1. Retomando para finalizar.

Hierarquia e serviço. Posição na hierarquia do ser implica complexidade interna, constitutiva, ontológica mesmo. Talvez para nós, hoje, seja difícil imaginar uma hierarquia desse tipo, em que algumas coisas são mais perfeitas que outras, porque, para muitos hoje em dia, o universo é neutro em si mesmo, e qualquer valor é sempre colocado por nós, não por Deus. Assim, um universo sem Deus é um universo sem rumo, sem diferenças que não nasçam da vontade humana, do trabalho humano, ou até talvez do poder humano.

Mas o universo não é assim, embora alguns pensem que ele é. O universo tem Deus, tem rumo, tem governo e direção, tem valor intrínseco. Deste modo, há uma hierarquia do ser, que se fundamenta na analogia com Deus: quanto mais algum ente exibe proporção com Deus, mais alto ele está nessa hierarquia. Deste modo, os seres humanos pertencem todos ao mesmo grau hierárquico do ser, porque se estruturam a partir de uma única e mesma forma, a espécie humana. Os anjos, por outro lado, são únicos em sua espécie; assim, há uma hierarquia natural de anjos, na qual a maior capacidade intelectual representa um posto hierárquico mais alto.

A ordem, na hierarquia, porém, vem de outro critério: o agrupamento daqueles que têm a mesma função ou atuação. De modo similar àquele pelo qual os seres humanos se organizam em ordens pela sua posição social, os anjos também se dividem em razão de sua função ou atuação, dentro de cada grau de hierarquia, agrupando-se em ordens. Vimos tudo isto nos textos anteriores.

Agora, a partir de tais princípios, vamos reexaminar os argumentos objetores iniciais, que tentavam provar justamente o contrário disso, e estudar as respostas que Tomás dá a eles.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que, quando se multiplica a própria definição de alguma coisa, também se multiplica a própria coisa definida. Ora, diz o argumento, a própria noção de hierarquia realiza a noção de ordem: a hierarquia pode ser definida como nada mais, nada menos do que uma “ordem” de divisão. Ora, se eu puder dizer que em cada degrau de uma hierarquia existe também uma subdivisão em ordens, então eu tenho que admitir que o universo está caracterizado não por apenas uma hierarquia, mas por muitas hierarquias representadas por grupos e subgrupos, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Há dois sentidos para a noção de “ordem”, diz Tomás. O primeiro sentido é justamente a estruturação hierárquica de alguma coisa; assim, neste sentido, toda hierarquia é uma ordem. Mas há um segundo sentido, no qual um mesmo grau de uma hierarquia pode ser subdividido não por critérios de perfeição, de superioridade e inferioridade (como numa hierarquia), mas por critérios funcionais, práticos, de atividades agrupadas que nem sempre apresentam diferenças de superioridade e inferioridade entre si (como a ordem dos músicos não está submetida, por exemplo, à ordem dos artesãos). Assim, neste segundo sentido, toda hierarquia é uma ordem, mas nem toda ordem é hierárquica, e é neste sentido que dizemos que a hierarquia dos anjos está subdividida, em cada um dos seus graus, em ordens.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento coloca seu enfoque na questão dos diversos dons ou aptidões que podem caracterizar ordens diversas. A existência de ordens entre os seres humanos se caracteriza pela posse de dons ou aptidões próprios de certas categorias, que não são compartilhados por outras categorias. Assim, por exemplo, os médicos possuem a aptidão do cuidado e da cura, enquanto os construtores possuem a habilidade da engenharia. Uns possuem aquilo que outros não têm, e assim formam ordens diversas.

Mas entre os anjos as coisas não são assim. Os anjos não possuem algo como a propriedade privativa de dons e habilidades, porque tudo entre eles é colocado em comum, é partilhado e usufruído por todos. Assim, não poderiam existir ordens diversas entre os anjos, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não há dúvida de que não há algo como a “propriedade privada” entre os Santos Anjos. Ali, tudo é colocado em comum, de tal modo que todas as funções, todas as habilidades, todas as atividades são partilhadas para o bem comum de todos. Neste sentido, as ordens angélicas não são como as ordens profissionais humanas, que são construídas muitas vezes com intuitos privados e de lucro.

No entanto, mesmo entre os anjos, há aqueles que prestam o serviço, que exercem as funções, e há aqueles que se beneficiam do serviço ou da atividade de outro. Aqueles que prestam o serviço ou realizam determinada função possuem a respectiva habilidade de um modo mais perfeito, mais completo, do que aquele que simplesmente recebe o serviço ou se beneficia da atividade de outro. Assim, diz Tomás, uma fogueira colocada numa praça compartilha seu calor com todos os que estão ali; mas certamente ela possui esse calor de um modo mais perfeito, mais completo, do que aqueles que estão ao seu redor para se aquecer. Numa escola, o professor e os alunos podem compartilhar o mesmo conhecimento, mas certamente o professor o possui de um modo mais completo, mais perfeito, do que o aluno, e por isso professores e alunos estão em ordens diversas.

Assim, podem-se distinguir diversas ordens entre os anjos, mesmo naquilo que colocam em comum, a partir do exame daqueles que possuem o dom e o compartilham, por um lado, e aqueles que não o possuem e apenas se beneficiam do compartilhamento, do outro. Assim, mesmo numa sociedade como a dos anjos, em que não há propriedade privada, podem existir ordens diversas em razão da diversidade de dons e funções.

O terceiro argumento objetor.

Existe uma hierarquia na Igreja, que reflete e espelha, ainda que analogicamente, a hierarquia celeste.

Ora, na Igreja há três ordens: a ordem dos diáconos, que exercem as funções relativas à purificação do mundo no serviço pelo amor, a ordem dos presbíteros, que exercem as funções da iluminação espiritual, trazendo a luz de Deus àqueles que dela precisam, e a ordem dos epíscopos ou bispos, que exercem a condução geral do Povo de Deus até a perfeição final – sendo, portanto, perfectiva.

Ora, todos os Santos Anjos purificam, iluminam e aperfeiçoam de modo muito mais completo e perfeito do que qualquer ser humano, mesmo aqueles que compõem um grau da ordem sacramental na Igreja, diz o argumento. Assim, não há a possibilidade de fazer uma distinção de graus de ordem entre os Santos Anjos, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Até mesmo o menor anjo é superior, em todos os aspectos, em sua perfeição e em sua santidade, aos maiores dentre os filhos da Igreja militante nesta Terra, como dá testemunho o próprio Jesus, ao nos ensinar, em Mateus 11, 11, que, embora João Batista seja o maior dentre os nascidos de mulher, “no entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele”. Assim, mesmo o mais inferior dos Santos Anjos, aquele que está no último nível da hierarquia, é capaz de purificar, iluminar e aperfeiçoar melhor do que qualquer diácono, presbítero ou bispo da Igreja. Então não é por comparação com as ordens sacramentais humanas que os anjos se dividem em ordens, mas por outras diferenças que são próprias deles mesmos, conclui Tomás.

3. Concluindo.

Este estudo das hierarquias e ordens dos anjos está apenas começando. Já vimos que eles são naturalmente hierárquicos e que se agrupam em ordens em razão de sua atividade ou função. Nas próximas questões estudaremos a composição e a estrutura dessas ordens, suas divisões e suas atividades.