1. Introdução.

Eis aqui uma das questões mais interessantes em nossa contemporaneidade: a suposta concorrência entre a liberdade humana e a onipotência divina. Admitindo que Deus é onipotente e pode mover diretamente a nossa vontade, o que ainda restaria ao ser humano? Apenas uma submissão brutal à vontade divina? Será que a mera existência de um Deus onipotente e capaz de mover nossa vontade não seria uma ameaça à própria consistência da liberdade humana? Não há no mundo gente cruel o suficiente para classificar de “pecadores” e “infiéis” aqueles que não querem se submeter àquilo que eles próprios afirmam ser a “vontade absoluta de Deus”, que somente eles conhecem retamente e somente eles podem impor legitimamente? Será a liberdade humana apenas uma ilusão diabólica para nos perder? Por que Deus criaria um ente como nós, dotados de livre arbítrio, para depois manipular nossas escolhas, como um tirano insidioso? Será que os únicos seres humanos são aqueles que repetem o brado do Diabo de John Milton, “melhor reinar no inferno do que obedecer no céu”? Será que os únicos seres humanos realmente livres são aqueles que chegam ao final da vida sem arrepender-se das escolhas que fizeram, mesmo das mais cruéis e desorientadas, como canta Edith Piaf em “Je ne Regrette Rien”, ou somente porque foram afirmações de seu próprio ego, e não da tirania divina, a quem se orgulham de não ter se ajoelhado, como canta Frank Sinatra em “My Way”, ou de se fazer apenas e tão somente o que se quer, sendo esta a única lei da liberdade, como defende Raul Seixas em “Sociedade Alternativa”?

Enfim, trata-se de saber se 1) a relação de Deus com as criaturas envolve o poder de influenciar as vontades, e 2) se as vontades humanas e suas escolhas estão fora dos planos de Deus e não sofrem seu controle, ou 3) se a vontade de Deus concorre com a vontade humana, ameaçando-a, e finalmente 4) se ainda podemos falar em liberdade humana, quando admitimos que o governo que Deus tem do universo chega ao ponto de mover diretamente as vontades humanas.

Artigo essencial e empolgante. Vamos a ele.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial parte exatamente da ideia de que, para ser livre, o ser humano tem que ser dotado de completa espontaneidade em seu agir, de tal modo que não esteja submetido a influência ou mesmo a direcionamento que não nasça de si mesmo. Mesmo que esta influência ou direcionamento venha do próprio Deus, propõe a hipótese. Assim, a hipótese colocada para provocar o debate é a de que, aparentemente, Deus não pode mover diretamente a vontade da criatura. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial, para tentar comprová-la. Vamos a eles.

3. Os argumentosobjetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor é justamente o da espontaneidade necessária à liberdade. Tudo aquilo que é movido desde fora, por algo estranho à sua própria iniciativa, não se move livremente, mas forçadamente, de modo coagido. A criatura não é Deus, como Deus não é a criatura. Logo, Deus não pode mover diretamente a vontade da criatura, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Deus não pode se contradizer. Ele não pode fazer que duas coisas simultaneamente contraditórias sejam, ao mesmo tempo, verdadeiras. Ora, se a vontade é livre, ela não pode ser movida externamente sem deixar de ser verdadeiramente uma vontade. Porque a própria noção de vontade é a de “ser capaz de se mover por si em direção de alguma escolha adotada pessoalmente”. Mas se Deus pudesse mover diretamente a vontade da criatura, ela já não teria uma vontade, mas, na verdade, existiria apenas a vontade de Deus em ação. Logo, Deus não pode, sob pena de cometer uma contradição lógica incompatível com a própria natureza divina, mover diretamente a vontade da criatura, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor é um tanto pelagiano. Ele lembra uma lei da física que diz que, quando há algo que move e algo que é movido, o movimento resultante é atribuído mais propriamente ao que move do que ao que é movido: assim, dizemos que a locomotiva é responsável pelo movimento do trem, e chegamos a chamar de “foguete” a nave espacial, fazendo referência àquilo que, nela, é apenas o seu motor, e não seu todo. Por isso, também, quando alguém atira uma pedra em outra pessoa visando matá-la, o crime é do atirador, não da pedra. Ora, se Deus pode mover a vontade humana, então os resultados da ação humana não seriam propriamente imputáveis ao ser humano: se agiu bem por resultado do poder divino sobre sua vontade, o mérito é de Deus; mas se agiu mal, não pode ser culpado do fato de que Deus não quis mover sua vontade. Mas isto não é verdade: quando alguém age bem, tem os méritos de sua ação, e quando age mal, a responsabilidade é sua, não de Deus. Logo, Deus não é o movente da vontade humana, muito menos é o movente direto, mas o ser humano, exclusivamente, é quem move a própria vontade, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Como já sabemos, o argumento sed contra traz algum obstáculo à aceitação da hipótese controvertida inicial, fundamentado em alguma autoridade, como as Escrituras, o Filósofo, algum teólogo ou Padre da Igreja ou mesmo a própria Tradição ou o senso comum.

No presente caso, o argumento refuta a ideia de que Deus não pode mover diretamente a vontade humana com uma citação bíblica. De fato, é o próprio Apóstolo São Paulo que nos diz, em Filipenses 2, 13: “Na verdade, é Deus que produz em vós tanto o querer quanto o fazer, conforme o Seu agrado”. Ora, se as coisas são assim, então Deus pode mover diretamente a nossa vontade, conclui este argumento.

5. Conclusão.

Ver a hipótese inicial e acompanhar os argumentos objetores é algo muito forte, neste artigo. Ficamos quase como que angustiados, porque sabemos que Deus inclui, em seus planos, a liberdade humana, e é capaz de agir sobre a vontade do ser humano sem comprometer sua liberdade criatural. Mas como se dá isto?

É o que veremos no próximo texto.