- Retornando.
A natureza guarda muitos mistérios, dentre eles a relação dos anjos conosco. Mas não há, aí, nenhum milagre. Mistérios e milagres são duas coisas diferentes: mistério é o que se pode conhecer, mas não se pode esgotar. Milagre é o que supera as leis ordinárias da natureza. A própria natureza é um mistério, mas nada, no seu funcionamento (incluindo a relação com os anjos) pode ser chamado propriamente de milagre. Somente Deus pode realizar milagres, porque somente ele instituiu a natureza e a conserva na existência.
No entanto, vimos, no texto passado, a hipótese controvertida de que anjos e demônios poderiam, por seu próprio poder, suplantar o funcionamento ordinário da natureza e realizar milagres. Vimos os quatro argumentos iniciais que tentaram comprovar esta hipótese, e o argumento contrário a ela (sed contra) retirado da Bíblia (o Salmo 135(136), que nos ensina, no versículo 4: “Somente Ele é que faz prodígios e maravilhas, porque eterno é o seu amor!”). Estudemos, agora, a resposta sintetizadora do próprio Santo Tomás, que nos esclarecerá o problema.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás, como é de seu costume, inicia sua proposta de solução a partir da definição do seu objeto. Aqui, ele começa definindo o que é propriamente um milagre.
Dizemos que há um milagre em sentido próprio, diz Tomás, quando acontece algo que está além ou contra a ordem da natureza.
Mas aqui precisamos de atenção. De fato, não basta que algo aconteça fora da ordem de uma natureza particular. As pedras normalmente caem em direção ao solo, por sua natureza, já que sua massa é atraída pela massa da Terra. Mas atirar uma pedra para cima não é um milagre, embora seja um movimento que contraria a tendência natural da gravidade. Um tratamento médico que interrompe a progressão de uma doença, uma prótese que devolve ou melhora o funcionamento do corpo, uma máquina que propicia mais produtividade a um trabalhador, nada disso pode ser considerado milagre: de fato, trata-se, nestes casos, de usar determinados princípios naturais para alcançar resultados que, mesmo não sendo espontâneos, são ainda naturais. Por isso, quando um ilusionista usa a habilidade de suas mãos e algum artefato previamente preparado para enganar a plateia, ele não está realizando milagre, mas apenas manipulando inteligentemente a ordem natural para atingir seus fins particulares.
Portanto, mesmo quando um anjo ou um demônio realizam alguma proeza que nos parece miraculosa, mas que não passa de um exercício de seus próprios poderes naturais sobre as coisas – que nos são misteriosos porque não nos são diretamente perceptíveis pelos nossos sentidos – isto não se constitui em milagre, senão na exploração de aspectos da própria natureza de uma forma que nos parece extraordinária. Ainda assim, não são verdadeiros milagres, por mais que pareçam inusitados aos nossos olhos.
Ora, somente Deus, que criou e sustenta toda a natureza, é que pode agir para além ou mesmo contra a ordem da natureza. E o faz não para “corrigir” algum defeito da natureza, que saiu de suas mãos como algo bom, nem para exercer algum poder despótico sobre ela, mas para marcar seu governo de amor e sua relação ativa com sua criação. A criação não é uma máquina saída das mãos de um engenheiro agora aposentado, nem algo como um relógio construído por um relojoeiro e que agora já não precisa do artesão para funcionar; a criação se assemelha muito mais à música que brota do agir do músico, ou a canção que nasce dos lábios do cantor, e que ele pode dirigir conforme sua intenção artística. Assim, somente Deus, autor e mantenedor de toda a criação, pode propriamente realizar milagres, conclui Tomás.
- O primeiro argumento objetor e sua resposta.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que o próprio São Gregório, grande autoridade em matéria de anjos e demônios, ensina que há uma ordem de anjos cujo encargo é o de fazer presságios e milagres; é a ordem das Virtudes. Ora, se há toda uma ordem de anjos com o encargo de fazer milagres, então fazer milagres é algo que está no próprio poder dos anjos, conclui apressadamente o argumento.
A resposta de Tomás.
Quando dizemos que algum Santo Anjo “fez” um milagre, na verdade podemos estar afirmando uma das duas coisas a seguir:
- Os milagres aconteceram porque eles intercederam junto a Deus, ao perceber a necessidade de um milagre e desejarem que tal milagre ocorresse. Neste caso, a ocorrência do milagre pela intervenção do Santo anjo não é diferente da ocorrência de milagre por intercessão de algum(a) santo(a) humano junto a Deus.
- O milagre acontece por determinação divina, mas os Santos Anjos do grau das Virtudes é quem faz as preparações necessárias, na natureza material, para que o milagre aconteça, como no caso, por exemplo, da Ressurreição dos Mortos no final dos tempos, ao reunir a matéria adequada para o ressurgimento dos corpos dos que já morreram.
Em ambos os casos, os anjos intercedem ou intervêm, mas é Deus quem realiza o milagre, propriamente falando.
4. Encerrando por enquanto.
Este assunto é muito interessante, mas o texto ficou um pouco longo. Estudaremos as respostas de Tomás aos outros argumentos objetores no próximo texto.
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