1. Retomando.

Santa Teresinha, num trecho muito bonito, compara o mundo espiritual a um jardim, “o jardim de Jesus. Quis Ele criar os grandes Santos, os quais podem comparar-se aos lírios e às rosas; mas criou também os menores, e estes devem se contentar em ser malmequeres ou violetas, destinados a deleitar os olhos do Bom Deus, sujeitando-os a seus pés. A perfeição consiste em fazer sua vontade, em ser o que Ele quer que sejamos”.

Esta hierarquia de amor existe, e, entre os humanos, tem sempre uma origem material: seja a compleição física, que determina que uns tenham cérebros ou corpos mais capazes do que outros, seja a estrutura histórica, cultural ou política, que dá a uns o poder político, a outros a direção econômica, a outros ainda as responsabilidades religiosas ou familiares. Mas todos os seres humanos têm a mesma natureza, a mesma espécie, a mesma dignidade espiritual.

Mas não ocorre o mesmo no mundo inanimado, nem no mundo espiritual dos anjos. Neles, há diferença de dignidade, de capacidade, de essência, o que determina que haja uma verdadeira hierarquia natural nessas esferas. E assim podemos observar no universo criado: há aquilo que é capaz de influenciar grandemente nas outras coisas, como o Sol, e há aquilo cujo aparecimento ou desaparecimento tem escassa influência sobre o entorno, como uma pequena erva no meio de uma floresta remota.

É o que estudaremos, agora, visitando a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Quando pensamos em hierarquia, pensamos logo numa forma escalonada do exercício do poder, ou seja, numa organização na qual a distribuição da autoridade se caracteriza pelo poder que eleva aqueles que o detêm, em comparação com aqueles que se submetem. Mas não é esta a origem da palavra. Na verdade, em sua origem, a palavra hierarquia significa simplesmente governo sagrado. Assim, no sentido estrito, há apenas uma hierarquia: aquela que submete tudo aquilo que é capaz de compreender inteligentemente e colaborar com esse governo (anjos e seres humanos) a Deus, na medida que se sujeitam livremente à providência divina. É nesse sentido que Santo Agostinho fala de uma cidade de Deus (hoje diríamos, talvez, país de Deus) para designar estes que reconhecem e se submetem livremente ao governo divino, e estão sob sua hierarquia, e de uma cidade dos homens, que congrega os que se rebelam contra a providência divina, sejam seres humanos, sejam os maus anjos (ou demônios) – mas compreendamos bem: estes últimos não podem escapar da providência divina, mas se submetem a ela como forçados, contra sua vontade, porque optaram por não ser livres. A rigor, portanto, em sentido estrito, há apenas uma hierarquia: aquela que tem Deus como seu ápice. E que envolve todo o universo. E cuja marca é o amor, não a submissão, nem o domínio arrogante.

Ocorre que o governo do amor é partilhado, e deve ser exercido respeitando as diferenças. Isso ocorre mesmo nas esferas políticas dos seres humanos: vemos que, ao lado do governo central sempre há esferas locais, como as províncias e os municípios, que têm sua própria organização – respeitando suas particularidades naturais, culturais e históricas. Povos diferentes, lugares diferentes, governos diversos, o mesmo princípio unificador: a busca do bem comum.

Também ocorre algo análogo no governo do universo. Os anjos têm naturezas diferentes entre si, e diferentes da natureza humana. Têm também uma relação diferente com Deus, pela qual são iluminados diretamente por Ele. Para nós, humanos peregrinos na Terra, a iluminação é sempre indireta, mediada, constituída de sinais sensíveis que estimulam nossos sentidos, como as palavras, os gestos, as coisas e símbolos sagrados. Por isso a forma hierárquica de reger os anjos é diversa da forma de reger os seres humanos. Se, entre os humanos, o governo sempre se distingue por elementos materiais diversos da própria essência humana (história, meio ambiente, cultura, diversidade de capacidades físicas e psicológicas, entre os anjos essa diferença é resultado da diferença essencial entre os próprios anjos, que têm constituição ontológica individualizada, e não compartilham (como os seres humanos de fato compartilham) a mesma identidade espiritual. A hierarquia angélica tem fundamento, portanto, no próprio ser dos anjos.

Assim, uma vez que os anjos são todos diferentes entre si de modo natural, e essa diferença envolve a própria mente dos anjos, ou seja, o grau e a natureza do seu intelecto, então podem ser reconhecidos três níveis em que os anjos, de acordo com seu modo de ser, podem ser reunidos:

1. Aqueles anjos mais elevados, que recebem do próprio Deus o conhecimento universal sobre a criação; são, assim, a ligação entre Deus, a inteligibilidade do universo e as demais criaturas. Estes contemplam a criação a partir dos olhos de Deus mesmo, e a compreendem nas razões que estão em Deus. Seriam, digamos assim, os anjos teólogos. A primeira grande esfera do governo universal.

2. Os anjos que compreendem as grandes estruturas inteligíveis do universo criado, mas o fazem a partir da contemplação do próprio universo, que são capazes de penetrar e compreender profundamente em sua universalidade mesma. São inferiores em penetração aos da primeira esfera, porque, ainda que tenham visão larguíssima, sua sabedoria é, digamos assim, de segunda ordem, por fonte secundária, derivada. Seriam algo como os anjos filósofos.

3. A terceira esfera seria a daqueles anjos que, tendo inteligência menos penetrante, mas, ainda assim, enormemente superior à humana, lidam com a gestão das coisas em sua individualidade, conduzindo-as em conformidade com as razões gerais do universo e as próprias razões divinas. Poderíamos talvez chamá-los de anjos cientistas, ou talvez anjos custódios ou gestores.

Desse modo, podemos vislumbrar o governo divino do universo num esquema que podemos compreender: a inteligibilidade divina, a inteligibilidade universal e a gestão individualizada. Diferentemente de nós, Tomás e toda a tradição antiga atribuía todo esse funcionamento do universo não a algum tipo de mecanismo cego ou impessoal, mas à hierarquia dos anjos, como já debatemos em outras oportunidades.

Mas atenção: precisamos ter muito cuidado para não introduzir nenhum tipo de hierarquia no próprio interior da Trindade, em suas relações imanentes. Na Trindade não há nenhuma hierarquia imanente; as três Pessoas são perfeitamente iguais em poder, conhecimento e amor. Hierarquia, em seu sentido próprio, consiste em transmitir aos outros o amor de Deus recebido, de modo a purificar, iluminar e aperfeiçoar aquele que está mais distante da fonte do amor. Nenhuma das Pessoas da Trindade pode estar mais distante, ser menos pura ou menos perfeita do que qualquer outra, e por isso seria um erro desastroso imaginar que há hierarquia na própria Trindade. A fonte do amor universal, que é Deus, não é intrinsecamente hierárquico, e por isso a hierarquia entre as criaturas não visa a dominação ou a submissão, mas a transmissão, às criaturas, do próprio amor divino que é perfeito e inabalável. Esse deve ser o fim de todo e qualquer governo criado.

3. Encerrando.

É claro que o anjo responsável por forças de ordem astronômica, como, por exemplo, as forças gravitacionais, tem uma complexidade muito maior do que aquele que cuida dessa plantinha; ou, para falar na linguagem de hoje, as forças envolvidas nos fenômenos astronômicos são muito mais complexas do que aquelas relativas a uma pequena erva na floresta. O universo, sob esta visão, é hierárquico em sua estrutura, e é de se esperar que, atribuindo as forças que o regem à condução dos anjos, também estes o sejam. Atribuir, pois, o governo do mundo aos anjos, é reconhecer uma hierarquia entre eles.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.