis por esses acontecimentos aparentemente inexplicáveis, conclui imprudentemente o argumento.
A resposta de Tomás.
Santo Agostinho está falando, aqui, daqueles acontecimentos prodigiosos que nos parecem milagres, mas na verdade são apenas a utilização de aspectos da natureza que não são claros para nós. Isto os anjos e demônios podem fazer, pela utilização do seu poder de movimentar localmente as coisas materiais e pelos chamados “germes” ou “sementes” corpóreos, ou seja, as potencialidades da matéria, quer dizer, as propriedades mais profundas do nosso universo material, que eles conhecem muito mais profundamente do que nós e sabem utilizar. É preciso muito cuidado para distinguir, então, entre o milagre, por um lado, e a maravilha suscitada, entre nós, pelo poder superior dos anjos, por outro.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento objetor lembra que, numa ordem hierárquica, o superior não está limitado pelo estatuto do inferior, de tal modo que aquilo que limita o inferior não pode limitar o superior. Assim, o regimento do soldado não se aplica ao general.
Ora, o mundo espiritual é superior hierarquicamente ao mundo material. Assim, o estatuto de limitações do mundo material, isto é, a ordem natural, não se aplica aos anjos e aos demônios. Portanto, anjos e demônios podem agir além ou contra a ordem natural, isto é, têm o poder próprio de realizar milagres, conclui imprudentemente o argumento.
A resposta de Tomás.
Não há dúvida, diz Tomás, de que os limites da ordem das coisas corporais não se aplicam aos anjos e demônios, simplesmente porque eles não são entes corpóreos. Mas eles são criaturas, isto é, a eles se aplicam os limites da ordem criatural em geral, que é, ainda, uma ordem natural. Por isso, a atuação de anjos e demônios que nos parece misteriosa e inusitada não se dá contra toda a ordem natural, mas apenas na ordem criada que nos é superior, e por isso é misteriosa para nós. Não é, no entanto, milagre em sentido próprio: somente Deus pode agir independentemente de toda a ordem criatural, e até eventualmente contra ela. Portanto, conclui Tomás, anjos e demônios não podem realizar milagres em sentido próprio por seu próprio poder.
- Concluindo.
Milagre é feito por Deus. Somente por Deus. Mas se dá no mundo criado, modifica o mundo criado e envolve suas criaturas. O milagre é, portanto, o modo extraordinário pelo qual Deus influi, altera, muda a história por sua atuação direta, sem excluir a participação harmoniosa de seus santos e involuntária dos réprobos em geral.
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